Os versos despidos

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> José Luís Peixoto

Isto aconteceu mesmo. 

Naquele serão, deixou-se ficar ao lume até ser já muito tarde. O sono costumava levá-lo para a cama não muito depois do jantar. Jantava quando a noite chegava, depois da tarde, mais cedo no inverno do que no verão. Nos dias sem chuva, passava a tarde no jardim da vila, num banco que ficava encostado ao coreto, onde se sentava depois de almoço. Em casa, almoçava umas sopas que aquecia no lume do fim da manhã. De manhã, assim que acordava, ia à do Casimiro ou à do Zé Bastos, bebia um ou dois traçados e sentava-se a falar das histórias que estavam sempre a acontecer na vila. Acordava muito cedo, no instante em que o sol nascia.

Naquele serão, sentou-se ao lume e só se foi deitar quando a última brasa ficou coberta de cinza e a sua luz desapareceu. Olhou para essa última brasa como se olhasse para o fim dos seus pensamentos. Nesse dia, tinha acordado com um verso na ideia. Era um verso que pedia novos versos. Desde os outonos em que ia apanhar azeitonas ao rabisco, desde os doze ou treze anos, talvez, que nasciam versos dentro dele. Primeiro, eram versos quase transparentes, esquecia-os ao fim de um certo tempo. Não sabia escrever, repetia os versos durante algum tempo e, aos poucos ou de uma vez, esquecia-os. Desses versos, apenas permaneceram os que ficaram escritos na memória de raparigas a quem foram sussurrados. Além desses, houve também outros que permaneceram. Eram os versos onde ele contava a história rimada do Mané Cacimbo, que tinha deixado a mulher por causa de uma burra. Eram versos que as pessoas repetiam umas às outras, despertavam sorrisos e risos. Ao fim de alguns anos, já ninguém sabia quem tinha composto essas rimas. Ele próprio se esqueceu do tempo em que as inventou. Muito mais tarde, já ele tinha para cima de sessenta anos, apareceu na vila uma professora primária que gostava de versos, era boa rapariga. Sempre que o encontrava, pedia-lhe para dizer versos. Ele começava a dizer os versos de que se lembrava ou alguns que inventava no momento, e a rapariga anotava tudo num caderno. 

Naquele serão, diante do lume ainda vivo, ao repetir os versos que, a partir do primeiro, lhe tinham crescido nos lábios ao longo de todo o dia, palavra a palavra. Eram versos que não rimavam, versos despidos, era assim que lhes chamava, ele temia aqueles versos que não rimavam, inquietavam-no. Temia aqueles versos que não faziam a música habitual das quadras. Desde que nasciam versos dentro dele, desde que começara a apanhar azeitonas ao rabisco, que as palavras nunca tinham sido tão cruéis. Quando o lume e a última brasa do lume morreram, quando ficou só o frio a descer pela chaminé, foi-se deitar. Repetia os versos desalinhados dentro de si, despidos. Temia-os. Repetia muito baixinho os versos e sentia temor.

No dia seguinte, mal acordou, mal engoliu as sopas de café com leite, nem foi à do Casimiro, nem foi à do Zé Bastos, saiu de casa e atravessou as ruas até à escola. Passava por pessoas que lhe diziam bom dia, respondia-lhes bom dia entre os versos que repetia para si próprio. Não os repetia por ter medo de os esquecer, mas sim por não conseguir parar de os repetir. A escola era branca com barras amarelas. Entrou no recreio vazio e, quando chegou à porta, tirou a boina. Havia uma rapariga que fazia recados e tocava o sino para os meninos entrarem e saírem. Quando ele passou da porta, essa rapariga veio ter com ele. Baixou o olhar, como se a rapariga lhe pudesse ler os versos no olhar, e disse que queria falar com a professora. Ela explicou que estava quase na hora de os meninos saírem para o recreio, ela pediu-lhe que se sentasse numa cadeira, que era a cadeira onde se sentavam as pessoas que esperavam. Sentado, repetiu os versos e sentiu-se velho, rodou a boina entre os dedos das mãos. A rapariga tocou o sino, filas de meninos saíram a correr da sala, uma leva de vozes, uma descarga de passos rápidos nas tábuas do chão. A professora ficou admirada quando o viu. Ele levantou-se, envergonhado, com a boina apertada nas mãos. Foi só depois de um silêncio sólido, que passou instante a instante que ele lhe disse os versos, sem rima, despidos.