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      Início Opinião A guerra na Ucrânia. Um olhar europeu.

      A guerra na Ucrânia. Um olhar europeu.

      Agora que a ocupação da Ucrânia se consolida e a sorte daquele povo e do seu sistema democrático se problematiza é importante fazer alguma paragem e interrogarmos algumas das nossas certezas aparentes.

      A primeira a ilusão no avanço inexorável dos países para sistemas abertos, democráticos onde os cidadãos e a imprensa livre ajudam a construir de forma activa o futuro das colectividades.

      O que a guerra da Ucrânia mostra, como antes a invasão da Crimeia e da Geórgia o fizeram, é que a ideologia totalitária do sovietismo não morreu e espera uma oportunidade para se substituir ao  governo representativo e ao principio da escolha dos governantes por eleições periódicas. A democracia não é um estado é um processo que pode ter avanços, mas pode ter também recuos.

      Com Estaline e Lenine e hoje com Putin, um líder clarividente, implacável, saudoso da antiga glória imperial da ‘mãe Rússia’, impõe a lógica de subordinação a povos que considera subalternas e a países que existem enquanto fornecedores de matérias-primas e mão-de-obra assalariada à Federação Russa.

      Tenho para mim que a Ucrânia é apenas um primeiro passo de uma onda de sovietização que tem como alvos os quatro países da Europa de Leste que integraram a URSS bem como as repúblicas do Báltico.

      A segunda observação a miragem patética de uma ordem internacional pacífica, sem agressores nem rufias, disciplinada por uma lógica jurídica de autocontrole das grandes potências em termos da projecção da força política, militar, económica, cibernética. Ao invés, como sempre nos ensinaram os realistas, de Tucídides a Morgenthau, passando por Maquiavel, Hobbes, Clausewitz, Niebhur, Aron, os países não são academias de poesia ou arte.

      Reagem por uma lógica de procura do poder, de enfraquecimento do poder dos outros de realização do interesse nacional. Ou como Morgenthau o colocou ‘o interesse de uma nação como um todo enquanto entidade independente separada dos interesses de áreas ou grupos subordinados e também de outras nações ou grupos supranacionais, impõe que a política externa opere sob o padrão do interesse nacional’.

       

      Não é por acaso que às primeiras horas da guerra párias da vida internacional como Bahsar al-Assad, Maduro, Diaz-Canel, ou Lukashenko se tenham precipitado no apoio a Putin. Como não é despiciendo que o governo chinês tenha tratado a invasão como um problema interno da federação russa e se tenha abstido na condenação da ocupação no voto no Conselho de Segurança da ONU.

       

      A terceira observação a ambivalência da construção europeia e da ‘universalidade’ do seu modelo politico institucional para os novos países. Os problemas de relacionamento da UE com a Polónia ou a Hungria mostram que não há um exclusivo modelo de sociedade pluralista, multipartidária, amiga do ambiente, tolerante com a ideologia do género, que constitua um modelo incontornável. As nações fundam-se em identidades próprias, antigas, históricas.

      A intervenção massiva da Rússia na Ucrânia, anunciada pelo líder do Kremlin ao longo de meses, é o espelho do fracasso da política externa da União, da falta de uma politica de defesa coerente e da própria liderança de Ângela Merkel, aprisionada pela dependência energética da Rússia. Melhor ilustração não existe que a foto do Sr. Macron sentado na extrema de uma mesa a seis metros de distância de Putin como se fosse um reles lacaio ou porteiro do Kremlin.

      É habitual em crises como esta dizer-se que nada ficará como dantes. A Europa prepara-se para assistir à construção de um novo muro que a separará do Leste. Uma vez mais. Só não sabemos onde se situará esse muro, na Roménia, na Polónia, Hungria, ou República Checa. Se o conflito não for contido podemos ter uma guerra na Europa, oitenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial.

      E quanto à Ucrânia? Consumada a ocupação militar do território, derrubado o governo de Zelenskyy e imposto um governo pró-russo irão ser desmontadas as instituições democráticas, cortada a ligação à União Europeia, russificado o país. A Europa indignar-se-á, repetirá declarações de solidariedade mas continuará a olhar para o seu próprio umbigo.

       

      Arnaldo Gonçalves

      Jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais