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Quinta-feira, 29 de Setembro, 2022
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      Ser e nomear

      A realidade objectiva é um mito. Há muito que damos por inequívoco e que afinal é apenas uma interpretação nossa, passível de estar a grande distância da dita realidade. Há muito mais ficção no nosso entendimento do que estamos dispostos a admitir em todos os momentos do quotidiano. Aceitamos esses mal-entendidos, fazem parte de todas as horas dos nossos dias, edificamos constantes interpretações do mundo a partir deles. Entre as nossas crenças, há algumas que são presunções a partir de presunções a partir de presunções e, com frequência, nesse raciocínio encadeado, logo o primeiro pressuposto é de validade questionável.

      Não duvidamos de nós próprios o suficiente e, assim, avançamos por ambiguidades, incorreções e erros, perversões que transtornam a forma como pensamos e, por consequência, a forma como olhamos. Noutros casos, com a mesma intensidade, duvidamos demasiado de nós próprios e, também assim, criamos uma distorção entre o que existe e o que acreditamos que existe.

      Na universidade, no primeiro ano, tive uma disciplina chamada Introdução aos Estudos Literários. Passámos dois semestres à volta da pergunta: o que é a literatura? De Aristóteles a Vladimir Propp, fomos avançando por múltiplas referências e, com uma ingenuidade que a professora tolerava, questionámos conceitos como se fôssemos os primeiros a fazê-lo, como se tivéssemos descoberto naquele instante o que os outros, em vão, tinham perseguido durante séculos.

      Depois dessa montanha-russa teórica, por fim, nas últimas semanas do último período, a professora revelou que não era possível responder de modo infalível à pergunta. Não se pode fechar a literatura num conceito. O que a literatura pode ser transcende o simplismo de qualquer afirmação lacónica.

      Na vida, há inúmeros assuntos que também são assim. O que é o amor? As grandes ideias fogem de definições. O que é o tempo? E, no entanto, para sermos funcionais, para existirmos no espaço que ocupamos, precisamos de ter convicções. Estabelecemos a cartografia dos nossos valores a partir dessas conjecturas implícitas. Não sabemos ao certo o que é a vida, não conseguimos defini-la exactamente em todas as suas nuances e possibilidades e, apesar disso, precisamos de ter crenças mais ou menos claras, para tomarmos a mínima decisão.

      O que é a realidade? é uma pergunta demasiado grande, caímos nela como num abismo. O que é a realidade para nós? é uma pergunta de tamanho bastante mais razoável. Como no primeiro caso, também no segundo não conseguimos encontrar uma resposta totalmente satisfatória, mas parecemos resignar-nos com mais aceitação a essa incapacidade. Para isso, basta tomar por real a ficção em que acreditamos.

      Na sua matéria mais profunda, as certezas pelas quais nos guiamos não são feitas de palavras. O seu corpo é vago, difuso, com grande indefinição de contornos e, no entanto, essas são características objectivas da sua realidade. No momento em que as analisamos à lupa e tentamos dar-lhes um corpo de palavras, transformam-se imediatamente em ficção. As nossas certezas passam a ser a ficção das nossas certezas.

      Nomear é um acto ficcional. Quando apresentadas ou entendidas como símbolos de algo, as palavras são objetos de ficção. Moby Dick não é ficcional apenas por descrever episódios que não aconteceram, por não ter existido um capitão Ahab na conservatória do registo civil. Ao existir em palavras, Moby Dick cria automaticamente um universo ficcional. Por ironia, ou talvez não, é nessa dimensão que a sua realidade se localiza. As palavras propõem uma realidade tão real como esta mesa de madeira: toc, toc. O capitão Ahab e todas as referências de Moby Dick são ficcionais e são reais. O capitão Ahab, o navio Pequod e a própria baleia existem na linguagem.

      O antónimo da ficção não é a realidade. A ficção tem uma existência concreta e legítima. O antónimo da ficção é o factual mas esse, quando considerado de modo absoluto, transcende-nos. Ao tentarmos captá-lo, ao tentarmos exprimi-lo para os outros ou para nós próprios, transformamo-lo imediatamente em ficção.

      A constatação de que apenas lidamos com ficções, de que o que percepcionamos não é literal, de que as nossas memórias e impressões não são a realidade inequívoca, não tem de ser angustiante. Trabalhar a ficção não é criar outros mundos, é pensar o mundo. A ficção não é invenção, é uma possibilidade.