Sri Lanka: Crise económica torna país dependente de Rússia, Índia e China

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epa10068513 Protesters storm the Prime Minister's office in Colombo, Sri Lanka, 13 July 2022. Thousands of protesters broke through police barricades and stormed into the Prime Minister's office on 13 July. Sri Lankan authorities declared a state of emergency and imposed a curfew in the Western Province of the country. According to the speaker of parliament, Sri Lankan President Gotabaya Rajapaksa has authorised the prime minister Prime Minister Ranil Wickremesinghe to carry out presidential duties after the president fled to the Maldives after months of protests against the economic crisis. EPA/CHAMILA KARUNARATHNE

Mergulhado numa grave crise política, social e económica, o Sri Lanka ficou refém dos seus aliados políticos mais próximos – Rússia, Índia e China – que prometeram um auxílio que Colombo sabe que vai ter de compensar.

 

Há uma semana, o ex-Presidente Gotabaya Rajapaksa pediu à Rússia ajuda no acesso a combustíveis, para atenuar o impacto de uma crise económica que já tinha levado o Governo do Sri Lanka a paralisar os transportes públicos e a decretar cortes de energia repetidos.

Numa conversa telefónica com o Presidente russo, Vladimir Putin, Rajapaksa pediu ainda “humildemente” que fossem retomados os voos turísticos entre Moscovo e Colombo, numa demonstração de “desespero político”, como o gesto foi classificado pela oposição cingalesa.

Na verdade, o Sri Lanka está muito dependente do turismo e grande parte dos visitantes são oriundos da Ucrânia e da Rússia, pelo que é importante para o regime cingalês o regresso dos russos, após a pausa na atividade turística provocada pela pandemia de covid-19.

Por outro lado, com o pedido de acesso ao petróleo russo, o Governo do ex-Presidente do Sri Lanka – que entretanto renunciou ao cargo, vítima de fortes protestos populares – não escondeu que está disponível para romper o embargo decretado pelos Estados Unidos e pela União Europeia aos combustíveis exportados por Moscovo, num gesto de apoio ao regime de Putin.

O registo da conversa foi apenas revelado pela Presidência do Sri Lanka, e o Kremlin não a comentou, mas a Rússia precisa neste momento de toda a ajuda diplomática externa para resistir ao cerco do Ocidente à invasão da Ucrânia.

Nos palcos das organizações internacionais, como as Nações Unidas, um qualquer voto a favor de Moscovo ou uma ausência de crítica à “operação militar especial” russa na Ucrânia pode ser útil, e a posição de fragilidade em que se colocou o Sri Lanka será aproveitada.

Financeiramente, o Sri Lanka já estava muito dependente de empréstimos externos, sobretudo da Índia e da China, que, ainda assim, não impediram que o país entrasse em ‘default’ técnico e tenha uma dívida externa superior a 50 mil milhões de euros, que os analistas já consideraram “impagável”.

Em Fevereiro, ao abrigo da sua política de “Os vizinhos em primeiro lugar”, a Índia deu mais 500 milhões de euros num empréstimo de curto prazo, para somar a mais de 2.500 milhões de euros em empréstimos de longo prazo.“Na verdade, o Governo do Sri Lanka sabe que se trata de uma ‘armadilha de dívida’. O país entrou numa espiral de inflação e de recessão, de que não vai conseguir sair”, explicou à Lusa Samantha Phul, investigadora da Observer Research Foundation e consultora do Instituto de Crescimento Económico de Nova Deli.

Para vários analistas, China, Índia e Rússia estão a apertar o cerco ao Sri Lanka, aumentando o seu grau de dependência económica, tornando a ilha mais vulnerável a futuras chantagens políticas. Ao mesmo tempo, defendeu Phul, a Índia e a China sabem que um clima de instabilidade política no Sri Lanka pode ter repercussões nos seus regimes, o que ajuda a explicar que, neste momento, façam tudo para que o Governo cingalês não desabe. “O cerco está a apertar-se. E a Rússia oportunamente juntou-se a esta estratégia de manter pressão, sem deixar que as revoltas populares estrangulem um regime que contraiu dívidas”, concluiu a investigadora.

Quando o Governo do Sri Lanka decretou o embargo à importação de fertilizantes do estrangeiro – para tentar conter a dívida externa – a Índia doou 100 toneladas de nitrogénio líquido, para tentar salvar as debilitadas plantações de café e de chá, dois produtos essenciais para a balança comercial daquela ilha.

A China também já anunciou a abertura de linhas de crédito de valores que não foram oficialmente anunciados, mas que analistas estimam que possa ultrapassar os 10.000 milhões de euros, a que Pequim juntou ajuda humanitária para atender a uma situação de grave crise económica.

CAIXA

Manifestantes deixam edifícios ocupados e Presidente parte para Singapura

Os manifestantes que ocuparam nos últimos dias prédios públicos no Sri Lanka anunciaram ontem a sua retirada, mas prometeram continuar a pressionar o Presidente cingalês, que não formalizou a sua renúncia, e o primeiro-ministro do país. “Nós estamos a sair pacificamente do palácio presidencial, da secretaria presidencial e dos escritórios do primeiro-ministro com efeito imediato, mas continuaremos a nossa luta”, disse uma porta-voz dos manifestantes. Horas antes do anúncio da retirada, a polícia repeliu manifestantes que tentavam entrar no Parlamento do país.