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Sexta-feira, 12 de Agosto, 2022
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
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      VOLTA

      Natalia Borges Polesso

      Vou embora amanhã. Vamos ao karaokê! Ela disse enquanto enfiava uma ostra na boca ou, ao menos, foi o que eu pensei ter ouvido, dentro daquele som de onda, e fiz um eco. Karaokê?

      Ela arregalou os olhos, que eram minúsculos, e todos ao redor da mesa começaram a balançar as cabeças para cima e para baixo e depois de um lado para o outro. Sentada no Cais 22, eu tentava medir quanta água me separava da China naquela hora. Mais duas berinjelas, aquele peixe com malagueta e 2, 3, 5 Tsingtao. Presumi que dizia aquilo, porque apontava os pratos vazios e fazia uma contagem para quem estava ali, na seca. Arrisquei o «chãofành», arrastei bem o som final da vogal anasalada. Annie ergueu os olhos da tigela. Good job. «Xièxiè», pronunciei mexendo a cabeça para cima e para baixo. Ali terminava minha habilidade para a língua. Sorte que a comida já estava na mesa. Sorte que minha capacidade intuitiva e de percepção era bem mais aguçada que minha capacidade linguística. Ao menos em chinês e em cantonês. A língua do outro é um lugar estranho. Habitar este espaço, a língua do outro, fazia de mim uma pessoa engraçada. Ali eu habitava o inglês, o cantonês, o chinês e um português de consoantes esforçadas, que fazia meu nome soar como se estivessem engolindo águas espessas ou muito salgadas.

       

      O restaurante parecia muito com um boteco que eu frequentava na minha cidade, no Sul do Brasil, e ali, pensei que tinha atravessado o mundo para sentar no Kerwald de Macau. Imaginei os garçons, garçonetes, cozinheiras e cozinheiros correndo magnetizados a seus duplos de cabelos loiros, servindo Polar e Tsingtao, cachacinha de maracujá e o similar macaense, que não arrisquei provar. Talvez os chás fossem os mesmos. Talvez não. Os bêbados habitués falando alto e rindo de alguma piada igualmente sem graça. Quer chá? Wendy perguntou e, enquanto eu engolia um ramo de macarrão com amendoim, uma mulher sorridente já enchia meu copo. Não tem mais Tsingtao. Presumi que dizia aquilo, quando a mesma mulher não tão sorridente trouxe umas garrafinhas de rótulo azul com um pico nevado no rótulo. Não era. Ela só trouxe outra cerveja. Cerveja é cerveja, disse. Temos que ir escolher os mariscos. Escolher os mariscos? Cadeiras arrastadas no cimento cru. Todos levantaram para fazer algo que aparentemente era normal. Quase todos. O homem, cujo nome eu não poderia pronunciar, limpou a boca e, num inglês muito polido, me perguntou o que estava acontecendo. Vão escolher os mariscos, eu disse num inglês nem tão polido, porém simpático. Acho que temos que ir também. Ele sorriu e disse que não poderia comer mais nada. Vamos lá, tradutor de Borges! Mais uma cerveja e alguns mariscos antes de ir ao karaokê. Quando foi que disseram que vamos ao karaokê?, ele me perguntou surpreso. Pois eu também estou meio perdida, acho que foi antes do peixe frito. Do primeiro ou do segundo? Acho que você está querendo que eu saiba demais já. Levantamos juntos para ir até a frente do restaurante. Ao passar pela cozinha, vimos uma fumaceira saindo de dentro de uma das panelas e três ou quatro pessoas rindo muito alto. Rapidamente pude ver os sapatos de um deles sendo lançados para fora da janela. Ao notar nossa presença intrusa, se calaram em seriedade. Vamos indo, Natalia – percebi meu nome habitar na língua de um não-latino. Pressionando o «tal» com demasiada gravidade: nã_TAL_ia. Vamos.

       

      Atravessei o mundo. Voei sobre a Ásia, a Índia toda. Vi surgir nomes na telinha do avião: Mumbai, Dakka, Bankok, Guang, Shanghay, mais ao longe, Manila, parecia o mundo. Mas era só uma imagem plana do mundo, sem complexidades. Engraçado. Eram mais sons do que nomes de lugares dos quais eu guardo alguma imagem real. Se é possível dizer real. Eu perdi o fim do verão no Brasil, pensei alto, ao verificar fotos do mar no Instagram. Poucas pessoas que eu conheço estiveram em Hong Kong e acho que duas ou três apenas estiveram em Macau. Nanning, Liuzhou, Guangzhou, lembro-me dos nomes. Os nomes que não sei pronunciar, os nomes que ainda não cabem na minha língua e que pendem em desastrados sons. Não sei que horas são «de verdade», se isso importa agora. Meu corpo não sente mais o tempo em horas ou minutos, mas em cansaço, excitamento, saudade e comida. Muita comida. Talvez depois eu meça o tempo de outra maneira. Annie me tira do transe e comenta sobre meu caderninho, sobre como tinha gostado da capa. Eu digo que é handmade. Ela pergunta se eu já escrevi minhas impressões sobre Macau. Minto parcialmente. Digo que as coisas ainda não me encharcaram por completo, que preciso mergulhar um pouco mais fundo. Annie sorri e diz que se eu precisar de qualquer conselho, ela estaria à disposição. Fecho o caderno com minhas precárias considerações sobre sons e lugares.

       

      Acertamos as poucas patacas e saímos do Cais 22 para cair em uma rua obscura, longe da Macau das luzes e das grandiosas construções. Escapamos por baixo de andaimes, desviamos de ambulantes de comidas com cheiros fortes de óleo, metal e pimenta, margeamos água, a China, o mundo.

       

      Paro por um instante. Decolo. Me vejo no mapa. Um ponto ínfimo reluz.

       

      Chegamos a uma rua iluminada. Poucos carros passavam ali. Seguimos em direção a mais placas luminosas. Onde foi a Wendy? Entrou num edifício, creio. É aqui! Volta a cabeça de Wendi por trás de uma coluna de mármore. Elevador. Décimo segundo andar. No balcão, um homem nos aguardava com a chave de nossa sala. Vamos para uma sala? O karaokê que frequento na minha cidade é público. O que você quer dizer? Quero dizer que cantamos com todos, para todos. Wendy deu uma gargalhada e disse algo em cantonês ou chinês para Annie que esticou a testa em espanto e me disse you’re all very brave. Depois me explicaram que aquele era o momento em que extravasavam. Eu ri um pouco por dentro e pensei na profanação brasileira de extravasamento. Mesmo nós, os ditos frios gaúchos, somos expansivos. Pensei no quanto nos aproximávamos nós, os macaenes e os chineses. Tanto. Quanto? Bastante. Sentamos, o tradutor de Borges, Annie, Wendy e eu.

       

      Durante o borrão sonoro que parecia nos unir mais pela geração do que por nossos lugares, pensei novamente no quanto nos aproximávamos. Tanto. Quanto? Muito. Realmente, Spice Girls tinha sido um fenômeno mundial.

       

      Hora de ir embora. Eu quis seguir sozinha. As meninas me explicaram por quais caminhos ir, colocaram o tradutor em um taxi e eu segui respirando o ar noturno de Macau.

       

      Três ruas depois e eu estava perdida.

       

      Quer dizer, quase perdida, eu podia ver a coroa do abacaxi e sabia que meu hotel estava atrás dela. A coroa do abacaxi é o Grand Lisboa, 47 andares em 261 metros de altura. Inaugurado em 2007, mas, para mim, com um charme característico do final dos anos 1980. Enquanto andava pelas ruas, ora escuras ora extravagantemente iluminadas da cidade, considerei como seriam aquelas ruas alguns anos atrás. E como seriam daqui alguns anos. Exercício vão. O tempo é impossível em Macau. Assim como é impossível ficar perdido. Você sabe que de um lado está o mar, a enseada e do outro está a cidade e dentro da cidade está você e você vê o abacaxi. Um ótimo ponto de referência. Saí ao largo, tentando continuar perdida. Acabei numa escadaria. Algumas pessoas se aglomeravam. Cathedral. Não era uma igreja, era um café. It’s closed. Pena, falei em português. Ao ponto das primeiras despedidas? Onde fostes sem tino, ao vento vário, em redor, como as aves num aviário, até que a asita fofa lhes faleça… Sim, uma pena mesmo, me respondeu, a mulher pequena de óculos igualmente pequenos e grossos, que segurava um livro de Camilo Pessanha. Já vais amanhã? Sim. Sorri e continuei andando. As ruas de Macau frequentemente dão em lugar algum, voltam a si mesmas. Uma vez assisti a um trecho de um vídeo no qual aranhas teciam suas teias sob o efeito de drogas, era uma pesquisa da NASA. Fiquei pensando em como os habitantes mais famosos de Macau pensaram seus caminhos, sob o efeito de quê?

       

      Decolo novamente. A cidade parece dar este poder a seus caminhantes. Vejo bem essas avenidas que se ramificam em ruas, ruelas, becos, passagens, muitas passagens, e se Walter Benjamin tivesse fugido para Macau? E se, em sua fuga-passagem final, tivesse chegado à cidade que agora me confunde. Chego às ruinas de São Paulo, olho para a fachada com os olhos de dois amigos que fiz no dia anterior. Me disseram: para que um prédio 2D? Sorrio. Para que um prédio 2D, repito. O parque ao lado, o largo, a rua, as luzes, as farmácias camufladas de ervanárias, as passagens, os grandes bulevares. Percebo que dali eu sei me guiar de volta ao hotel. E volto. E volto de novo e mais longe por muito tempo até casa.

       

      Sentada à minha mesa, no agora, num mapa bem maior, um mapa que compreende a extensão do caminho desde esta cadeira até o ponto mais ao oriente em que cheguei; agora em Setembro a florir primavera relocada; agora tomando um café, Macau parece voltar a se esconder atrás de uma névoa.

       

      Antes viva em meus olhos, em suas cores, em seus cheiros e sons e gostos e medos e descobertas, antes presente em imagens e rostos e uma sensação de mapa no corpo, antes conhecida, a se apresentar, Macau agora, começa a se afundar em mim. E não a ouço mais, não habito mais sua língua. Talvez por isso eu consiga escreve-la na minha.

       

      E é por isso também que preciso voltar a Macau.

       

      É preciso mais uma vez ter Macau na superfície do corpo.

       

       

       

       

       

      Natalia Borges Polesso, escritora brasileira, doutorou-se em Teoria da

      Literatura pela PUCRS com a tese Literatura e cidade: cartografias metafóricas

      e memória insolúvel de Porto Alegre (1897-2013). Natalia é autora do livro

      Recortes para Álbum de Fotografia sem Gente (2013), vencedor do Prémio

      Açorianos de Literatura 2013 na categoria Contos. Coração à corda (2015),

      o segundo livro, apresenta uma selecção de poemas e narrativas curtas em

      prosa poética. Amora (2015), o seu mais recente livro de contos, foi vencedor

      do Prémio Açorianos de Literatura 2016 e do Prémio Jabuti 2016. Natalia

      também escreve crónicas semanais para o jornal Pioneiro, de Caxias do Sul, e

      é autora da tirinha tosca A Escritora Incompreendida, uma publicação online.

      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau