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      InícioOpiniãoMacau e os Novos Horizontes Estratégicos da RAEM

      Macau e os Novos Horizontes Estratégicos da RAEM

      Entre saúde, juventude, cooperação internacional e desporto, a RAEM pode transformar o contexto actual num novo ciclo de oportunidades e relevância estratégica.

      Sinais de estabilidade

      Um contexto regional em mudança e uma estratégia de continuidade

      Num momento em que a leitura dominante em vários círculos analíticos aponta para uma crescente vantagem estrutural da China no plano global e regional, ainda que acompanhada por maiores dificuldades ao nível político e social em Taiwan, os desenvolvimentos recentes devem ser lidos com atenção redobrada. Mais do que uma realidade linear, trata-se de um quadro complexo, onde diferentes níveis de análise coexistem e nem sempre evoluem na mesma direcção.

      Se um primeiro olhar sobre os acontecimentos recentes permitia identificar uma sequência de sinais de estabilidade e projecção externa por parte da China, um segundo momento de leitura revela agora um movimento mais estruturado: a construção de instrumentos concretos de influência, capazes de actuar de forma progressiva nos planos económico, social e institucional.

      As dez medidas anunciadas por Pequim no final da visita de Cheng Li-wun, presidente do Kuomintang, devem ser entendidas nesse quadro. Entre elas incluem-se o reforço do diálogo político, a promoção de intercâmbios entre jovens, a retoma dos voos directos, a reabertura do turismo, o aprofundamento de ligações infra-estruturais com as ilhas de Kinmen e Matsu, a facilitação logística, o apoio ao comércio agrícola e pesqueiro, a abertura de conteúdos culturais, o incentivo à cooperação económica e, como base política, a reafirmação do “Consenso de 1992” e da oposição à independência.

      Mais do que um conjunto de medidas, trata-se de uma arquitectura de aproximação. A lógica é clara: actuar onde as decisões políticas se formam, na mobilidade, na economia, no contacto humano e na construção de confiança. É uma estratégia de tempo longo, que não procura resultados imediatos, mas sim moldar gradualmente o espaço de decisão.

      O lugar de Macau

      Entre a estratégia nacional e a aplicação regional

      É neste contexto que Macau pode, e deve, reposicionar-se.

      A RAEM não participa directamente na equação política do Estreito de Taiwan. Mas participa, de forma crescente, no modelo mais amplo de abertura e ligação ao exterior que a China está a desenvolver. É precisamente nesse espaço intermédio, entre estratégia e aplicação, que Macau pode ganhar relevância.

      Também neste ponto a circulação diplomática recente merece ser lida com mais atenção. A sucessão de visitas de líderes europeus a Pequim, por vezes com passagem por Macau, bem como a deslocação do Chefe do Executivo da RAEM à Europa, confirma que esse movimento já está em curso. Nesse quadro inscrevem-se a visita do primeiro-ministro português, Luís Montenegro, a Pequim e Macau, a deslocação do presidente da Assembleia da República portuguesa à China e a Macau, a visita do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, a Pequim, e a deslocação do Chefe do Executivo da RAEM a Portugal e Espanha, com passagem ainda por Bruxelas e Genebra. Vista no seu conjunto, esta sucessão de contactos sugere um alargamento de escala nas relações entre a China, a Europa e Macau, reforçando a ideia de que a RAEM pode desempenhar um papel mais activo como plataforma de ligação, contacto e articulação.

      A esta dinâmica juntou-se ainda, em Macau, a realização da XLIII Assembleia-Geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, acompanhada por encontros institucionais ao mais alto nível e pela eleição da RAEM para a presidência da Comissão Executiva no biénio 2026-2028. Mais do que um dado protocolar, este momento confirma a actualidade de uma vocação que Macau continua a cultivar com consistência: a de plataforma de contacto, cooperação e articulação entre a China e o espaço lusófono. O facto de a assembleia ter incluído também visitas à Plataforma de Serviços para a Cooperação Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa e à Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin reforça ainda mais essa leitura.

      Neste contexto, Macau não é apenas um ponto de passagem. Pode ser um ponto de articulação.

      Essa singularidade tem também uma expressão prática que não deve ser subestimada. No plano desportivo, China, Hong Kong China, Macau China e Chinese Taipei participam em diversos eventos e circuitos internacionais, sendo os quatro membros de pleno direito do Conselho Olímpico da Ásia (OCA). Mas a relevância desta realidade vai além do desporto. Ela mostra que existem espaços concretos de contacto, representação e cooperação onde diferentes modelos institucionais podem coexistir de forma funcional. É precisamente essa experiência acumulada de presença diferenciada que pode ser melhor aproveitada em áreas como a saúde, a ciência, a formação, a juventude e a cooperação técnica.

      Esta leitura ganha ainda maior importância quando colocada num horizonte mais longo. Não se trata de questionar a actual fase de “um país, dois sistemas”, mas de reconhecer que Hong Kong e Macau se aproximam de marcos temporalmente importantes dentro desse quadro, o que exige visão, continuidade e capacidade de adaptação. Essa preparação, porém, não deve ser vista apenas em função do calendário. Deve ser entendida, acima de tudo, como parte de uma estratégia para elevar a qualidade de vida, reforçar o bem-estar da população, valorizar os profissionais da região, criar novas oportunidades de trabalho qualificado e desenvolver áreas essenciais como a saúde, a formação e o desporto.

      Saúde, desporto e oportunidade

      Duas áreas onde a ambição pode ganhar forma concreta

      A área da saúde constitui um exemplo particularmente evidente dessa oportunidade. Até aqui, a cooperação externa tem sido muitas vezes pensada em termos limitados, sobretudo através do recrutamento pontual de médicos. Mas essa abordagem revela-se insuficiente face às possibilidades existentes.

      Taiwan dispõe de um sistema de saúde, público e privado, de elevado nível científico e com reconhecimento internacional, nomeadamente nas áreas da tecnologia médica, da gestão hospitalar e da investigação clínica. A China continental, por seu lado, oferece escala, recursos, capacidade de integração e uma base institucional e infra-estrutural que não pode ser ignorada. Portugal mantém uma tradição médica e académica com a qual Macau conserva afinidades profundas. A articulação destes três espaços, China, Taiwan e Portugal, pode dar origem a um novo eixo de cooperação estruturado, com Macau em posição de ligação e de iniciativa.

      Neste quadro, o Complexo de Cuidados de Saúde das Ilhas, Centro Médico de Macau do Peking Union Medical College Hospital, também conhecido como Hospital Macau Union, pode assumir um papel central. A sua gestão pelo Peking Union Medical College Hospital confere-lhe uma base institucional sólida, e a sua plena operacionalização, em articulação com a Universidade de Macau e com redes de investigação e formação, pode transformar a RAEM num pólo regional de ciência médica, inovação clínica e cooperação académica.

      É também neste quadro que os Jogos Asiáticos de Praia em Sanya devem ser lidos. Após sucessivos adiamentos, o seu regresso foi aproveitado pela China e pelo Conselho Olímpico da Ásia (OCA) como uma montra de estabilidade, abertura e capacidade organizativa. Mais do que replicar esse modelo, a lição para Macau pode estar na forma como diferentes áreas podem ser trabalhadas como instrumentos de projecção, de qualificação e de utilidade pública.

      Também o desporto deve ser pensado para além da competição e da visibilidade. Em articulação com a saúde, a formação e a investigação, pode abrir novas oportunidades para os jovens, melhorar o bem-estar dos residentes e dar melhor utilização a infra-estruturas já existentes. Nesse sentido, a proximidade entre o novo Centro de Medicina Desportiva do Instituto do Desporto e o Complexo de Cuidados de Saúde das Ilhas sugere uma possibilidade concreta: desenvolver em Macau um espaço integrado de preparação, reabilitação, medicina desportiva, formação técnica e cooperação universitária.

      Pela dimensão de Macau e pelo número necessariamente limitado dos seus atletas, o Centro de Medicina Desportiva não deve ser pensado de forma isolada. A sua verdadeira utilidade dependerá da articulação com o Complexo de Cuidados de Saúde das Ilhas, permitindo ligar medicina desportiva, reabilitação, investigação, formação e saúde pública. Só nessa escala mais integrada o centro poderá justificar plenamente o seu valor, não apenas como apoio ao desporto local, mas como activo com utilidade mais ampla para a RAEM.

      Essa visão ganharia ainda maior consistência se fosse acompanhada por um reforço do intercâmbio entre a China continental, Hong Kong, Macau e Taiwan, em áreas como medicina desportiva, ciência aplicada ao rendimento, formação técnica, reabilitação e prevenção. A complementaridade entre estes espaços pode abrir novas possibilidades de aprendizagem, circulação de conhecimento e melhor aproveitamento de recursos, conferindo ao centro uma vocação mais ampla e mais ajustada às necessidades futuras da região.

      Mais importante ainda, esta aposta pode produzir efeitos directos na vida dos próprios residentes. Uma visão integrada entre saúde pública, formação, ciência e desporto contribuiria para elevar a qualidade dos serviços, criar novas oportunidades para os jovens, valorizar quadros qualificados, melhorar a qualidade de vida e reforçar a integração de Macau em redes de conhecimento e inovação. Não se trata apenas de projectar a imagem da RAEM para o exterior, mas de construir, a partir destas áreas, um modelo de desenvolvimento mais útil, mais moderno e mais centrado nas pessoas.

      Juventude, talento e circulação regional

      Abrir oportunidades e criar modelos mais atraentes para a saúde e o desporto

      Este potencial torna-se ainda mais relevante quando se considera um outro factor, frequentemente subestimado. Existem já profissionais altamente qualificados, com origem em Macau e em Portugal, que desenvolvem a sua actividade em Taiwan, na China continental e noutras partes desta região, particularmente nas áreas da saúde, da ciência, da tecnologia e também do desporto. Muitos profissionais portugueses de elevado nível trabalham actualmente em hospitais, universidades, centros de treino e estruturas técnicas da China continental, demonstrando que este intercâmbio de competências não é uma hipótese abstracta, mas uma realidade em curso.

      A criação de mecanismos capazes de atrair, reaproximar ou envolver estes perfis, através de projectos de investigação, programas de cooperação ou modelos flexíveis de mobilidade, permitiria à RAEM construir uma rede de conhecimento com alcance regional. Mais do que captar recursos, estaria em causa posicionar Macau como nó activo numa rede de talento, inovação e circulação de experiência qualificada.

      Este esforço pode igualmente justificar a criação de um modelo complementar, mais flexível e mais ajustado às exigências actuais, capaz de atrair e integrar talento qualificado nas áreas da saúde e do desporto. Não se trataria de contornar regras, mas de construir mecanismos mais adequados à realidade regional, mais competitivos na captação de competências e mais atractivos para profissionais que dificilmente se fixarão em Macau se dependerem apenas de estruturas excessivamente rígidas ou pouco estimulantes.

      Este debate tem também uma dimensão geracional que não pode ser ignorada. Durante demasiado tempo, a ideia de futuro em Macau foi sendo estreitada em torno de um número limitado de sectores, em especial o business e a administração pública. Mas a juventude de Macau é mais diversa do que isso, e as suas aspirações também o são.

      Para muitos jovens de Macau, nomeadamente nas áreas da saúde, da ciência, do desporto, da investigação e da formação técnica, o horizonte não pode resumir-se à espera pela abertura de concursos para o Hospital Conde de São Januário ou à necessidade de mudar de profissão por falta de oportunidade. A construção de um eixo mais ambicioso de cooperação regional e internacional criaria novos caminhos para essa geração, permitindo-lhe permanecer ligada a Macau sem ficar limitada pelas estreitezas do mercado local.

      Este tipo de visão exige, contudo, uma mudança de escala. De uma lógica de resposta para uma lógica de antecipação. De uma política sectorial para uma estratégia integrada.

      Articulação externa e visão de futuro

      Macau como ponto de contacto, cooperação e ambição

      Lidos desta forma, a saúde e o desporto deixam de ser apenas sectores especializados ou espaços de representação simbólica. Passam a ser também instrumentos de conhecimento, qualificação, prevenção, bem-estar e projecção externa. Isso é particularmente relevante num momento em que o país combina estabilidade estratégica com instrumentos concretos de influência. A questão deixa, por isso, de ser apenas o que Pequim faz, e passa a ser também a forma como territórios como Macau interpretam esse movimento e nele se posicionam.

      Para a RAEM, o desafio já não é de enquadramento. É de ambição. Entre integração e autonomia funcional, entre herança e inovação, entre ligação e projecção, Macau dispõe hoje de condições singulares para afirmar um papel próprio. Mas esse papel não se afirmará por inércia. Depende de visão, de coordenação e de capacidade de execução.

      Se a fase anterior foi marcada pela leitura dos sinais, a fase que agora se abre será definida pela capacidade de os transformar em estratégia. É nesse ponto, onde política, economia, conhecimento, qualidade de vida e projecção externa se cruzam, que se decidirá, em grande medida, o lugar de Macau no próximo ciclo regional e internacional.