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Segunda-feira, 17 de Junho, 2024
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      CONTO

       

      Kelly Yang (ilustração de Rui Rasquinho)

       

      Macau

       

      O motorista diz-me que é de Portugal. Começamos a conversar. Ele diz-me que está aqui por motivos de trabalho, que a mulher em breve virá juntar-se a ele em Macau, e que demorou umas absurdas 46 horas a ir de Macau para Portugal. Daí a sua decisão de não regressar a Portugal este ano.

       

      «Não sou daquelas pessoas que têm de ir a casa todos os anos», diz, «Compreende?»

       

      Compreendo. Digo-lhe que há uns cinco anos que não volto para ver os maus familiares na China continental. Rapidamente acrescento que não é que não queira ir, mas tenho três filhos, e é difícil arranjar tempo seja para o que for. Excepto para o Festival Literário de Macau, claro, digo enquanto pisco o olho.

       

      O motorista ri. Recosto-me no assento e olho pela janela, absorvendo o horizonte de Macau e reproduzindo o fim de semana na minha cabeça. O meu marido veio comigo ao festival. É a primeira viagem que fazemos só os dois, sem os miúdos, desde, provavelmente, os Jogos Olímpicos de Pequim. O festival alojou-nos generosamente no Mandarim Oriental, um hotel tão luxuoso que, a certa altura, o meu marido inclinou a cabeça e perguntou-me: «Tu tens direito a isto tudo… só por escreveres?»

       

      Para o meu marido, um advogado, é muito difícil acreditar nisto. Pouco importa se já escrevi mais de duzentas colunas de jornal e vários livros, incluindo um bestseller de literatura infantil – aos olhos dele, continuo a ser apenas uma dactilógrafa.

       

      «Um escritor é alguém que bebe muito café», explica o meu marido, «e tu não bebes café nenhum».

       

      Está no gozo. Mais ou menos. Costumava ficar aborrecida quando ele me provocava por causa do meu «pequeno passatempo». O meu marido orgulha-se de ser um verdadeiro bibliófilo – o tipo de pessoa que devora o Moby Dick num fim de semana. «Não leio nada escrito depois de 1980», gosta ele de dizer. Nem o recente romance vencedor do Pulitzer, Toda a Luz Que Não Podemos Ver, o impressionou.

       

      Quando soube disso, pensei para comigo, game over. Se nem o Anthony Doerr lhe enche as medidas, não vou ser eu a fazê-lo, certamente. Acho que não lhe vou mostrar mais aquilo que escrevo. Se ele quiser, que compre o jornal, como qualquer pessoa. Em grande medida, este sistema tem funcionado bem. De uma forma estranha, até o acho libertador: diz-se que um grande teste à qualidade da escrita é se a conseguimos manter só para nós durante um tempo e resistir à tentação de a partilhar imediatamente – é aí que sabemos que estamos realmente a escrever para nós. Bem, eu passo sempre neste teste.

       

      Rapidamente me tornei tão boa a passar o teste que deixei, de todo, de falar com o meu marido acerca da minha escrita. Daí o choque dele quando chegou a Macau e viu um saco das pessoas do festival literário com o meu nome. Remexeu no saco até que encontrou um envelope com 600 dólares de Macau.

       

      Ficou de olhos arregalados.

       

      «Que é isto?», perguntou, agarrando no dinheiro com as mãos a tremer, como se estivesse a pegar em cocaína.

       

      «Dinheiro para as despesas, acho eu», respondi.

       

      Depois daquilo, olhou para mim de forma um pouco diferente. Nessa noite, desfrutámos de um jantar sem crianças no Mandarim, e ele perguntou-me em que estava eu a trabalhar. Como é habitual, falei-lhe do meu emprego, de um novo cliente que tenho – sou directora executiva de uma grande empresa na área da educação em Hong Kong.

       

      «Não, o teu outro trabalho», disse ele.

       

      «O meu outro trabalho?», perguntei. Franzi as sobrancelhas como se ele estivesse a sugerir que eu andava a trabalhar na noite.

       

      «A tua escrita», acabou ele por dizer.

       

      Ah, isso.

       

      «Quero mesmo saber», disse.

       

      Olhei para ele, um pouco céptica. Hesitante, comecei a contar-lhe. Para minha surpresa, desta vez os olhos dele não pareciam alheados. Os acenos de cabeça não eram maquinais – pelo menos não pareciam ser. Ele parecia genuinamente interessado.

       

      Nessa noite, falámos até bem depois da meia-noite. Talvez tenha sido do vinho, ou da excitação de estarmos em Macau, ou do facto de, por uma vez, não haver miúdos à volta para nos interromper, mas pela primeira vez em muito tempo simplesmente falámos.

       

      Enquanto o motorista regressava ao terminal de ferries de Macau, pensei em quanto o fim de semana significara para mim.

       

      «Então, vai voltar no próximo ano?», perguntou o motorista.

       

      Assenti.

       

      «Não o perderia por nada neste mundo!», disse-lhe com um sorriso.

       

       

       

       

       

      Tradução de Luís Humberto Teixeira. Conto publicado no livro Quarto Crescente – Contos e Outros Escritos, do IV Festival Literário de Macau (PraiaGrande Edições)

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      Redacção do Ponto Final Macau