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      InícioOpiniãoPúblicos pecados privados de virtude

      Públicos pecados privados de virtude

      Se a pedregosa China era impenetrável, como lamentava o missionário jesuíta Alessandro Valignano, Macau era porosa, permeável, apesar da sua geografia – uma península de relevo acidentado e cru abrigando atrás dos penhascos um porto interior –, e apesar das muralhas, construídas para defender a cidade de ataques e para delimitar diferentes realidades, políticas e civilizacionais. Com o passar do tempo, todavia, nem as condições naturais nem as fortificações serviram para afugentar metediços.

      Afinal, no princípio do estabelecimento, foram precisamente as características de inacessível lugar que atraíram os portugueses a se fixarem ali, fora do alcance de quem se aproximava pelo mar. Não estava à vista, e, por isso mesmo, o fundeadouro representava uma posição privilegiada, ali no estuário do rio que levava à cidade de Cantão, por onde, entretanto, haveriam de começar a subir as embaixadas de outros europeus, ameaçando o estatuto favorecido dos portugueses naquelas paragens.

      Com a abertura de portos chineses ao comércio estrangeiro, a partir do final do século XVIII e princípio do século XIX, Macau vai ser invadida por ingleses, americanos, franceses, holandeses, espanhóis, arménios, parses, dinamarqueses. Eram os novos senhores que dirigiam as grandes empresas e decidiam as mais lucrativas transacções.

      A decadência dos portugueses já vinha de trás, todavia, e era um fenómeno que as autoridades chinesas acompanhavam. No conciso relato de um mandarim, “[os bárbaros de Macau] talvez tenham sido mais numerosos do que agora. Eram ricos e são agora pobres, foram poderosos e agora são fracos”.

      De acordo com estas “informações sumárias” deixadas por Zhang Zhengtao num relatório de 1750, que seria compilado na “Breve Monografia de Macau” (1751), o número total de barcos por aquela altura não devia ultrapassar as dez unidades e as mercadorias resumiam-se ao ordinário: pimenta, estanho, cera. “Já não trazem curiosidades, nem novidades”.

      Quem não tinha capital para investir, alugava os barcos aos estrangeiros. “Hoje, entre os bárbaros de Macau há já quem se tenha tornado mendigo ou bandido. São numerosas as mulheres bárbaras que andam a mendigar, tudo por causa da miséria em que vivem”; andavam até “sujeitas à sedução e ao sequestro de malfeitores chineses”.

      Pela mesma altura, também um cronista português regista o mesmo ar dos tempos. Corria 1745 no capítulo final da monumental “Ásia Sínica e Japónica”, no qual José de Jesus Maria dedica-se a escrever sobre “o estado de Macau, no tempo presente”. Era “certamente mais para se sentir, que para escrever”. E lembrar.

      O território, não havia como esquecer, fora “posto em decadências” desde que se acabara o comércio do Japão e “principiaram todos a empobrecer, até chegar ao estado presente em que (se chamarmos pobre a quem deve), não se achará facilmente um homem rico em Macau”.

      Por aqueles dias, a população de Macau não excedia os quatro mil, entre “portugueses, místicos, nhons, malaios, canarins, timores, moçambiques, malabares, mouros, cafres”, e alguns estrangeiros que ali residiam. Os portugueses, que “arrebentam de fidalgos”, não tinham outra vida a não ser a navegação, não escondendo o “desprezo [em] ocupar-se na terra em algum ofício”.

      José de Jesus Maria conjeturava uma Macau diferente “se houvesse nesta cidade económico governo e se fizesse trabalhar aos vadios que não são marítimos, em ofícios mecânicos com o suor do rosto como filhos de Adão, ganhando a vida sendo ourives, cobreiros, latoeiros, espingardeiros, carpinteiros, pedreiros, sapateiros, alfaiates, ferreiros, etc.”. Nada disso. Apenas “querem ter” e “só viver em distraída ociosidade, como as mulheres, as quais muito bem se podiam ocupar em costuras, rendas, bordados, fiar algodão ou seda, fazer meias, e outras coisas semelhantes”. Mas não havia como convencer a servir quem sempre fora orgulhosamente servido por uma caterva de escravos.

      Quase um século depois, o empresário e cônsul sueco Anders Ljungstedt, autor do primeiro (1832) estudo da história do território, escrito em inglês, constataria que “ninguém em Macau se interessa por aprender qualquer arte ou abrir uma loja”. O mal era geral. “Os mais activos da classe baixa abraçam a vida do mar; os mais ociosos alistam-se como soldados; aqueles que valem um pouco de dinheiro fazem negócios como mercadores”.

      Escrevendo sobre um tempo ainda anterior àquela Macau, o filósofo Eduardo Lourenço lembraria no século XX toda uma “tradição parasitária e pícara” elevada a protocolo entre as elites portuguesas. “Não trabalhar foi sempre, em Portugal, sinal de nobreza e quando, como na Europa futuramente protestante, o trabalho se converte por sua vez em sinal de eleição, nós descobrimos colectivamente a maneira de refinar uma herança ancestral transferindo para o preto essa penosa obrigação”. No seu “Labirinto da Saudade”, Lourenço determina que “é mesmo essa a autêntica essência dos Descobrimentos, o resto, embora imenso, são adjacências”.

      Entre os portugueses em Macau, de igual modo, o trabalho sobrava. Eram os chineses que ocupavam “todas as artes e ofícios” e vendiam “todo o comestível”, regista o frade arrábido. Para estes comerciantes ganhavam a vida “os pobres moradores sobre as águas do mar entre perigos”, vendo ser levada para a China “toda a prata e dinheiro de Macau”.

      Na pobre cidade, todos, “de qualquer qualidade, estado, condição e género”, estavam “necessitados e subordinados aos chinas, comendo, bebendo, vestindo, e calçando pela sua mão, como e quando eles querem e pelo preço que querem, pois têm debaixo dos pés os moradores de Macau, muito por culpa destes e pelo seu mau governo, hoje quase já sem algum remédio”.

      José de Jesus Maria reconhecia que havia na cidade “algumas pessoas (mas poucas) que cuidam da sua reputação, com honra, verdade e brio”, mas pareciam sufocadas pelos “enredos, falsidades, testemunhos, ódios, vinganças”. Mas mesmo esses admitiam ao frade arrábido: “ninguém podia viver em Macau sem mentiras, enganos, trapaças e carambolas”.

      Alguma verosimilitude haveria no retrato traçado por José de Jesus Maria, porque, décadas mais tarde, também a licenciosa pena de Bocage iria descrever uma cidade à deriva, muito semelhante à que o religioso homem anotara: “Um governo sem mando, um bispo tal,/De freiras virtuosas um covil/Três conventos de frades, cinco mil/Nhon’s e chinas cristãos, que obram mui mal;/Uma Sé que hoje existe tal e qual/Com catorze prebendados sem ceitil;/Muita pobreza, muita mulher vil,/Cem portugueses, tudo em um curral;/Seis Fortes, cem soldados e um tambor,/Três Freguesias, cujo ornato é pau,/Um Vigário Geral, sem promotor;/Dois colégios, e um deles muito mau,/Um Senado que a tudo é superior;/É quanto Portugal tem em Macau.”

       

      Hugo Pinto

      Jornalista