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      InícioParágrafoParágrafo #75Os primórdios do feminismo na China

      Os primórdios do feminismo na China

                   A História da China, de Michael Wood, é um livro de síntese e divulgação que acaba de ser publicado em português. Entre muitos outros temas, dá pistas para quem se interesse pelos movimentos feministas e figuras como Qiu Jin e He Zhen.

       

      Condensar a história milenar da China em pouco mais de 600 páginas é um grande risco. Quando o autor não é sinólogo, o perigo é ainda maior e Michael Wood, conhecido historiador, cineasta e apresentador de televisão britânico sabe bem disso. Mesmo assim, decidiu avançar para a escrita de História da China – Um Retrato de uma Civilização e do Seu Povo, originalmente publicado em 2020 e que agora chega à edição portuguesa com carimbo da Temas & Debates.

      Logo a abrir, Wood traça a cronologia da sua relação com a cultura chinesa, que começou nos anos de escola, em Manchester, quando leu Poems of the Late Tang, de A.C. Graham; e se desenvolveu ao partilhar casa com um sinólogo enquanto estudante universitário em Oxford. Aí, Wood conviveu com outros tesouros literários da longa tradição chinesa. Anos mais tarde, começou a visitar o país regularmente, fruto do seu trabalho enquanto apresentador de televisão e da popular série de seis episódios que acabaria por fazer, intitulada The Story of China.

      Wood afirma no prefácio da obra que «escrever sobre o passado da China é uma tarefa intimidante» e, quanto à forma do livro, explica que tentou, «à maneira de um realizador de cinema, manter em andamento a grande narrativa geral e, ao mesmo tempo, fazer desvios para apresentar grandes planos, focando determinados locais, momentos e vidas, vozes de indivíduos de todos os lugares». Alguns desses indivíduos são figuras emblemáticas como o romancista Cao Xueqin (O Sonho do Pavilhão Vermelho) ou o grande poeta Du Fu, sobre quem Wood rodou um documentário em Chengdu. Outros intervenientes são mais remotos, como o peregrino budista do século VII de nome Xuanzang. Entre as histórias que fascinaram Wood estão também as das «electrizantes revolucionárias feministas Qiu Jin e He Zhen, no final do império».

       

      Morrer pela causa

      A poeta e intelectual feminista Qiu Jin秋瑾 (n. 1875) pertencia a uma antiga família de intelectuais de Shaoxing. Wood conta que, «na casa dos vinte, encurralada num casamento arranjado e infeliz, contactou com ideias revolucionárias e partiu para o Japão», onde conviveu com vários exilados republicanos que almejavam a queda da dinastia Qing. Qiu Jin esteve na fundação de jornais revolucionários e feministas, onde entre muitos outros textos escreveu o conhecido «Um Apelo Respeitoso aos Duzentos Milhões de Camaradas Mulheres», um ataque declarado ao sistema patriarcal vigente, defendendo a liberdade de casamento e o direito ao ensino, assim como o fim de atrocidades como o enfaixamento dos pés das mulheres. Regressada ao seu país, Qiu dirigiu o jornal Notícias das Mulheres da China, onde publicou o ensaio «Às Minhas Irmãs», deu aulas e dirigiu uma escola antes de acabar executada na sua terra natal. Wood conta que o seu último poema vai assim: «A minha morte não tem qualquer importância agora, tudo o que espero é que o meu sacrifício ajude a preservar o nosso país». Qiu foi decapitada em Shaoxing a 15 de Julho de 1907.

      He Zhen何震 (n. 1884) é descrita por Michael Wood como «uma das mais brilhantes, mas perturbadas, percursoras do movimento feminista moderno da China». Falta ainda saber mais sobre a sua vida, mas é certo que estudou Escola Patriótica Feminina de Xangai e que se tornou «ferozmente anti-Qing». Viveu em Tóquio, onde colaborou com revistas, e os seus escritos chegaram mesmo a publicações de Paris. Preocupavam-na as questões de género, mas também a luta de classes – em 1904, leu no Japão a primeira tradução de O Manifesto Comunista para a língua nipónica.

      He Zhen fundou a Associação para a Recuperação dos Direitos das Mulheres e escreveu importantes textos já vertidos para inglês, como «Sobre a questão da libertação das mulheres», datado de 1907, ou o ensaio «Sobre o trabalho feminino». Wood nota que os seus artigos «punham em destaque a dependência das mulheres, o infanticídio e a prostituição». Noutro ensaio, «O Manifesto Feminino», He Zhen faz «um vigoroso ataque ao patriarcado».

      Michael Wood deixa ainda uma ideia interessante sobre He Zhen: a de que era uma internacionalista. Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos intelectualizados, a activista estava «menos preocupada com o destino da China como nação e mais com o nexo entre patriarcado, imperialismo e capitalismo, e com a sujeição de género como problema mundial».

       

      Pistas de leitura

      Não se sabe ao certo como foram os derradeiros anos da vida de He Zhen, mas mais detalhes sobre o seu legado e o de autoras como Qiu Jin podem ser encontrados em livros dedicados à escrita no feminino na China imperial. The Red Brush – Writing Women of Imperial China, publicado em 2004 pelo Harvard University Asia Center e editado por Wilt Ideam e Beata Grant, é porventura a mais colossal dessas obras. Ao longo de quase 900 páginas, é-nos oferecido um retrato completo da produção literária levada a cabo por mulheres ao longo dos séculos. O epílogo do livro é dedicado ao nacionalismo e feminismo, com destaque para o papel de Qiu Jin. Outra obra importante, também citada por Michael Wood, é Women Writers of Traditional China – An Anthology of Poetry and Criticism, dada à estampa em 1999 pela Stanford University Press e editada por Kang-i Sun Chang e Haun Saussy.

      Women, Gender, and Sexuality in China – A Brief History (Routledge) é um livro da autoria de Ping Yao que acaba de ser publicado e que no capítulo sétimo, intitulado «Five Women to Remember», destaca Qiu Jin e apresenta alguns dos seus poemas traduzidos para inglês. Num deles, Qiu Jin menciona Joana D’Arc, garantindo que a heroína francesa lutaria ao lado das mulheres chinesas. A alusão a Joana D’Arc não passou despercebida no Ocidente: serviu até à data para muitos títulos de artigos de jornal e revista sobre Qiu Jin e até para outro livro que lhe é inteiramente dedicado: Chinese Joan Of Arc: Qiu Jin – China’s First Feminist, de Marie-Laure de Shazer.

       

       

      Michael Wood

      A História da China

      Temas & Debates