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      O cravo vermelho em Macau: símbolo de liberdade para uns, ignorado por outros

      Uma parte da história de Portugal continua a residir no cravo vermelho. O seu significado enquanto símbolo de liberdade e democracia é reconhecido por portugueses e macaenses, mas quase totalmente ignorado pela comunidade chinesa em Macau. O PONTO FINAL visitou algumas das floristas mais frequentadas da península e procurou saber o que dizem os vendedores sobre esta data peculiar, em que os clientes portugueses encomendam “dezenas” de flores por algum motivo não totalmente claro. Alguns explicam o fenómeno com a “vitória numa guerra” em Portugal, há muito anos, enquanto outros admitem que apenas associam o cravo ao Dia da Mãe. Apesar das diferentes interpretações culturais, o cravo sobrevive em Macau como uma das flores mais compradas e apreciadas – se bem que com significados profundamente distintos para as comunidades que residem na cidade.

       

      A iconografia do 25 de Abril transcende gerações e fronteiras. Entre os vultos dos capitães de Abril e as músicas de intervenção, foi uma flor – delicada como a própria liberdade – que se tornou no símbolo absoluto da liberdade em Portugal e na diáspora portuguesa.

      Em Macau, a meio mundo de distância da Lisboa revolucionária de 1974, as pegadas da presença portuguesa atribuem um significado muito específico ao cravo, partilhado pela comunidade lusófona mas ignorado pela maioria da população. Em finais de Abril, ostentam-se cravos nas principais instituições portuguesas no território e distribuem-se flores pelos clientes da Livraria Portuguesa. É uma homenagem que se faz anualmente, impreterivelmente, mas que segue em surdina fora desta bolha cultural.

      “Vendo cravos desde que comecei a vender flores”, conta uma florista do Mercado Municipal de São Domingos ao PONTO FINAL. É uma flor com um forte apelo estético, procurada por aqueles que preferem uma mensagem visual marcante – pétalas densas e recortadas, imbricadas em botão antes de desabrocharem para uma forma mais graciosa. Inicialmente associadas à pureza e ao amor divino, adquiriram mais recentemente um novo significado de amor materno e união entre mães e filhos, motivo pelo qual são a flor de eleição no Dia da Mãe em Macau.

      A lojista, cuja família vende flores no mesmo local há três gerações, associa ainda o cravo a um outro significado. “É o dia deles”, explica, sentada numa cadeira, enquanto monta um arranjo floral. Refere-se à comunidade portuguesa, que todos os anos, por esta altura, vem à sua banca e pede “dezenas” de cravos vermelhos. “E têm mesmo de ser vermelhos”, nota, apontando para a diversidade de opções que tem ao dispor: cor-de-rosa, laranja, lilás.

      Quando questionada sobre os motivos desta celebração, a florista não hesita: “Estão a celebrar a vitória numa guerra”. Aprendeu-o através do contacto directo com os seus clientes portugueses (“alguns deles falam chinês”), que lhe explicaram a simbologia do 25 de Abril e permitiram que esta se integrasse na rotina do seu negócio. Todos os anos, nesta data específica, já espera uma vaga destes clientes residentes, de aparência estrangeira, vindos de um país onde houve outrora uma “guerra” da qual saíram vitoriosos.

      UMA FLOR, VÁRIOS SIGNIFICADOS

      A interpretação do contexto histórico não está totalmente correcta, mas faz, pelo menos, referência aos conflitos e tensões internas que culminaram na Revolução dos Cravos – e à vitória dos valores da democracia e da liberdade de expressão. Nas restantes lojas visitadas pelo PONTO FINAL, a presença e a história portuguesas estão quase completamente ausentes.

      Por outro lado, os poucos floristas que reconhecem um fluxo redobrado de clientes portugueses em Abril notam, este ano, a sua ausência. Perto do templo de Sam Kai Vui Kun, na Travessa do Barbeiro, três floristas expõem, lado a lado, as suas colecções. “Havia uma senhora que costumava encomendar cravos para o dia 25 de Abril, mas este ano não veio”, admite uma das vendedoras, com um encolher de ombros. “No ano passado não pude abrir a loja nesse dia, portanto, se calhar a senhora já se habituou a fazer a encomenda noutro sítio”.

      A florista sabe que a compra acontece, especificamente, no dia 25 de Abril, embora não saiba o motivo. Há uma barreira linguística implícita no contacto com clientes estrangeiros: sorri-se, aponta-se, diz-se “mgoi sai” e pouco mais. Uma vendedora instalada perto da Rotunda Carlos da Maia ecoa esta perspectiva, ao admitir que “já tinha reparado que há um festival qualquer, mas não consigo comunicar com os portugueses para perguntar”. No final de Abril, vários clientes de aparência estrangeira “compram grandes encomendas” de cravos vermelhos, tal como os chineses no Dia dos Finados. Atreve-se a adivinhar: “Será que os compram para o Dia da Mãe?”

      O Dia da Mãe é celebrado em Macau no segundo domingo de Maio, seguindo o exemplo de uma tradição iniciada nos Estados Unidos da América. A activista norte-americana Anna Jarvis foi a primeira associar a maternidade a esta flor quando entregou cinco centenas de cravos brancos, a flor preferida da sua falecida mãe, a uma igreja no estado da Virgínia. As floristas de Macau dizem reforçar o ‘stock’ em final de Abril ou início de Maio, pouco antes de milhares de filhos e filhas acorrerem às bancas para comprar belos arranjos florais compostos por cravos de todas as cores. “As mulheres não gostam tanto de comprar cravos vermelhos; preferem cravos de cores mais suaves”, explica uma das vendedoras, admitindo que esta é a flor que geralmente sobra quando todas as outras são compradas.

      Em Macau, o cravo vermelho enquanto símbolo de liberdade e vitória parece ser parte de uma linguagem própria de portugueses e macaenses. Para grande parte da comunidade chinesa, o 25 de Abril é apenas mais uma data no calendário.

       

      Macau celebra os 52 anos do 25 de Abril com arte, música e memória

      Macau vai receber vários eventos e exposições relativos à celebração dos 52 anos do 25 de Abril. Na Casa de Portugal em Macau (CPM), a efeméride é assinalada com a exposição colectiva “25 de Abril Sempre”, inaugurada no dia 20 de Abril e patente até 10 de Maio. A Casa de Vidro, no Tap Seac, acolhe uma mostra feita por formadores e alunos do 9.º ano da Escola Portuguesa de Macau (EPM), no âmbito da disciplina de Educação Visual. As obras abrangem vários estilos artísticos, do desenho e pintura a óleo à poesia. Também a EPM inaugurou ontem uma mostra no átrio interior da instituição, intitulada “Os Valores de Abril – os 50 Anos da Constituição”, que reúne trabalhos de alunos dos 6.º, 9.º e 12.º anos. Esta exposição pode ser visitada até 30 de Abril. A escola preparou ainda duas actividades especiais para hoje, véspera do 25 de Abril. A primeira, marcada para as 11h da manhã, junta a Tuna da EPM a alunos do 3.º e do 8.º ano para interpretar três temas marcantes da Revolução dos Cravos: “A Formiga no Carreiro” e “Venham mais Cinco”, de Zeca Afonso, e “Somos Livres”, de Ermelinda Duarte. Um pouco mais tarde, às 11h45, o auditório da EPM recebe a palestra “Abril é Gente: Histórias que não se apagam”, com participação do advogado Jorge Neto Valente, da escritora Ana Paula Barros, do engenheiro Manuel da Silva e do próprio director da escola, Acácio de Brito. Amanhã, dia 25, as celebrações têm início pelas 15h com um workshop de banda-desenhada na sede da CPM, orientado por Nicolau Tudela e dirigido a crianças dos oito aos 12 anos. À noite, tem lugar o tradicional jantar no Clube Militar, com cocktail marcado para as 18h30 no pub e refeição a partir das 19h30 no Salão Comendador Ho Yin. Neste local, será também patente uma exposição de fotografia intitulada “Lisboa, 25 de Abril de 1974”, da autoria dos fotojornalistas Álvaro e José Tavares. As fotografias expostas retratam as ruas, os lugares e as pessoas que construíram a revolução, permitindo recuar até à Lisboa daquele dia.