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      InícioCategorias do ParágrafoVírgulaA única tesoura do bosque

      A única tesoura do bosque

      Henry segurava a tesoura na mão direita.

      As folhas. Paradas. As folhas nos ramos das árvores, paradas apenas durante um instante e, logo depois, a serem movimento contínuo, rodopio de cores quase próximas, quase misturadas, as folhas de Outono a deixarem o céu malhado de ideias e a serem a fonte de todos os sons restolhados, pássaros a lançarem-se ao céu como folhas com asas, pequenos corações a baterem, pequenos corações a baterem, a possibilidade de se imaginar pequenos corações a baterem.

      Henry David Thoreau não era o seu nome, não era sequer Henry David. Naquele momento, não era sequer Henry. Se alguém se tivesse aproximado e o tivesse chamado, iria demorar um instante até perceber que aquela combinação de sons se referia a ele. Naquele momento, Henry David Thoreau não tinha nome. Era indistinto de outros objectos que também tinham mobilidade e que existiam fechados em si próprios, a serem silenciosos quando vistos de fora, mas a esgatanharem-se todos por dentro.

      Havia de chover. Essa era uma certeza em dias com aquela cor. As nuvens esperavam por um segredo só delas para libertarem um período mais ou menos demorado de chuva sobre os campos e sobre o telhado da cabana. Antes desse instante, antes da primeira gota bater no chão, Henry atravessou a porta, pisou a terra, pisou folhas mortas, a humidade tornou-as suaves, Henry sentiu-as. E o tamanho de tudo o que o envolvia foi a expressão de algo que não sabia dizer mas que, se soubesse, talvez preferisse nunca verbalizar. As palavras que diziam a justiça daqueles troncos lá longe talvez fossem silenciosas, talvez fossem apenas um olhar que não se podia ter de propósito. Talvez a única forma de dizer toda aquela natureza, pureza, certeza, fosse sem querer.

      Henry abriu a mão direita e olhou a tesoura. A surpresa do seu rosto, reflexo desse instrumento na palma da mão, foi como se nunca o tivesse visto e não lhe entendesse um propósito. Mas sabia, no fundo, por baixo de camadas feitas de todas as manhãs em que acordara ali, na cabana, na floresta; por baixo de camadas feitas de serões sob o candeeiro de petróleo ou, logo depois, a adormecer entre a vida noturna de animais, sob o negro opaco. Sabia e, por isso, abriu a tesoura. Dobrou os joelhos e aproximou-se da pedra redonda. Começou a amolar a tesoura, primeiro devagar, a sentir bem o metal contra a pedra, o metal a riscar-se na pedra, as linhas de metal que ficavam presas aos grãos rugosos da pedra; depois, mais depressa, a completar as vezes necessárias para a tesoura cortar de modo irreversível.

      Repetido ou prolongado, o barulho da tesoura a raspar na pedra era alheio àquele lugar. As memórias que Henry haveria de ter daquele lugar, a impressão que tinha dele, não incluíam aquele som. Ao parar de fazê-lo, sentiu um alívio importante. Olhou para a lâmina, depois observou-a, depois contemplou-a. A lâmina estava pronta e ele estava pronto. Voltou a entrar na cabana. Teve vontade de fechar a porta, mas não o fez. Andava pelo chão um vento estranho, irrequieto, como um rastilho invisível. Era da chuva que havia de chegar. Era a materialização dessa ansiedade pequenina.

      Na cabana, a salamandra estava lá ao fundo, debaixo da chaminé, sedenta de fogo e de madeira. A cadeira de baloiço estava ao lado, pronta para um ritmo lento, respirado. Encostada à parede, a cama estava feita. No outro lado, a mesa, secretária também, e a cadeira que Henry puxou e levou até ao lavatório de ferro. Acertou o pequeno espelho do lavatório, apontou-o na direção da cadeira. Sentou-se e voltou a acertá-lo. Parte da sua cabeça ficava na superfície daquele rectângulo. Então, levantou as mãos. Com uma, escolheu uma madeixa de cabelo, com a outra, aproximou a tesoura aberta e, quando lhe pareceu que estava no tamanho certo, fechou-a. Sentiu a grossura e a vitalidade do seu próprio cabelo. Não era como erva, não era como raízes. Segurava a madeixa entre o indicador e o polegar. Olhou para ela, avaliou-a. Afinal, não custou tanto como chegou a acreditar que custasse. Largou a madeixa no chão e continuou a cortar, mais, mais e mais. À volta dos pés, tinha já uma boa quantidade de cabelo.

      O espelho enganava. Às vezes, quando queria cortar menos, o reflexo enganava-o e, então, aproximava a tesoura e cortava mais. Outra vezes, acontecia o contrário. Depois, quando tentava corrigir, se cortasse demasiado, o erro tornava-se mais grave porque, depois de cortado, o cabelo já não crescia instantaneamente. Cortar era mais fácil, era fácil demais. Depois, fez uma pausa.

      Tinha os braços cansados de estarem levantados, à volta da própria cabeça. Não lhe custava carregar lenha para a salamandra, ou fazer toda a ordem de trabalhos brutos, mas aquele esforço melindroso dava-lhe cabo dos cotovelos. Com os braços pousados sobre as pernas, via-se ao espelho e quase desanimava. O desacerto do seu penteado parecia irrecuperável.

      Ainda assim, teoricamente, existia a probabilidade. Voltou a cortar. Parou quando fez a segunda pelada. A primeira ficou sobre têmpora esquerda, a segunda ficou no topo da cabeça. Sem consolo possível, Henry analisou a irregularidade chocante do seu penteado. Levantou-se, sacudiu as calças e virou o espelho contra a parede. Foi buscar a vassoura. Não deixaria os bosques de Walden até que o cabelo crescesse o suficiente para, com o pente, poder disfarçar a falta de jeito com a tesoura. E começou a varrer o chão. Ao mesmo tempo, não se sabe com que pensamento, o céu começou a chover.

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      Redacção do Ponto Final Macau