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      Início Parágrafo Parágrafo #85 A vida é um teatro vazio filmado por Wang Bing

      A vida é um teatro vazio filmado por Wang Bing

       

      São muitos e longos os minutos que passam em Man in Black até que o seu único protagonista diga as primeiras palavras. Num teatro despido de Paris, o compositor Wang Xilin é também ele um corpo literalmente nu. Um corpo velho e marcado e nu, um corpo que conta e canta histórias de sofrimento e resistência, de talento e de loucura.

      Man in Black é o filme-performance-confissão que o mais importante dos menos mediáticos cineastas chineses da actualidade, Wang Bing, decidiu filmar com o seu amigo de longa data e que este mês teve honras de abertura no festival de cinema Doclisboa, depois de ter sido exibido meses antes e pela primeira vez em Cannes. No conteúdo, Man in Black é porventura o testemunho mais próximo de uma autobiografia que alguma vez teremos deste compositor octogenário, um dos mais relevantes da sua geração, que atravessou a longas penas a construção da China comunista, a Revolução Cultural e as não menos sofridas dores da chamada modernidade em que aterrámos. E foram as palavras, sempre as palavras, que tramaram Wang Xilin. Perante uma plateia de mais de 700 pessoas no Cinema São Jorge, Wang Xilin falou demorada e fervorosamente sobre a sua vida numa China que já não existe, daquilo que passou, daquilo que viu e fez, daquilo que disse. E foi ao dizer, ao dissentir do Partido Comunista Chinês (PCC) ainda enquanto jovem promissor estudante de música, que a vida de Wang Xilin começou a complicar-se. Das imberbes fileiras do PCC a ser afastado, banido, perseguido e detido, o caminho de Wang foi o de muitos intelectuais e virtuosos que insistiram em ser mais fiéis à sua arte que a qualquer cartilha política. Ao contrário de muitos outros, Wang Xilin aí está para contar.

      Na forma, a primeira parte de Man in Back é como que uma coreografia da repressão ensaiada através da música e do corpo do compositor. Despido, Wang Xilin movimenta-se pelo Teatro Bouffes du Nord enquanto vai sendo cercado pela câmara de Wang Bing e por excertos das suas sinfonias. O seu corpo rememora em gestos as humilhações públicas por que passou, dobrando-se e atirando os braços para trás uma e outra vez, uma e outra vez, até à exaustão, até chegar àquele lugar mental que nunca mais abandonou desde que era um rapaz de 20 e poucos anos. Num grito que parece um uivo de animal ferido, Wang agita-se e chora diante da câmara, e volta a repetir os gestos da injúria.

      A segunda parte deste filme de apenas uma hora é feita com Wang Xilin sentado numa cadeira da plateia do teatro, ainda e sempre nu, pose digna e corajosa, narrando a sua história. Conforme vai desfiando memórias, acompanham-no as suas composições musicais, agora em decibéis que se alteram repentinamente, sobrepondo-se várias vezes às suas palavras, confundindo e apoquentando de propósito quem assiste, levando-nos para as imediações de um lugar de desconforto e de paranóia que Wang Xilin visitou demasiadas vezes sem ter pedido –  todas as vezes foram demasiadas vezes.

      Wang Bing, autor de filmes tão duros e importantes para compreender a China actual quanto A Oeste dos Trilhos (2003), A Vala (2010), Três Irmãs (2012), Almas Mortas (2018) e o mais recente Youth (2023), não esteve em Lisboa, mas explicou aos jornalistas portugueses por que decidiu filmar durante três dias num teatro vazio. «Eu queria filmá-lo, mas não sabia como nem com que estratégia. Na rua, na Alemanha, na casa dele ou na minha? Não fazia sentido. Surgiu-me depois a ideia de que um âmbito teatral talvez pudesse ajudar-nos. Por outro lado, acho aquele teatro muito belo e o seu desenho arquitectónico é especialmente favorável à liberdade dos movimentos da câmara. Outra vantagem – e aqui concordei logo com a Caroline Champetier, diretora de fotografia, na nossa primeira visita à sala – é que, visto do topo, o espaço cénico tem uma profundidade tão acentuada que recorda um túmulo imperial chinês da era medieval, aspecto que achei adequado», referiu em entrevista ao Expresso.

      O teatro vazio da vida de Wang Xilin levou-a à Alemanha, onde vive actualmente. Numa chamada por videoconferência durante a apresentação do programa Doclisboa, Wang Bing acrescentou que esse capítulo europeu da vida do compositor também lhe interessou. «Quando Wang Xilin estava na China teve muitos problemas com o Governo chinês, mas quando chegou à Alemanha também se deparou com um estilo de vida a que não estava habituado, e teve muitas dificuldades de adaptação (…). Primeiro que tudo interessava-me bastante Wang Xilin enquanto personagem, gosto muito da sua música. Não podemos separar a música, a pessoa, e a experiência pessoal de Wang Xilin da História chinesa. Está tudo ligado à realidade política», acrescentou o cineasta.

      Para Xilin, 86 anos, o regresso à China é hoje uma impossibilidade. Para Bing, autor que continua a testar os limites do regime com os seus filmes, o grande teatro da vida ainda vai a meio. Aguardemos pelo próximo acto.