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      InícioParágrafoParágrafo #80O império a tratar da saúde a Goa

      O império a tratar da saúde a Goa

      Medicina e Império em Goa reúne um conjunto de estudos críticos que revelam muito sobre a administração colonial e o papel das autoridades sanitárias na sua execução. Os méritos desta obra, porém, não são apenas académicos.

      No prefácio a um dos romances de John Fante atravessados pela  inesquecível personagem Arturo Baldini, Charles Bukowski conta a sua experiência de leitor em busca de qualquer coisa que o arrebatasse nas longas estantes de uma biblioteca pública. Antes de encontrar Pergunta ao Pó, pedaço de prosa que lhe mudaria a vida, o jovem Bukowski põe-se a devorar livros científicos e surpreende-se com a riqueza daquilo que encontra. O mesmo pode acontecer hoje a qualquer leitor aborrecido com os tomos de “literatura de viagens” que enchem os escaparates acaso tenha a fortuna de tropeçar em Medicina e Império em Goa – Do conhecimento das Plantas à Biopolítica Colonial.

      O cuidado da edição, a qualidade da escrita (apesar de oscilar naturalmente de autor para autor) e, acima de tudo, a riqueza vocabular fazem desta colecção de artigos publicada pela Imprensa de Ciências Sociais e organizada por Cristiana Bastos uma das leituras mais surpreendentes do ano.

      A obra, que conta com textos de Fabiano Bracht, Mónica Saavedra, Oana Baboi, Ricardo Roque, Teresa Nobre de Carvalho e Timothy Walker, abre precisamente com uma introdução de Cristiana Bastos, antropóloga e investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Nela se explica que o livro teve dupla génese: por um lado, começa a ganhar forma nos anos 1990 com um «ciclo de projectos de investigação sobre medicina tropical, epidemias e biopoder nos contextos coloniais de administração portuguesa». É nessa altura que Bastos se depara com um cenário em que a literatura sobre este tema e a Goa do século XIX era escassa mas, em contrapartida, as fontes primárias em português «mostraram-se abundantes, inexploradas e de grande interesse». A partir desse «manancial de relatórios anuais dos serviços de saúde [da então Goa sob administração portuguesa], ofícios e missivas sobre assuntos específicos, folhetos, opúsculos, monografias e revistas especializadas de farmácia, medicina e cirurgia, biografias de médicos, literatura institucional, ensaios reflexivos» e outra documentação, um grupo de investigadores produziu um corpo de trabalho agora coligido neste volume. A essa produção intelectual junta-se aquela proveniente da segunda génese do livro e que revela «uma abordagem mais ampla das interacções euro-asiáticas no plano dos conhecimentos e práticas terapêuticas e no contexto de expansão e novos encontros de natureza religiosa, política e comercial».

      Bastos destaca a importância dos estudos críticos de medicina e império, que «revolucionaram um campo que tradicionalmente consistia em cronologias de descobertas de patologias singulares por heróis singulares», dando antes «espaço a uma análise dos encontros/desencontros culturais e das relações de poder subjacentes ao estabelecimento da ordem sanitária em contextos coloniais». Foi assim que, «explorando o arquivo com a etnografia como método (…), observando o pormenor e os imponderáveis do quotidiano transpostos para a intimidade silenciosa do arquivo», os investigadores procuraram «na rotina dos serviços de saúde da Índia [portuguesa], e também nos períodos de excepção e crises epidémicas, nos seus relatórios oficiais, memoranda, cartas, ofícios confidenciais e anotações de margem, indícios dos modos de interacção entre a medicina europeia associada ao regime colonial e as tradições terapêuticas que continuaram a praticar-se por todo o subcontinente».

      Os artigos de Medicina e Império em Goa tentam, se não responder, ao menos lançar alguma luz sobre várias perguntas. A saber: que atitude tomou a administração portuguesa, e o seus agentes, perante as práticas terapêuticas locais e potencialmente concorrentes? Quando e como as tentou perceber e incorporar, quando e como as rejeitou e perseguiu? Que medidas tomou, ou não tomou, para governar o corpo e os corpos das populações que pretendia dominar? De que modos se serviu, ou não serviu, da medicina europeia para veicular a ordem colonial? «E o que podemos saber a este respeito sobre as práticas e cognições dos grupos locais de Goa, Damão e Diu, cristãos, hindus, muçulmanos, homens, mulheres, ricos, pobres, urbanos, rurais, camponeses, pescadores, mercadores, líderes comunitários, oficiantes religiosos, herbolários e curadores?»

       

      De Garcia da Orta às epidemias de varíola

      Um dos capítulos mais impressionantes de Medicina e Império em Goa é assinado por Teresa Nobre de Carvalho e dedicado a Garcia da Orta (1501-1568) e ao seu escrito Colóquios dos Simples e Drogas e Cousas Medicinais da Índia. Garcia da Orta, que hoje dá nome ao jardim central da cidade de Panaji, em Goa, «apresentou à Europa as primeiras monografias redigidas por um médico português relativas a produtos asiáticos», trabalho de extremo detalhe na construção de uma «narrativa sobre drogas, bálsamos, especiarias e pedras preciosas do Oriente», onde não faltam também descrições de frutas, legumes e verduras «que não sendo, muitas vezes, do uso da física, eram utilizadas no quotidiano da longínqua Goa». Destacam-se as páginas dedicadas a elencar todos estes produtos e substâncias comentadas por Orta (assa-fétida, bezoares, carandas, duriões, espódio, jangomas, raiz-da-china, ruibarbo…), bem como a expor a sua casa em Goa, com múltiplas salas e gabinetes abertos ao público.

      No segundo capítulo, Oana Baboi escreve sobre a curiosidade do poder imperial quinhentista face às possíveis propriedades curativas das plantas e ervas orientais, discorrendo sobre a inventariação e circulação de conhecimento. E Timothy Walker leva-nos a visitar as boticas dos hospitais goeses onde eram tratados os militares portugueses em serviço na Índia, e que recorriam habitualmente a «remédios locais à base de plantas». Outros capítulos são dedicados ao papel da Companhia de Jesus no «desenvolvimento de uma medicina europeia aplicada aos trópicos» (Fabiano Bracht) e uma «aproximação ao mundo botânico e farmacêutico de Goa no século XIX» (Ricardo Roque) – sempre apoiados numa extensa bibliografia.

      A última parte desta obra, assinada por Cristiana Bastos e Mónica Saavedra, dedica-se a analisar epidemias como a da varíola no século XIX, sobressaindo a tensão entre governados e governantes, entre variolização e vacinação; ou os surtos de cólera e peste, que merecem por parte de ambas as autoras «uma aproximação etnográfica (…) que nos permite conhecer melhor as condições do exercício negociado do biopoder colonial».