A China e Macau revisitadas em nova colecção literária

Já estão disponíveis os primeiros três títulos da colecção China Revisited, coordenada pelo escritor Paul French e dedicados a Hong Kong, Macau e ao sul da China. São acima de tudo textos de viajantes do século XIX e começo do século XX, agora recuperados e anotados por um apaixonado pela cultura da China. Em Março, French passará por Hong Kong e Macau.

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Há muito que o britânico Paul French vem contando histórias sobre a China, em livros como Midnight in Peking e City of Devils. Agora, o autor e estudioso da cultura chinesa decidiu salvar do esquecimento das estantes londrinas os relatos de viagem de homens e mulheres que se aventuraram por Hong Kong, Macau e o sul da China há mais de um século e disso deixaram registo. Em pequenas edições com o selo da Blacksmith Books, estes são relatos vívidos de lugares, momentos e personagens importantes. Em entrevista ao Parágrafo, French fala dos três primeiros livros já disponíveis e promete continuar a publicar ao ritmo de um a cada seis meses. Em Março, estará a apresentar a colecção no Festival Literário Internacional de Hong Kong e também passará pela Livraria Portuguesa.

Que conceito está por detrás desta nova colecção de livros sobre a China?

Paul French (P.F.): Passo a maior parte dos meus dias a trabalhar e a escrever na Biblioteca de Londres, em St James’s, no centro da cidade. É uma fantástica colecção privada e tem uma extraordinária colecção topográfica que navego regularmente. O número de memórias, diários de viagem e relatos de não-ficção sobre a China que remontam ao início do século XIX é espantoso. Pensei que valia realmente a pena reimprimir alguns deles, pelo menos em versões resumidas e com notas de rodapé para explicar referências arcanas, figuras menores, frases chinesas, etc. Decidimos que nos concentraríamos em Hong Kong, Macau e no sul da China, já que estou a trabalhar com a Blacksmith Books, uma editora de Hong Kong. Seleccionei três [obras] que pensei terem relatos que contribuíram para o nosso conhecimento histórico da região no final do século XIX e início do século XX.

 

Há muito tempo que conhece estas obras ou estão também a publicar títulos com que acabou por se deparar enquanto preparava a colecção?

P.F.:Alguns são livros que eu não conhecia bem, mas que julgava merecedores de inclusão e interessantes para os historiadores. Por exemplo, Constance Gordon-Cumming, uma viajante vitoriana particularmente intrépida, tem um relato de testemunha ocular do terrível incêndio que varreu os “mid-levels” de Hong Kong e outros distritos centrais em 1878. Grande parte do centro de Hong Kong tem o aspecto que tem devido à reconstrução após esse incêndio. Ela tem também uma descrição extremamente detalhada, quase rua por rua, loja por loja, templo por templo, de um passeio por Guangzhou em 1879. Quanto ao livro Ling-nam, de B.C. Henry, contém praticamente a primeira, e certamente a mais autorizada, descrição da ilha de Hainan na década de 1880. Harry Hervey, em 1924, descreve ao pormenor a Kennedy Town de Hong Kong e em Guangzhou também conseguiu obter uma das últimas entrevistas do Dr. Sun Yat-sen a um escritor estrangeiro.

 

O que pode revelar especificamente sobre obras e autores desta colecção que passem por Macau?

P.F.: Espero incluir mais Macau, mas inicialmente são as secções do livro Where Strange Gods Call, publicado em 1924, que incluem a colónia portuguesa.

 

O livro que refere é de Harry Hervey, um homem hoje bastante esquecido mas com uma história de vida notável que é recuperada no texto introdutório assinado por si. Porque decidiu encetar esta colecção com a obra de Hervey?

P.F.: Quero realmente restaurar Hervey, torná-lo mais conhecido. Ele foi um argumentista de sucesso em Hollywood e um viajante regular para a Ásia – principalmente a China e depois a Indochina francesa. As suas viagens à China levaram-no a escrever um tratamento cinematográfico para uma história sobre um comboio que viajava pelo país, sequestrado por bandidos. Vendeu-o ao realizador Josef von Sternberg e este tornou-o em Shanghai Express (1932), com Marlene Dietrich e Anna May Wong, um dos filmes de maior sucesso da década de 1930. Hervey é também para mim o escritor de viagens ideal, já que é altamente descritivo, observando edifícios, ruas, restaurantes, etc., mas também os cheiros, sons e sensações dos lugares. Ele é romancista e escritor de viagens, essa combinação é muito apelativa. Vê-se isso nos seus escritos sobre Macau.

 

Harvey refere-se a Macau como “um lugar bastante sensual”, menciona o ópio e outros “vícios”, depara-se com pessoas miscigenadas e com o crioulo macaense, aborda a religião ao ver uma freira passear pela cidade – ele parece gostar do lugar, verdade?

P.F.: Em certo sentido, Hervey segue uma sólida tradição jornalística dos anos entre guerras, para descrever Macau nesses termos. Como escreveu o poeta inglês WH Auden no seu soneto de 1939, “Macau”, “Uma erva daninha da Europa católica, criou raízes(…)/Promete sorte aos seus jogadores quando morrem/As igrejas ao lado dos bordéis testemunham”. Escrever sobre Macau foi sempre bastante sensacional e sensual em comparação com, digamos, escrever sobre Hong Kong. Mas parece de certa forma justificado – era um lugar mais pequeno, um pouco mais ambíguo.

 

O livro de Hervey traz algumas ilustrações antigas. Será sempre assim a cada novo título?

P.F.: Sim, a maioria dos livros inclui ilustrações, muitas vezes dos próprios autores. Gordon-Cumming foi uma pintora de sucesso. Harry Hervey confiava no seu bom amigo Christopher Murphy, um pintor de Savannah, Geórgia. Não é inteiramente claro se Murphy alguma vez visitou Hong Kong, Macau ou Guangzhou ou, mais provavelmente, se baseou as suas ilustrações em postais ou fotografias fornecidas por Hervey. Seja como for, são esboços bastante encantadores.

 

Que impressões tenta transmitir nas notas de sua autoria que acompanham estes textos?

P.F.: Migrar o chinês para inglês tem deixado várias gerações perplexas e também todos estes escritores. Agora temos o pinyin, eles tinham o algo arcaico sistema de transliteração Wade-Giles. Nenhum deles é perfeito, mas tento explicá-los. Várias figuras históricas estão esquecidas, nomes de ruas foram alterados, edifícios foram demolidos. Não quero aborrecer o leitor, ou distraí-lo do texto original, mas alguns esclarecimentos podem ajudar, especialmente para aqueles que procurem talvez seguir os seus passos ao visitar Hong Kong, Macau ou Guangzhou.

 

De que forma vê estas páginas serem apelativas para os leitores contemporâneos?

P.F.: Espero que os livros lhes permitam caminhar nos passos dos viajantes do passado. Tentei seleccionar títulos – e continuarei a procurar mais – onde o escritor leve o leitor numa viagem, uma viagem detalhada, uma viagem que seja recriável até certo ponto. É, suponho eu, uma espécie de psicogeografia histórica.

 

Sabe se algumas destas obras foi anteriormente publicada em chinês?

P.F.: A maioria não foi traduzida na China, que eu saiba. Penso que algumas chegaram a ser traduzidas em francês, mas poucas outras línguas. Os países, ainda hoje, têm frequentemente os seus próprios escritores de viagens que escrevem para as suas próprias audiências nacionais/linguísticas de uma forma que as atrai. O encontro de um escritor chinês com, digamos Paris, será diferente de um americano, ou de um japonês ou de um escritor português. Na verdade, há muito poucos escritores de viagens verdadeiramente globais, que sejam apelativos em todo o lado. É algo bastante localizado e penso que isso talvez seja uma coisa boa.

 

Figura nesta colecção algum autor que não seja nativo de inglês? Algum português, por exemplo?

P.F.: Ainda tenho de encontrar um. Mas sugestões são muito bem-vindas. Certamente, quando se trata de Macau, podemos voltar a Camões, e [ler a cidade] através de vários missionários e governadores, até à encantadora poetisa (e esposa de um governador) Maria Anna Acciaioli Tamagnini na década de 1930, e posteriormente escritoras como Deolinda da Conceição depois da Segunda Guerra Mundial.