O filme de série B Kill a Dragon, de 1967, é o responsável pela reunião de algumas das pessoas mais improváveis que alguma vez fizeram um filme em Hong Kong e Macau. Comecemos pelo realizador, Mickey Moore, que tinha sido um actor infantil canadiano no cinema mudo dos anos 20, mais tarde convertido em realizador especializado em filmes protagonizados por estrelas pop. Quando chegou à Ásia para coordenar a sua equipa de filmagem, em meados dos anos 60, tinha acabado de realizar alguns filmes desse género com Elvis Presley como protagonista.
Juntemos o pugilista americano entretanto transformado em actor, Jack Palance, que já tinha trabalhado com nomes de peso – Elia Kazan, Joan Crawford, Alan Ladd, Robert Mitchum, Brando –, mas cuja carreira estava em declínio, deixando-o sem trabalho e com tempo livre para viajar. E Palance, com o seu queixo anguloso, tinha a vantagem de ser reconhecido internacionalmente e famoso pelas suas cenas de luta com armas de fogo e facas, quase sempre muito realistas e brutais (que, infelizmente, não conseguiu recriar em Kill A Dragon).
Ao lado de Palance estava o actor argentino Fernando Lamas, que tinha começado a carreira interpretando personagens tipo macho-latino, e que, ao chegar aos 50 anos, descobriu que era mais fácil conseguir papéis de vilão do que de protagonista romântico. Em meados dos anos 60, a carreira de Lamas também estava estagnada, pelo que não foi difícil aceitar o papel de vilão português e chefe da máfia de Macau. Depois, havia Aldo Ray, um actor que nunca chegou a atingir o estrelato, mas que trabalhava constantemente para tal. A sua carreira também estava num ponto muito baixo, pelo que estava livre e disposto a viajar. E, finalmente, contrataram Aliza Gur para o papel principal feminino – uma actriz israelita, ex-Miss Israel 1960 e Bond Girl em From Russia With Love. Gur tinha-se casado há pouco com um dos patrões da Columbia Pictures, em Hollywood, e reformou-se pouco depois de Kill a Dragon, não tendo voltado a aparecer no ecrã – o que, para ser franco, não é grande perda.
Foi assim que este grupo um tanto peculiar, composto por um realizador especializado em filmes delicodoces, alguns actores em decadência e uma rainha da beleza israelita, chegou a Hong Kong em 1966 para dar início às filmagens.
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O enredo de Kill A Dragon é bastante simples. Trata-se, essencialmente, de uma imitação de série B do filme Os Sete Samurais, de Kurosawa, ou da sua adaptação western, Os Sete Magníficos. Os habitantes da ilha de Macau contratam um aventureiro americano e mulherengo, Rick Masters (Palance), e a sua equipa para os ajudar a contrabandear uma valiosa carga de nitroglicerina para Hong Kong, debaixo do nariz de um gangster local, Patrai (Fernando Lamas), que quer a carga para si. Atraído pela promessa do ouro e pela bela «recepcionista» de discoteca Tisa (Alizia Gur), Rick conta também com a ajuda do guia turístico local Vigo (Aldo Ray), uma escolha bastante surpreendente quando se pensa em aliados para combater um bando criminoso cruel e fortemente armado.
Os aldeães de Macau são um grupo heterogéneo de pescadores, horticultores e, dado importante, respigadores de destroços de navios, reivindicando direitos de salvamento. Curiosamente, a nitroglicerina era um tema comum nas revistas pulp e nos filmes de série B ambientados em Macau nas décadas de 50, 60 e 70. Porquê? Bem, Hong Kong pagava generosamente por ela, uma vez que a colónia britânica vivia então um boom de construção aparentemente interminável, nivelando encostas e desbravando terrenos para novas cidades. Fornecer nitroglicerina era um bom negócio.
Factos curiosos: há algumas cenas interessantes filmadas em Wan Chai, nos anos 60. Judy Dan, nascida em Xangai e ex-Miss Hong Kong de 1952, desempenha um papel secundário como uma aldeã macaense. E há algumas cenas no Wan Fu, um iate de luxo que também servia de barco de recreio, operado durante muitos anos pelo Hotel Hilton.
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Receio que o filme não tenha recebido críticas muito positivas… Os críticos americanos consideraram Macau, como era de esperar, «pitoresca» e «exótica», embora, na verdade, tenham sido os Novos Territórios de Hong Kong a servir de cenário para Macau, criando o aspecto muito rural que se vê no ecã. «Um pequeno thriller de acção mal feito» foi o melhor que se conseguiu dizer. Um crítico observou – confundindo Kowloon com Macau – que não gostava das «ruas sujas e cheias de lixo, onde quase tudo, desde um esfaqueamento a uma violação, poderia acontecer». Talvez não tenha sido a crítica mais esperada pelo departamento de turismo de Macau!
Ainda assim, Kill A Dragon rendeu um lucro modesto à Universal Artists. Os impressionantes cartazes talvez prometessem um pouco mais de sexo e violência do que o filme realmente apresentava… A maioria viu-o como um western comum, um filme-cliché, uma fórmula, produzido em massa nas décadas imediatamente após a Segunda Guerra Mundial.
Uma nota final: Mickey Moore não estava destinado a ser um grande realizador. No entanto, teve uma carreira posterior como realizador-assistente, muito procurado nas décadas de 1970 e 1980, tendo trabalhado em Butch Cassidy and the Sundance Kid, Patton, The Man Who Would Be King, no filme de James Bond Never Say Never Again e, com Steven Spielberg nos filmes de Indiana Jones. É claro que Indiana Jones e o Templo Perdido contou com o Club Obi Wan, filmado em Macau, na antigo pensão Sun Sun Hotel, na Praça Ponte e Horta, que serviu de cenário para a Xangai dos anos 30. Moore chegou finalmente a Macau e rapidamente a transformou em Xangai.
Kill A Dragon está disponível na Amazon e noutras plataformas de streaming.











