VÍRGULA

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José Luís Peixoto

Regressar a Moçambique

 

Mia Couto é conhecido, são talvez poucas as novidades que tenho para dar acerca da sua obra. As páginas de Mia Couto nascem de Moçambique, mas habitam mundos inteiros, atravessam fronteiras. Nas suas mãos, esta língua que falamos e escrevemos torna-se uma matéria ainda mais viva, como uma daquelas enormes árvores africanas, como um embondeiro, por exemplo. A língua usada por Mia Couto alimenta-se da própria terra. Há nela uma força antiga, como se as palavras carregassem ecos de muitas línguas, de muitos tempos. As suas histórias não se fecham no real; misturam o que se imagina com o que se recorda. A escrita de Mia Couto nasce do cruzamento entre o humano e o invisível. Os seus narradores muitas vezes não sabem tudo, mas pressentem muito mais do que está acessível ao próprio conhecimento. As personagens são gente em transformação, existe o que foram e existe o que ainda não se tornaram. Muitas delas vivem em territórios feridos, mas não se deixam reduzir a isso, são sempre munidas de uma dignidade que não precisa ser dita, é evidente. O que acontece nos livros de Mia Couto não é apenas uma sucessão de factos: é um modo de olhar, de escutar o que não tem nome.

Tudo isto a propósito de, recentemente, ao longo de poucos dias, ter voltado às páginas de O Último Voo do Flamingo, mais de vinte anos após a primeira leitura.

Em Moçambique, nos primeiros anos do pós-guerra, Tizangara podia ter sido uma vila vulgar, se os soldados da ONU não tivessem começado a explodir. Sem explicação e sem deixar nenhum vestígio para lá dos seus característicos bonés azuis e dos seus órgãos genitais, os soldados envolvidos no processo de paz “simplesmente começaram a explodir”. Este é o mistério que o narrador, um tradutor que não traduz, nos propõe logo no texto que inicia o romance. Um mistério que percorre todo o livro e que permanece, mesmo depois de serem dadas várias explicações possíveis. Cabendo ao leitor decidir qual lhe parece ser a mais acertada ou em qual prefere acreditar, pois “afinal, tudo é crença”.

Entre histórias, lendas, mitos e parábolas, Mia Couto vai construindo personagens, onde um extremo realismo se cruza com uma fantasia extrema. É esse o caso de Temporina, uma mulher cujo rosto foi condenado à velhice apenas por, durante a juventude, ter recusado todos os pretendentes; ou Sulplício, pai do narrador, que “despe” e estende os seus próprios ossos numa árvore antes de dormir, pois só invertebrado consegue descansar realmente. Entre muitos outros, há também o administrador Estêvão Jonas, antigo combatente da libertação e autor de cartas ao governador, “camarada excelência”, que constituem alguns dos capítulos mais hilariantes e onde o trabalho da linguagem é evidente.

A escrita pretende imitar a oralidade, mas não esconde uma busca empenhada em torno do dizer literário. Mia Couto escreve mal para escrever bem. Ou seja, usa “erros” gramaticais e sintáticos de modo a conquistar mais expressividade. Com esta escrita, com os seus neologismos e metáforas, Mia Couto vai sugerindo o imenso Moçambique.

Massimo Risi, o militar italiano das Nações Unidas que tem a árdua tarefa de averiguar o bizarro mistério das explosões, perde-se neste país, incompreensível aos olhos de um europeu. Aquela que poderia ter sido uma missão simples com uma solução simples, acaba por ser uma viagem onde se cruza o mundo dos vivos e o dos mortos, o prosaico e a fantástico, o ciúme e o amor. Com Massimo Risi, somos levados nessa viagem, onde nos cruzamos com a denúncia do racismo, das diferenças sociais, do confronto, velado ou aberto, entre estrangeiros e nacionais ou dos resquícios do colonialismo.

Ou seja, reflexões absolutamente actuais.

Reler um romance vinte anos depois é um gesto curioso. A memória da primeira leitura não permanece intacta, dissolveu-se no tempo, transformou-se noutra coisa. Ficou uma impressão geral, uma atmosfera vaga, talvez o nome de uma personagem, um fragmento de enredo. Mas tudo isso já se afastou do livro em si. As ideias que resistiram evoluíram, não são já exactamente as mesmas. No entanto, ao se avançar na releitura, algo acontece. As páginas não são absolutamente novas. Há descrições que acendem uma faísca: existe ali algo reconhecível, um sabor antigo. Pode ser uma frase, o ritmo das palavras alinhadas de certa ordem. E não se consegue ter a certeza se é uma lembrança verdadeira ou apenas a ilusão de ter estado ali antes.

É um regresso e, ao mesmo tempo, uma estreia. O leitor de agora não é o mesmo de há vinte anos, e o livro, apesar de manter as mesmas palavras, também mudou. A releitura é um duplo encontro: com a obra e com a memória do leitor que a conheceu antes. É como seguir pelas divisões de uma casa antiga, onde se viveu brevemente, reconhecer sombras, sons e silêncios. Existe o estar lá, mas também existe mistério, existe o “isto está a acontecer”, mas também existe o “isto já aconteceu”. Entre o passado e o presente, o mundo do livro, como um país.