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      COMPÊNDIO DE COISAS JAPONESAS

      Cultura – Em Foco – Livros

      Hélder Beja

       

      Várias obras editadas recentemente lançam um olhar sobre um dos países mais singulares do globo. Jorge Sousa Braga, autor da versão portuguesa de Hojoki, de Kamo No Chomei, fala de um «livro das pandemias do passado, do presente e das que hão-de vir».

       

       

      «Se te adaptas ao mundo vais sofrer muito. Se não te adaptares enlouqueces». «Aquele que se conhece a si mesmo e que sabe como tudo acaba, quer apenas paz e ficar feliz por não ter nada que o aflija». Estes são exemplos dos muitos bocados de sabedoria que Kamo No Chomei, autor japonês do século XII, nos deixa em Hojoki – reflexões da minha cabana, livro tão breve quanto potente, vertido para o português pelo poeta Jorge Sousa Braga.

      Hojoki (publicado pela Assírio & Alvim) é uma das várias obras que nos últimos meses chegaram à edição portuguesa e que se debruçam sobre o Japão e a Ásia em geral. Trata-se de um dos livros escritos por Kamo No Chomei (n. 1155) depois de decidir converter-se ao budismo, em 1204, e refugiar-se na montanha. Ali, num isolamento e contentamento profundos, vai acompanhando ao longe os tumultos políticos e também aqueles gerados por causas naturais (incêndios, tufões, terramotos, fome) que assolam o seu país. Durante esses anos de clausura, escreve Mumyoosho (Tratado Sem Nome) e Hojoki (Notas na Minha Cabana de Dez Pés), além de serem dele conhecidos cerca de uma centena de poemas e uma colecção de contos budistas, conforme enumera Jorge Sousa Braga na introdução ao livro.

      «Cheguei a Hojoki através duma versão francesa há muitos anos. Fui coleccionando versões (inglesas e espanholas). No início da pandemia do COVID 19, achei que era a altura de o traduzir, porque fazia todo o sentido», conta Sousa Braga ao Parágrafo. «Era o livro das pandemias do passado, da do presente e também das que hão-de vir. A experiência subjacente ao Hojoki era de certa maneira semelhante aquilo que se estava a passar a nível global.»

      O livro – um «hino ao despojamento, escrito também de forma despojada», como o tradutor refere na nota introdutória – é então um compêndio de impressões de Kamo sobre os tempos conturbados da sua nação, mas também sobre questões mais profundas e filosóficas. Escreve o autor japonês: «Podemos compreender o mundo de hoje comparando-o com o mundo do passado.» Nada podia ser mais actual. Jorge Sousa Braga lembra que «a nossa memória é muito limitada e acabamos muitas vezes por repetir os mesmos erros. Esquecemo-nos da transitoriedade da nossa passagem sobre a terra.»

      O processo de verter para português as palavras de Kamo No Chomei, por parte de um tradutor que não domina a língua de partida, fez-se através de edições disponíveis noutros idiomas, «umas mais académicas, outras mais literárias». O mesmo se aplica às versões de outros poetas que traduziu, como o japonês Bashô ou clássico indiano Kalidasa. «Eu cheguei ao Bashô através do Eugénio de Andrade, que me emprestou algumas traduções francesas e a versão em espanhol do maior diário do Octavio Paz. O mesmo aconteceu com o Kalidasa e outros poetas sânscritos», explica Sousa Braga.

      Para o poeta, Hojoki é «um clássico intemporal da literatura japonesa, como o Makura no soshi (O Livro de Cabeceira), de Sei Shonagon, e o Tsurezuregusa (Diário de Um Ocioso), de Yoshida Kenko. Na sua brevidade, para além duma estreita comunhão com a natureza, ressoa a efemeridade das coisas humanas e a transitoriedade da nossa existência». Apesar do chamamento de reclusão que o livro instila, Sousa Braga nota que «agora já não é preciso que alguém se refugie na montanha, pode fazê-lo num pequeno apartamento na cidade mais agitada». Mas garante não ser esse o seu caso: «Tento adaptar-me ao mundo, com as consequências que daí advêm».

      Para Sousa Braga «há uma sensibilidade que é subjacente a quem escreve poesia (e a quem lê poesia). Essa sensibilidade permeia a nossa vida, sejam quais forem as circunstâncias em que nos encontremos». E é por isso que continua a ser um leitor voraz de poesia, acabando por vezes por vertê-la para a língua portuguesa. «Leio poesia todos os dias. Há sempre um ou outro poema, um ou outro poeta que gostaria de traduzir, não como empreendimento, mas mais para poder partilhar com os outros aquilo que de uma ou outra forma me tocou.»

       

                  Masaoki Shika e mais

      O livro de Kamo No Chomei tem a companhia de outros autores japoneses ou que viveram intensamente o Japão nesta aterragem na edição portuguesa. Masaoko Shiki e o seu Aves Dormindo Enquanto Flutuam (Assírio & Alvim) encerra uma tetralogia de obras dedicadas a quatro grandes poetas da tradição Haiku (iniciada com Matsuo Bashô e continuada com Kobayashi Issa e Yosa Buson), «permitindo ao leitor português mergulhar na poesia oriental nos seus matizes, melodias e imagens plenos», como refere a nota que apresenta o livro. O autor da versão portuguesa é Joaquim M. Palma, homem que, como Jorge Sousa Braga, tem dedicado muitas horas à tradução de grandes mestres do Japão, e que apresenta assim o seu mais recente trabalho: «Pondo de parte as questões existenciais, o sofrimento e a morte, usufruamos, por agora, da magia e beleza que Shiki — um humano que adorava comer dióspiros e questionar convenções — deixou ao mundo do futuro como herança do seu sentir poético.»

      Outra obra agora lançada pela Livros de Bordo é Relance da Alma Japonesa, de Wenceslau de Moraes, livro que reúne um conjunto de considerações sobre o povo japonês e sobre a sua cultura tradicional. «Passando pela história, pela língua e pelos conceitos fundamentais da vida em comunidade, o autor descreve o país através dos seus vários anos de experiência de vida em terras de Dai-Nippon, o Grande Japão», refere a editora.

      Ainda dignas de nota são as edições de Montanhas Douradas (Bertrand), livro que estreia na edição portuguesa a jovem autora C Pam Zhang; e Rostos da Morte, mais um título do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han editado pela Relógio d’Água.