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      InícioOpiniãoO silêncio da memória

      O silêncio da memória

      “Não se pode acordar uma pessoa que finge estar a dormir” – Antigo provérbio dos índios Navajo

       

      Na sinopse sobre o admirável livro “A Cegueira – Uma Outra História do Nosso Mundo” (2017, Editora Cavalo de Ferro), do historiador francês, Marc Ferro, são colocadas pertinentementemente as questões que, de um modo sucinto, identificam os males da condição humana e que nos tornam a todos e cada um, de algum modo, cúmplices do (mau) estado do planeta e dos países dos quais somos todos concidadãos e membros de uma espécie biogénetica e antropologicamente una. E as questões são as seguintes: Por que razão somos tão cegos perante a realidade, designadamente a duração imprevista da Primeira Grande Guerra, a ascensão do nazismo, o extermínio dos judeus, o Maio de 68, a queda do comunismo, o 11 de setembro de 2001, as crises financeiras ou a ascensão do islamismo radical: são muitos os episódios da História Humana que perturbaram a ordem mundial e, sobretudo, que surpreenderam tudo e todos. Assistimos incrédulos ao espoletar de crises, ao eclodir de tragédias e ao desenrolar de convulsões sociais, sem que líderes políticos ou cidadãos comuns consigam ver e prevenir os factos que, contudo, se repetem diante dos seus olhos. Mas, dadas as eternas reviravoltas da História, será mesmo possível antecipar o futuro, compreendê-lo e agir a tempo?

      A razão do título desta coluna, que irá a partir de hoje dar origem a um conjunto de reflexões sobre a dificuldade de “acordar uma pessoa que finge estar a dormir”, prende-se com a necessidade de romper com este silêncio que a história raramente julga porque a “mentalidade do carnívoro”, de que falava o etologista Konrad Lorenz, é um continuum recorrente na história humana cujo princípio da territorialidade aplicado, quer à vida política, quer às interacções sociais, permite todas as fixações agressivas de superioridade/inferioridade, rejeição de diferenças, mutilações ou violações da liberdade do Outro – razão pela qual é sempre necessário e urgente revisitar, com honestidade intelectual e decência humanística, a história única do passado não muito longínquo de todos os países sem excepção, mas muito particularmente a história passada e presente de nações que se reivindicam de um magistério moral superior, como que resultante de um providencialismo histórico-religioso, em jeito de cruzada contra o mal.

      Escolhi para iniciar este tópico, num próximo texto, a análise das raízes ideológicas dos Estados Unidos da América, inspirado na frase do ex-presidente da república dos EUA, Jimmy Carter, que em 2019 dirigiu uma carta ao ex-presidente Donald Trump em que afirmava que “The United States is the most warlike nation in the history of the world”. Tal carta veio a propósito da guerra comercial contra a China, que mais não é afinal do que o reflexo da geoestratégia unipolar e policial de controle dos EUA sobre os recursos e destinos do planeta e, no caso concreto, da região do Pacífico Sul em que o Mar do Sul da China é uma zona vital para a China, designadamente para o fluxo das suas importações e exportações e por onde circula um terço do comércio mundial via marítima. Mas é sobretudo, na perspectiva dos EUA, uma zona de imensos recursos naturais pois, segundo as estimativas da US Energy Information Administration, a área contém pelo menos 11 bilhões de barris de petróleo e 190 trilhões de pés cúbicos de gás natural. Outras estimativas chegam mesmo a estimar cerca de 22 bilhões de barris de petróleo e 290 trilhões de pés cúbicos de gás natural. O Mar do Sul da China corresponde também a 10 por cento do pescado mundial, tornando-se uma fonte importante de alimento para centenas de milhões de pessoas. A chamada Oil War integra o histórico expansionista americano. De facto, a Oil War esteve na origem do apoio dos EUA à Operation Lotus, como ficou conhecida a invasão da Indonésia em Timor Leste, à sua geopolítica do petróleo nos Balcãs, à invasão do Iraque, à participação na guerra da Síria, etc. Na verdade tem sido o petróleo uma das principais causas de guerra. Entre um quarto e metade das guerras inter-países desde 1973 estiveram ligadas ao petróleo, como referem os professores americanos de ciência politica com Duffield (2015) e Colgan (2013), ou historiadores americanos como Engdahl (2004), entre outros.

      De tal modo foi considerado vital o petróleo na política interna e externa americana que o governo americano conseguiu impor internacionalmente em 1971 uma moeda-padrão de pagamento dos excedentes comerciais das nações produtoras de petróleo, o petrodollar recycling – um termo inventado na década de 1970 que significava os excedentes comerciais das nações produtoras de petróleo. Depois de ter sido separado o dólar do ouro em 1971, este novo padrão foi introduzido: o padrão do petróleo, o petrodollar em que todos os países da OPEC, em 1975, acordaram denominar desta forma todas as vendas do petróleo em dólares americanos em troca de armamento e assistência militar.

      A história única de cada país é quase sempre, como se costuma dizer, a história dos vencedores; e, por outro lado, a memória política e ética dos seres humanos é sempre muito curta e, como afirma Ferro (2017: 17) “se não foi possível prever o presente, não terá sido porque o passado não foi bem compreendido?”. Ou então, diria, se não foi possível não terá sido porque o passado foi muito bem branqueado à sombra de uma propaganda bem construída de uma história única alicerçada no já mencionado magistério moral superior supostamente resultante de um providencialismo histórico-religioso, em jeito de cruzada contra um presumível mal? Isto porque a construção do inimigo não é moldada apenas em função do “eu/nós” (país cristão, branco, civilizacionalmente superior, sexualmente straight, etc.), mas também em função da construção negativa do outro, com vista a que “o outro” possa ser percebido como o perigo, o mal, o inferior ou o bárbaro em relação ao “eu/nós”, por forma a que politicamente se possa moldar a percepção pública acerca de determinados atores e garantir apoio às decisões contra aqueles. A esta segunda forma de cegueira perante uma situação nova podem juntar-se “todas as figuras da negação face ao que não se quer ver nem saber” (Ferro, op. cit., bidem), designadamente tanto do passado como do presente.

       

      Rui Rocha

      Investigador