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      Início Parágrafo Parágrafo #76 BEI DAO: COMO ILHA DO NORTE E DO NORTEAMENTO

      BEI DAO: COMO ILHA DO NORTE E DO NORTEAMENTO

      Considerado como o poeta chinês mais eminente da actualidade, Bei Dao é uma voz incontornável e a mais representativa da poesia contemporânea chinesa. Na China, ele tornou-se um ídolo dos leitores da sua geração e posteriores, mantendo sempre viva a memória de como um novo estilo de poesia se pretendia livrar do discurso convencionado pela política, trazendo uma lufada de ar fresco à poesia contemporânea chinesa. No estrangeiro, é lembrado como um poeta dissidente que ousou levantar a voz contra uma época intolerante em que a dignidade humana era menosprezada e oprimida.

      A poesia contemporânea chinesa de que aqui falamos é escrita em forma livre e em chinês moderno, sendo habitualmente designada como Nova Poesia, precisamente para distingui-la da poesia clássica chinesa, que teve o auge nas dinastias Tang (618-907) e Song (960-1279), mas deixou de ser uma forma dominante desde o início do século passado, devido à revolução social, ideológica e cultural na China, bem como ao difícil trato de suas regras rigorosas, acessíveis apenas a uma elite letrada. A Nova Poesia teve origem no chamado Movimento Cultural do 4 de Maio, que aconteceu na década de 1920, com o objectivo de romper com uma tradição cultural estática e decadente por meio da reformulação da língua chinesa e da introdução de uma nova ideologia pró-ocidental.

      Bei Dao, que literalmente significa “Ilha do Norte”, é o pseudónimo de Zhao Zhengai. Nasceu em Pequim, em 1949, ano em que se proclamou a fundação da República Popular da China. Tal como todos os chineses da sua geração, viveu o seu tempo de juventude fortemente influenciado pela sucessão de movimentos políticos, dos quais se destaca a Grande Revolução Cultural (1966-1976), realizada em nome da cultura e que causou graves e desastrosas consequências tanto ao país como a milhões de indivíduos. Nesta época de grande perturbação social, a poesia ainda sobrevivia, mas como um instrumento da máquina política, já privado da livre expressão. Os poetas, nestas circunstâncias severas, limitavam-se a pintar a máscara da realidade e a elogiar o líder com palavras falsas e ufanas, conforme a poética impregnada pelos chamados “realismo socialista e romantismo revolucionário”. Em 1965, Bei Dao entrou para uma das escolas secundárias mais privilegiadas de Pequim, mas o seu estudo foi interrompido pelo desencadear da Grande Revolução Cultural. O poeta alistou-se nos Guardas Vermelhos, tendo viajado pelo país para apoiar os movimentos de rebeldia revolucionária que ocorriam um pouco por todo o lado. Em 1968, enquanto a maioria dos estudantes, depois de terem completado os estudos secundários, foi obrigada a deixar as cidades rumo ao meio rural, onde tinha de trabalhar de mãos dadas com os camponeses para se reeducar, conforme instruções superiores de Mao, Bei Dao foi enviado, felizmente, para uma empresa de construção civil, na qual se dedicou ao trabalho físico por seis anos. Foi a partir deste período que começou a escrever poemas junto com um grupo de amigos com os mesmos interesses, dos quais a maioria também iria tornar-se em poetas distintos no futuro. Estes poetas, que não alinhavam com a estética do realismo socialista, estereotipada pela máquina de propaganda política, liam e aprendiam clandestinamente com poetas estrangeiros cujas obras tinham sido classificadas como “ervas venenosas” durante a Grande Revolução Cultural. Na sequência destas leituras e aprendizagem, começaram a experimentar uma expressividade inovadora, alimentada pela poesia moderna ocidental. Com a proposta de Bei Dao, os poetas fundaram Jintian (Hoje), uma revista poética que circulava de forma ilegal e que foi obrigada a encerrar dois anos depois. Embora tenha tido uma vida curta, a revista levou muita gente a conhecer a poesia destes escritores, que foi depois rotulada de Poesia Obscura, dado que para aqueles habituados à única e directa manifestação da poesia ortodoxa, este tipo de escrita era considerado demasiado ambíguo e obscuro. Apesar de serem alvo de crítica e polémica, os poetas de Jintian tiveram um impacto sem precedentes na poesia contemporânea chinesa, não só pela ousadia de pegar na poesia como arma de intervenção na fase de mudanças sociais, mas também pela tentativa de incorporação das novas tendências poéticas na mesma.

      Sendo o membro mais influente dos poetas de Poesia Obscura, Bei Dao escreveu, neste período, uma série de poemas que são estritamente inerentes a uma realidade em que o impacto negativo causado pela Grande Revolução Cultural estava a despertar a reflexão crítica das pessoas, contribuindo para a criação da “poética da política rebelde”, que adoptou uma atitude acintosa para denunciar a privação da liberdade e apelar à restauração da dignidade humana. Poemas como Resposta, Fim ou começo, Bilhete de barco, Currículo, Templo antigo ou Os dias entres outros, provocaram uma reação muito entusiástica entre os leitores, estabelecendo cumplicidade com aqueles que tinham vivido como testemunhas ou vítimas numa época de loucura, cegueira e destruição:

      A vilania é o passaporte dos vis

      A nobreza é o epitáfio dos nobres

      Não acredito que o céu seja azul

      Não acredito no eco dos trovões

      Não acredito que o sonho seja falso

                     Não acredito que os mortos não se vinguem

      (Bei Dao: Resposta

      Com uma estrutura binária construída na forte tensão discursiva, aumentada pela retórica de repetição, o poeta descreve um quadro histórico no qual se contrastam a nobreza e a vilanagem, a luz e a escuridão, a iluminação e a ignorância… de forma a exclamar-se a descrença e negação, a reflectir-se sobre a histórica, assim como a revelar-se a preocupação com o destino da pátria. Este poema tornou-se muito popular junto dos leitores, porém, Bei Dao, alguns anos depois de ter começado a sua vida de exílio, mostrou renúncia a ele, argumentando que “tem uma evidente intenção de pregar sermão”.  Durante o exílio, ele deixou de escrever os poemas deste tipo em que ainda se escutam ecos de palavras de ordem, retórica frequentemente usada pela poesia ortodoxa. Contudo, este poema já tinha ficado enraizado na memória dos chineses e deve ser entendido no contexto em que se defendia a “poética da política rebelde”.

      Num país em que a vida do indivíduo é largamente politizada e a fronteira entre a vida privada e a pública é bastante ambígua, é impossível que um indivíduo tenha uma vida “pura” ou “oculta” de eremita, sem que esta seja influenciada por factores políticos e sociais. Cada existência individual é uma coexistência com outros, integrada na sociedade que persiste em uniformizar o pensamento e a consciência de todos para que atravessem a praça “a passos de ganso” ou se mantenham imóveis no mesmo sítio antes de receberem ordens, tal como Bei Dao ironiza no poema Currículo, através de imagens imbuídas de conotação metafórica:

      Certa vez atravessei a praça a passos de ganso

                     Cabeça rapada

                     para melhor procurar o sol

                     mas numa estação de loucura

                     perdi o norte ao me deparar com cabras

                     no outro lado da cerca

      (Bei Dao:  Currículo)

      Mediante uma escrita firme e poderosa, impregnada desde o início pelo espírito rebelde contra a violência, a barbárie e a opressão do poder político ao homem, Bei Dao tornou-se na voz mais sonora e activa dos poetas da sua época. Em 1989, foi proibido de retornar à China após uma viagem para uma conferência em Berlim, em virtude de estar envolvido em movimentos pró-democracia. Começou então o seu exílio e viveu, sucessivamente, na Inglaterra, Alemanha, Noruega, Suécia, Dinamarca, Holanda, França, acabando por ficar a residir permanentemente nos Estados Unidos. Terminou este longo tempo de exílio em 2007, quando foi contratado como professor catedrático pela Chinese University of Hong Kong. Presentemente, já está reformado, mas ainda é responsável pela organização do International Poetry Nights in Hong Kong, um dos festivais de poesia mais importantes do mundo. Desde 2006, foi autorizado a voltar à China, onde tem publicado várias obras de poesia e crónicas.

      No período de exílio, os poemas de Bei Dao conheceram uma mudança viral, seja na temática seja no estilo, girando mais em torno de meditação sobre a arte da poesia, língua, saudade, separação e interrogação relativa à história e à existência humana. Deixou de realçar a posição política, pois nunca gostou de ser classificado como “poeta dissidente”, uma etiqueta que lhe foi atribuída ao ser mencionado pela comunicação social ou crítica do Ocidente. Enquanto atenuava a sua tendência política, procurava escrever “poemas que mergulham mais para o fundo, a explorar o percurso interior e que são mais complexos, mais difíceis de compreender”, como ele próprio frisa. Esta mudança relaciona-se, por um lado, com a sua nova compreensão sobre a poesia, julgando que ela própria não deve ser um conceito de conotação política, e por outro lado, com a sensação de despego que ele sentia como estrangeiro em terras alheias, o que resultou na expressão poética mais nebulosa e evocativa, direccionada para captar e registrar o que sentia no interior da alma e pensava na mente. Bei Dao rejeita a ligação directa e inevitável entre a poesia e a política, defendendo que “a verdadeira resistência pode ser precisamente a de desprender a linguagem poética da política, do discurso nacional e do círculo vicioso da história”.

      O exílio significava viajar regularmente com ajustamento ao fuso horário, viver no estado marginal em diferentes países, bem como conviver com línguas estrangeiras. Todavia, o maior impacto provocado no poeta foi o do exílio da palavra, tal como ele próprio confirma: “o exílio da palavra já começou”. No poema Línguas, escrito antes de deixar o seu país, Bei Dao expressou a sua dúvida em relação à função das línguas: A criação de línguas / não aumenta nem alivia a dor do silêncio do ser humano” (Bei Dao: Línguas). Efectivamente, a julgar pelas palavras do poeta, para um exilado obrigado a viver no estrangeiro, a língua materna passou a ser a sua “única bagagem de viagem”.  Para resistir ao exílio da palavra em circunstâncias estranhas, Bei Dao persistia em escrever em língua materna, de forma a manter as raízes da sua identidade cultural. No entanto, tal como um dos seus poemas evoca, o poeta tinha de praticar o chinês ao espelho, enquanto o sotaque da língua materna é representado como a pátria, da qual o autor escutou apenas o eco do medo ao tentar comunicar com ela por telefone:

      A pátria é um sotaque

                   Escutei o meu medo

                   do outro lado do telefone    

       

      (Bei Dao: Sotaque)

      Pode haver várias razões para interpretar este medo, mas a separação da língua materna e da pátria que rejeita o retorno do seu filho constitui certamente um importante motivo espiritual e psicológico do medo. A distância objectiva não só alterou a sua relação com a sua língua materna, como também o levou a reflectir na relação que mantinha com a pátria. No entanto, o paradoxo é que o poeta se sentia mais próximo e mais íntimo da língua materna enquanto estava ausente fisicamente da pátria. A ausência conduz o poeta a avançar no interior da língua para marcar uma presença mais intrínseca:

      Só consegue falar depois de encontrar a saída

                      do pinhal labiríntico que é a gramática

                      pelos degraus da escada

                      avança no interior desta língua

      (Bei Dao: Castelo antigo)

      Verifica-se que, nos poemas escritos no exílio, a tensão que o poeta tinha mantido anteriormente com o mundo exterior tendia a suavizar-se, sendo substituída pela tensão atribuída à linguagem poética. Mesmo assim, não era um poeta fechado na torre de marfim, antes continuava atento e vigilante à realidade sobre a qual fazia observações ou intervenções mediante reflexão poética, tal como escreve em Ramala, um poema que resultou da sua visita por esta cidade palestiniana onde ainda se lançam as sementes da morte e se figura a raiva do vento na árvore de resistência:

      Em Ramala

                    a morte lança sementes no meio-dia

                    para florescer na minha janela

                    A árvore da resistência é a versão original

                    do raivoso tufão

      (Bei Dao: Ramala)

      A vida de exílio aumentou a dose de saudade que o poeta sentia da sua terra natal, enquanto o regresso era uma ocasião para reencontrar o passado que já não existia, rever a relação com a terra natal e reflectir sobre o sentido da sua própria existência.  Em 2001, o pai de Bei Dao estava gravemente doente e o poeta conseguiu obter autorização oficial para voltar a Pequim e visitá-lo. Na viagem, escreveu o poema Mapa Negro, pelo qual expressou não só a reconciliação com o pai que já tinha os dias de vida contados, como também a desilusão de perder a cidade que tanto possuía no seu tempo de juventude e deixou de ser sua. Assim, o reencontro não passa de um novo ponto de partida para novas despedidas:

      Regressei — reencontros

                    são sempre menos do que despedidas

                    apenas menos um

      (Bei Dao: Mapa Negro)

      Sendo um poeta altamente respeitado na China e vastamente conhecido e renomado a nível internacional, Bei Dao tem poemas e crónicas já traduzidos para mais de vinte línguas, mas ainda é pouco conhecido no mundo português. Conforme pesquisa realizada por Huang Lin, até agora podem ser encontrados apenas dez poemas traduzidos por Yao Feng e Regis Bonvicino, incluídos na antologia Um Barco Remenda o Mar (Martins Fontes, 2007), e cinco poemas traduzidos por Hu Xudong, recolhidos na revista Poesia Sempre (2007). Em relação aos estudos académicos, não se encontra mais nada senão um artigo assinado por António José Bezerra de Menezes Júnior, que analisa a tradução do poema Resposta, publicado na revista TradTerm (18/2011.1). Sendo assim, a tradução e publicação desta antologia abre uma porta para os leitores de português conhecerem e estudarem a poesia deste grande poeta chinês. Contudo, é de lembrar que Bei Dao se mantém atento aos poetas dos países de língua portuguesa, tendo convidado, através de recomendação minha, Regis Bonvicino, Núno Júdice e Ana Luísa Amaral para participarem no International Poetry Nights in Hong Kong, tendo cada um deles uma antologia de poemas traduzidos para chinês e inglês, apresentada aquando da realização do evento.

      A tradução da antologia poética de Bei Dao faz parte do meu projecto de investigação Chinese Literature in Portuguese: Research, Translation and Anthology,subsidiado pela Universidade de Macau, instituição à qual agradeço pelo apoio e compreensão que permitem a finalização do projecto. Bei Dao, amigo de longa data, concedeu os direitos de autor para a tradução e publicação dos seus poemas no Brasil, pelo que lhe estou muito grato. Também tenho de agradecer a Huang Lin pela primeira tradução dos poemas, à Professora Manuela Carvalho pela participação activa na discussão e revisão da tradução, ao poeta José Luís Peixoto pela revisão literária dos poemas, e, por último, à Editora Moinhos por ter aceitado a publicação da obra de Bei Dao.

      Uma palavra sobre a tradução: na qualidade de investigador do projecto, convidei Huang Lin, estudante de doutoramento da Universidade de Macau, para efetuar a primeira tradução dos poemas a partir do chinês com versões em inglês como referência, e depois nós três, Huang Lim, Professora Manuela Carvalho e eu, efectuámos várias reuniões para discutirmos a tradução dos poemas. Foi um trabalho difícil, visto que existe sempre, em qualquer poema, o que é traduzível, o que é intraduzível e o que se rejeita a ser traduzido. Por fim, enviámos os poemas traduzidos a José Luís Peixoto para a realização da revisão literária e, depois, fiz uma leitura dos poemas revistos, comparando-os com os poemas originais.

      Como expressão e suporte da cultura, cada língua tem a sua própria forma de registrar os pensamentos, de descrever o real e o irreal, de simbolizar os sentimentos, o que faz com que o tradutor tenha de servir dois donos: o da língua de partida e o da língua de chegada, sendo este último, o leitor da língua de chegada, aquele que acorda a tradução com a sua leitura. Por isso, desejamos sinceramente receber os seus pertinentes comentários, as suas críticas construtivas e as suas valiosas sugestões. No fundo, cada tradução pode ser considerada como um “manuscrito” sempre à espera de ser aperfeiçoado.

       

       

       

      Prefácio à antologia de poemas de Bei Dao, Não acredito no eco dos trovões (Editora Moinhos, Brasil)