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      Os Pandas Suicidas

       

      Yan Ge

       

      Macau, China       

      “Então os pandas, os pandas são simplesmente preguiçosos. Além disso, mimados com a sensação de privilégio, hoje são sobretudo niilistas.” Eu estava no exterior de um clube nocturno cintilante, a dizer isto ao grupo de escritores portugueses. “Eles não gostam muito de comida e detestam ficar no exterior. E sabem que mais? Não têm vontade de ter sexo. Esse é o verdadeiro problema. Porque precisam de se reproduzir, caso contrário extinguem-se, certo? Por isso, as pessoas têm de lhes arranjar pornografia. Porno para pandas. Pandas que têm sexo em vídeo. Eles mostram-lhes isso durante a época do acasalamento, para que eles sintam vontade de dormir juntos e, se tudo correr bem, fazer aparecer alguns bebés pandas.”

      “Não acredito!”, interrompe um deles, rindo de forma histérica.

      “Sim, é o que eles fazem aqui”, afirmei.

      “Isso é de loucos! Importas-te que o escreva numa das minhas histórias?”, perguntou ele.

      “Claro que não”, respondi. “Assim como assim, eu não o poderia fazer. Enquanto escritora chinesa, se escrever sobre pandas vou ser mal vista. Por isso, é teu. Estás à vontade.”

      “Combinado.” Ele pareceu agradado. “Vou escrever sobre isso. Pandas que se tentam matar não tendo sexo.”

      “Os Pandas Suicidas”, disse eu. “Lembra-te de usar uma narração na primeira pessoa do plural.”

      Ao mesmo tempo, um tipo do festival saiu do clube nocturno para nos vir buscar. Entrámos. Consumir algum álcool seria boa ideia. Pensei.

       

      Dublin, Irlanda        

      Mal sabia eu que, na verdade, ia voltar atrás com a minha palavra. Ia sentar-me na sala de estar deste chalé e escrever sobre pandas e os suicídios dos pandas como se a pandice nesta sala já não fosse suficientemente intensa.

      Quando nos mudámos para este chalé, em Agosto, comprei um batente em forma de panda. Mas, a maior parte do tempo, o batente não travava a porta, nem coisa alguma. Ficava ali parado no tapete, parecendo calmo e pisável. Quer dizer, eu não o queria intimidar. Mas, quando se vive com o marido no país dele, é sempre bom ter um objecto sobre o qual descarregar a raiva mais inesperada. Neste caso, até o tornei num companheiro.

      Uma amiga veio visitar-me e viu o batente-panda. “Que adorável!”, exclamou. “Trouxeste-o da China?”

      “Não”, disse. “Comprei-o na Marks and Spencers.”

      Aconteceu uma cena similar quando fomos beber a um bar. O meu marido estava a ver futebol gaélico com um amigo e eu estava a conversar com a namorada do amigo. Eles tinham começado a namorar há pouco e ela parecia fresca e resplandecente. Bebemos vinho tinto e rimos de algumas piadas feministas. Gostei dela de imediato e percebi que foi recíproco.

      A importância de ter uma amiga numa cidade nova nunca pode ser minimizada. Fiquei mesmo feliz. Fui à casa de banho e, quando voltei, beijei-a no cotovelo direito.

      “Uau!” Ela ficou lisonjeada. “Nunca ninguém fez isso aos meus cotovelos. É uma tradição chinesa?”

      “Não”, disse, agachando-me ao lado dela. “Eu é que sou assim.” E levantei-me.

      Uns dias mais tarde, quando estava sozinha em casa com o batente-panda, percebi que um panda, mesmo um panda que tinha a mera função de batente, tinha direito à individualidade. Decidi dar-lhe um nome. Passou a chamar-se Brian.

      “Olá Brian, tudo bem?”

      Estranhamente, no momento em que proferi estas palavras, ele perdeu a expressão permanentemente aborrecida e impessoal. Ficou com um ar compassivo e até triste.

      “Eu sei”, disse-lhe. “A anomalia da cognição face à especificidade na interacção transcultural, não é?”

       

      Macau, Chinap

      Como convidada do Festival Literário Internacional Rota das Letras, gostei muito da minha semana em Macau. Aliás, gosto muito de todos os festivais literários internacionais. Há coisa mais divertida do que escapar à rotina diária, abandonar a mediocridade e a discrição a ela inerentes, e mergulhar num país das maravilhas onde a literatura ainda é considerada uma engrenagem essencial da vida moderna? Num festival literário, podemos ser tão cínicos quanto quisermos.

      Além disso, experimentar o Detector de Estereótipos em escritores de diferentes países pode ser muito divertido, se não tivermos em consideração o quão politicamente incorrecta é esta ideia. Os escritores norte-americanos referem grandes nomes da literatura contemporânea com um sentido de intimidade suspeito; os escritores coreanos são artificialmente polidos e contidos, excepto quando bebem; os escritores do Reino Unido conseguem usar adjectivos com uma sofisticação excepcional; os escritores irlandeses ou são muito extrovertidos ou terrivelmente silenciosos, mas quando bebem vão até ao outro extremo; os escritores do mundo árabe têm lindas visitantes femininas, não falam realmente contigo, mas acabam sempre por te adicionar no Facebook. Etc.

      Em Macau, todos os escritores portugueses tinham uma história acerca de uma rapariga que conheceram no secundário. Estavam desesperadamente apaixonados por essa rapariga e não sabiam o que fazer, por isso, para a conquistar, escreveram poesia. Um deles contou esta história no primeiro dia, num debate, e no segundo dia, quando fomos fazer uma leitura a uma universidade, outro escritor respondeu à pergunta “Como se tornou escritor?” com a mesma história. Mais tarde, quando estávamos a beber num clube nocturno com patrocinadores dos casinos, alguém referiu novamente um romance do secundário.

      Todos alegavam que a história era verídica, pelo que não tive outra opção senão acreditar que a inspiração para a literatura portuguesa era uma linda estudante do ensino secundário.

      “São românticos e charmosos natos”, comentou, em português, uma rapariga chinesa do festival, que vive em Macau há anos.

      “Dá para ver”, assenti, bebendo de um trago o meu Chardonnay.

      “Mas por vezes partem-te o coração”, disse ela.

      “Faz parte de se ser um romântico”, disse eu, deitando mais vinho no meu copo.

      Era a minha última noite em Macau. Todo o festival estava em festa num bistrô. Esta rapariga e eu estávamos sentadas cá fora na escada, a beber Chardonnay, a partilhar um cigarro anónimo. Conversávamos em chinês. Falávamos baixo, com vogais indistintas e consoantes turvas, quase como um murmúrio. Conversámos sobre a nossa infância, a cidade e os escritores de que gostamos. Falámos sobre o inevitável passado e o imprevisível futuro. O ar estava saturado de melancolia. Todos os turistas e jogadores que enchiam as ruas durante o dia tinham desaparecido. A cidade era ela própria novamente. Quente e generosa, velha e distante.

      “Penso no que nos irá acontecer no fim.” Ela apoiou-se em mim, pousou a cabeça no meu ombro.

      “Vais ficar bem, e eu só me vou mudar para a Irlanda no Verão”, disse eu com toda a clareza, jogando o cigarro fora.

       

      Chengdu, China

      Os táxis locais passaram a campanha turística da cidade durante anos. Assim que entrávamos num táxi, uma voz feminina robótica vinda debaixo do taxímetro saudava-nos: Bem-vindos a Chengdu, a terra dos pandas e a terra da abundância. Era absurdo, se pensarmos bem. Chengdu era, sobretudo, a terra dos seus habitantes humanos e depois dos gatos e cães, e depois dos pardais e das baratas e depois, só depois, algures no campo, no Centro de Investigação sobre Pandas, de um número modesto de pandas.

      Como residente, nunca lá tinha ido, mas os meus sogros, depois de ouvirem a mensagem intrigante num táxi local, insistiram para que fôssemos todos ver os pandas.

      Eles vieram visitar-nos a Chengdu antes da nossa Grande Mudança. O filho deles, o meu marido, está neste país há cinco anos e só os conseguiu convencer a visitá-lo quando arranjou mulher. Estávamos entusiasmados com a visita e levámo-los a vários restaurantes para experimentarem todo o tipo de comida chinesa: massa com carne de porco picada e wontons, refogado de tomate, frango uigur e pimenta verde, salteados à moda de Szechuan e Dim Sum cantonês. Divertimo-nos imenso e eles quiseram que eu fosse ver os pandas com eles.

      “Não quero ver os pandas”, protestei.

      “Porquê? Vá lá! Vai ser divertido!”, disse a minha sogra.

      “Ela nunca viu os pandas, nunca esteve no Centro dos Pandas”, disse o meu marido. Ao que parece, queria ajudar-me.

      “Porquê?” Agora era o meu sogro quem estava curioso.

      Eu não sabia explicar porquê. Porque os pandas são uns preguiçosos mimados? “Porque é muito longe da cidade. Além disso, não me quero levantar cedo”, acabei por dizer.

      “Vá lá!” A minha sogra agarrou-me pelos ombros e fez o seu sorriso único. “Vem connosco! Vai ser divertido!”

      “Nós protegemos-te dos pandas. Não te preocupes”, disse o meu sogro, virando-se para trás no carro.

      E eu fui. Pandas 1 – Eu 0.

      A viagem acabou por não ser muito má. O tempo estava fresco e o céu limpo. O parque era pitoresco e calmo. E os pandas, se vistos como ursos com grandes círculos negros em volta dos olhos, eram suficientemente agradáveis.

      Numa das casas de panda, um panda estava sentado numa pedra, a mastigar um rebento de bambu. Os visitantes rejubilavam. Exclamavam: “Panda! Panda!”, “Oh, tão querido!”, “Oh, olha para ele!”, e outros disparates do género.

      A minha sogra pegou no telemóvel e tentou fazer um vídeo. “Vou mostrar isto aos miúdos quando voltar. Vão ficar tão contentes por ver isto”, disse ela. Ela é professora numa escola básica para rapazes em County Mayo. Imaginei que, para os miúdos de lá, ver um panda a comer bambu seria excepcional. Imaginei as caras deles repletas de surpresa e alegria.

      Este pensamento fez ruir o meu cinismo para com os pandas. Também me lembrei da minha emoção quando vi elefantes pela primeira vez.

      Alguns miúdos adoram elefantes. Outros adoram girafas. Há ainda os que estão na onda dos leões-marinhos. E também os que têm um fraquinho por hipopótamos. Como tal, os pandas merecem ser amados, por alguns miúdos, algures no mundo.

      Que os pandas nunca morram. Afinal, os zoos sempre foram o meu lugar favorito.

       

      Traduzido do Inglês por Luís Humberto Teixeira

       

      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau