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      Início Parágrafo Parágrafo #77 Os “lobos guerreiros” que estão a desenhar a Nova Era da China

      Os “lobos guerreiros” que estão a desenhar a Nova Era da China

      Linda Jaivin, autora e tradutora formada em Estudos Chineses, arriscou escrever A Mais Breve História da China em menos de 300 páginas. O resultado é mais que satisfatório e desagua no capítulo mais interessante e fresco: aquele dedicado à governação de Xi Jinping.

       

      Escrever a história de uma das civilizações mais antigas, e de um dos países mais influentes e poderosos do planeta em que vivemos, já deveria ser desafio suficiente. Fazê-la caber toda num livro com menos páginas que alguns romances de Mo Yan, isso já parece impossível. Mas não é, como prova A Mais Breve História da China (Dom Quixote), obra recente da autora australiana Linda Javin, agora publicada em Portugal e merecedora de rasgados elogios por parte de vozes influentes como Julia Lovel (Maoism: A Global History) e Louisa Lim (The People’s Republic of Amnesia).

      Javin, também romancista e ensaísta, formou-se em Estudos Chineses pela Universidade de Brown. Viveu em Taiwan, Hong Kong e Pequim, e há mais de três décadas que estuda a China e acompanha a sua actualidade. É por isso natural que, sendo bem escrita e desenvolta – funciona como um bom sumário para quem não dispõe de tempo ou entusiasmo para atacar os calhamaços de história da China que enchem as bibliotecas –, A Mais Breve História da China não apresente grande novidade nos capítulos referentes às origens daquilo que hoje conhecemos como China e às suas várias dinastias. O mesmo já não é verdade quando o livro se aproxima dos nossos dias. Aí, e especialmente no capítulo “A Nova Era de Xi Jinping – A Ascensão dos Lobos Guerreiros”, Linda Jaivin ensaia um sumário preciso e conciso do modo como o país tem actuado e se tem alterado ao longo da última década.

      Pode argumentar-se que Jaivin favorece os acontecimentos mais dramáticos e as políticas mais duras daquilo a que chama de “Nova Era” da China. Em sua defesa é preciso dizer que abre o capítulo em causa referindo «a mais ambiciosa campanha contra a corrupção em décadas» movida por Xi, «recebendo um amplo apoio do público» (p.250); e que descreve o projecto da Nova Rota da Seda e a vontade da China em alcançar «um mundo unido por uma Comunidade de Destino Partilhado para a Humanidade liderada pela RPC» (p.253). O que se segue, porém, tem outras tonalidades.

      Ao elencar os aspectos mais problemáticos da actual liderança do Partido Comunista Chinês (PCC) um após outro, Jaivin logra um efeito que se assemelha ao da combinação de imagens numa montagem sequencial acelerada, ou de uma parede onde se colem lado a lado as muitas pistas de um mistério por resolver. Ora vejamos: a autora elabora sobre o “Consenso de Pequim”, um «modelo chinês favorável ao autoritarismo (…) que privilegia a prosperidade e a estabilidade sobre a liberdade e as alternativas políticas» (p.253); dá conta da aplicação lançada pelo PCC em 2019, em que os utilizadores recebem pontos ao aprenderem sobre o Pensamento de Xi Jinping, entretanto inscrito na constituição; nota que esta medida «faz parte de uma digitalização mais ampla da propaganda, inclui outros sistemas de crédito social que seguem os princípios legalistas de recompensa e castigo e que estão a ser desenvolvidos gradualmente em diversas plataformas de todo o país» (p.256); aponta «um sistema mais vasto de recolha de dados e de outras formas de vigilância tecnológica e humana que, desde 2020, colocou os cidadãos da RPC entre os mais vigiados do mundo – algumas cidades têm mais de 100 câmaras de vigilância por 1000 residentes» (p.257); aborda as questões dos direitos humanos no Tibete e do Xinjiang; reflecte sobre a redução da liberdade religiosa na China durante a última década; não esquece Taiwan e muito menos os acontecimentos de Hong Kong, «incluindo o rapto transfronteiriço de editores e livreiros independentes» (p.261) e os confrontos violentos que assolaram a cidade em 2019; prossegue com a Lei de Segurança Nacional e a sua avaliação do impacto que teve em Hong Kong: «O princípio de “um país, dois sistemas” tinha, para todos os efeitos, sido extinto» (p.262). A sequência de acontecimentos não fica por aqui. A prisão de cinco mulheres feministas em 2015, quando desejavam manifestar-se contra o assédio sexual é sintoma de um dado que Jaivin faz que questão de frisar: «No Relatório da Igualdade de Género do Fórum Económico Mundial, a RPC está classificada no 106º lugar entre 153 países, tendo caído na classificação durante onze anos consecutivos» (p.263); e lembra ainda que em 2018, e pela primeira vez desde a década de 1990, o crescimento económico da China foi inferior a 7 por cento.

      Linda Jaivin termina com a pandemia de Covid-19, referindo o despropositado sentimento anti-chinês que grassou mundo fora. Mas foi a resposta da RPC ao escrutínio internacional que exigia esclarecimentos com uma celeridade e uma veemência nada habituais nas conversações com a China que, para a autora, mostrou a face desta Nova Era.

       

                  Lobos vestidos de internautas

       

      Uma pesquisa em qualquer motor de busca por “wolf warrior” mostra rapidamente que a expressão é hoje muito mais que o título dos filmes (I e II) que conquistaram o público chinês com a figura de um action hero que faz parte do Exército de Libertação Popular. Nos dois filmes – e acima de tudo no segundo, o maior sucesso comercial de sempre de um filme na China – o protagonista Leng Feng, interpretado pelo actor Wu Jing, anda mundo fora a mostrar quem manda e quem pode. Nada de mal e nada de novo nisto – já era tempo de a China ter o seu Rambo. Acontece que a designação “wolf warrior” serve hoje para descrever um estilo agressivo e coercivo de resposta a qualquer crítica feita à China, réplica essa que se estende dos fóruns online às declarações de alguns governantes e diplomatas chineses. Foi assim com o criticismo relativo à pandemia principiada em Wuhan. Para Javin, «a reacção agressiva dos Lobos Guerreiros na internet e de alguns diplomatas até mesmo às críticas moderadas anulou anos de esforço por parte da RPC para se promover como um interveniente estável e benigno a nível mundial» (p.266)

      É certo dizer que a anterior linha de reforma e abertura foi praticamente abandonada pela China nesta Nova Era. Jaivin remata dizendo que é impossível saber quem tem razão nesta contenda: se os Lobos Guerreiros que defendem a China incondicionalmente, se aqueles que viam no rumo prévio um caminho melhor. Neste capítulo, que é na verdade um ensaio sobre o momento actual da China, Jaivin deixa-nos muito em que pensar: «O potencial humano, cultural e económico da China é ilimitado. O PCC, sob a liderança de Xi Jinping, pensa que pode realizar este potencial sem abrandar – e mesmo intensificando – o seu controlo sobre a sociedade, a cultura e a vida intelectual chinesas, e reprimindo as culturas e populações minoritárias. (…) No entanto, historicamente, a China tem prosperado mais em tempos caracterizados pela sua diversidade e abertura, como na época da dinastia Tang. (…) A RPC poderá ter dificuldade em fazer com que a sua influência – o poder da atracção – esteja ao nível do seu poder material» (p.266/267).