VÍRGULA

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Meia-noite toda a vida

A escrita de Hanif Kureishi é multifacetada e multicultural. A sua ascendência indiana permite-lhe um olhar a partir de dentro de uma certa classe média suburbana inglesa e/ou imigrante, olhar esse que tem fornecido personagens e cenários à sua obra. Teve um especial sucesso como argumentista nos anos oitenta com A Minha Bela Lavandaria –  recebendo inclusivamente uma nomeação para o óscar de melhor argumento original. Autor de títulos marcantes como A Última Palavra ou O Buda dos Subúrbios, Kureishi é um dos nomes mais importantes das actuais letras inglesas.

Na sequência de Intimidade – um relato confessional e impiedoso da ruptura de um casamento –, Meia-Noite Todo o Dia, publicado originalmente em 1999, continuou a abordar o infindável filão das relações sentimentais, dos seus fracassos e da possível inevitabilidade destes. Estando sempre envolvido o desejo como principal catalisador de todas as acções e de todas as relações, acaba também por ser o desejo que arrasta inexoravelmente as personagens para o insucesso e para a insatisfação: «Somos infalíveis na nossa escolha de amantes, particularmente quando precisamos da pessoa errada. Existe um instinto, uma força magnética ou antena que busca o inadequado. A pessoa errada é, obviamente, certa para determinadas coisas – para nos punir, oprimir ou humilhar, para nos desiludir, abandonar ou, pior ainda, para nos dar a impressão de não ser inadequada, mas quase certa, mantendo-nos assim presos no limbo do amor.»

O exemplo mais directo de um casal onde as diferenças inconciliáveis se fazem sentir é aquele que nos é dado em «Rapariga». Neste conto, Nicole e Majid divergem em quase tudo: na idade – ele é bastante mais velho do que ela – na raça – ele é indiano, ela é inglesa – e no nível cultural – «ele tinha milhares de livros e conhecia todos os escritores. Ela nunca tinha ouvido falar de Gauguin.». E é exactamente este último ponto que se torna o grão de areia na engrenagem da relação: Nicole acumula frustrações a partir do seu complexo de inferioridade para com Majid e amigos, ao mesmo tempo que este acumula frustrações resultantes da impossibilidade de discutir assuntos eruditos com Nicole. Acabando essa situação por desembocar num instante catártico, onde ambos revelam todo o seu ressentimento e todas as suas insatisfações. Este conto é revelador de um ambiente muito presente no livro e que, entre outros aspectos, é uma das marcas mais fortes da sua unidade: a falibilidade das relações, quer esta seja causada pela insegurança, pela falta de coragem ou, com frequência, pelas circunstâncias adversas.

Ainda assim, apesar de este ser o factor fundamental à volta do qual toda a unidade do livro se constitui, Kureishi consegue ser suficientemente versátil para o apresentar de diversas formas que, numa primeira leitura, causam alguma apreensão. É esse o caso de «Quatro Cadeiras Azuis», o pequeno conto em que, ao contrário de todos os outros, John e Dina são felizes juntos. Basicamente, o enredo prende-se com a compra e o transporte de quatro cadeiras – azuis, claro – e com um convite para jantar. Estes elementos insignificantes são – na pequenez da vida de John e Dina – elevados ao estatuto de vitais. E ficando bem claro que este casal leva uma vida de insignificâncias – uma «vidinha» – percebe-se que a sua «cegueira» para as grandes questões é o único motivo pelo qual conseguem ser felizes.

Original também, igualmente alheio à ambiência geral deste volume, é o conto entitulado «O Pénis». Nesta variação de «O Nariz», de Gogol, Doug é um actor pornográfico que, certo dia, acorda sem pénis. Sai alarmado em busca do órgão perdido numa perseguição caricata – «Hei!, chamou Doug ao mesmo tempo que o seu pénis apanhava um táxi, educadamente deixando a senhora entrar primeiro» –, acabando por conseguir alcançá-lo e, ao manter um diálogo com ele, negocia o seu regresso. No final do livro, este último conto acaba por ser um pretexto para Kureishi expor a versatilidade da sua ironia e, ao mesmo tempo, fechar as suas reflexões sobre o amor com uma provocação que aligeira o tom trágico e desamparado do livro.

Mas Kureishi é Kureishi, e Meia-Noite Todo o Dia continua a revelar aquilo que o autor pretende: uma depuração rigorosa de temas que sempre lhe têm sido caros. Meia-Noite Todo o Dia é o prazer do encontro ou do reencontro com um grande escritor do nosso tempo.