Susan não sabe ainda que hoje a sua vida para sempre. Mastiga o croissant do pequeno-almoço, enquanto no Ipad insere as últimas fotos nas redes sociais. Faltam poucos minutos para a partida do tour.
Três semanas passaram desde que deixou a sua cidade no sul da Inglaterra, a casa dos pais. Quase a chegar aos trinta anos, depois de um longo namoro terminado, quis viajar, conhecer outras paragens, outros mundos. Pediu uma licença sem vencimento na empresa onde era arquitecta, lançou-se na aventura, até aos confins da Ásia. Precisava de mudança, de horizontes a desbravar, de ser vivida pela vida. Juntou numa mochila o essencial e partiu, a sorrir, perante a apreensão da irmã, dos pais e a incredulidade do ex-namorado.
Depois do longo voo, mergulhou. Dissolveu-se no caos multicolor, empoeirado e poluído de Banguecoque. Cada esquina, cada templo, cada pedra convidava à descoberta. Tudo era caótico, sujo, mas também belo, mágico, inesperado.
Agora, era Chiang Mai, a pérola do norte da Tailândia. Terra do Buda, dos templos do turismo e de novos mundos a descobrir.

Ia iniciar o tour até Chiang Rai para visitar o famoso Templo Branco. Entrou na carrinha branca onde já estava um grupo de turistas de várias nacionalidades e uma guia explicando detalhes do percurso no inglês possível. Entre breves sonos e conversa, 152 kms foram devorados rapidamente.
Longe de transportar em si o peso histórico, o Templo Branco, espelha uma nova dimensão da Tailândia, reinventada sob as lentes do cosmopolitismo e de um mundo pautado pelas leis do brilho vazio, efémero. O contraste desse fulgor com o cenário seguinte, a aldeia das karen, as mulheres-girafa, fere o olhar e a alma. Na ânsia de beber aquelas paisagens de um só trago, Susan pede para abandonar o grupo e regressar a Chiang Rai, horas mais tarde, com outros visitantes. Aventura-se por trilhos, a contornar arrozais, na sede de conhecer, de sentir a vida daquela gente, mapear as linhas configuradoras da paisagem onde se movem pessoas como peças de um tabuleiro de xadrez esculpido além das montanhas. O sol lambe-lhe a pele, uma densa língua de fogo a acender a sede a cada passo. A garrafa de água não basta para a saciar. Avança, apoiada na sua solidão, como no bastão de um caminhante. Quer primeiro explorar a área circundante e só depois entrar no interior da aldeia das karen. Arrisca um carreiro mais distante, a desaguar numa subida a pique. Sente o corpo a derreter, riachos de suor a deslizarem pela testa. De súbito, no ponto mais distante aldeia, agora uma breve linha riscada a giz, sente o chão mover-se sob os seus pés, até que uma dor lancinante no tornozelo a fez perder as forças e tombar desamparada no chão… Vê uma centelha esverdeada a esgueirar-se rapidamente para os arbustos. Uma imprudência, aquela caminhada de sandálias, em território de cobras venenosas, mas o calor era muito e a inconsciência de quem sempre viveu na cidade… Agora ali está, contorcendo-se de dor naquele chão povoado de perigos desconhecidos. Procura o telemóvel, mas… a bateria está no fim! E pedir ajuda a quem? Estrangeira, sozinha, em terra estranha! Nem sequer o número de emergência médica tem… A dor, a sede… talvez se gritar, mas quem a pode ouvir? Respira fundo, lança um grito longo, nascido das entranhas do desespero como um animal ferido, enquanto a noite prepara o seu lençol negro para agasalhar o mundo.
Novo restolhar na erva seca. Agora…uma voz humana, vinda das entranhas dos tempos: “Ni hao…”
Febril, vê um rapaz… não sabe se é real ou fruto da febre. Um jovem chinês, também a fazer o percurso pelos trilhos, mas provavelmente perdido, pois vem em sentido contrário. Não há palavras. As dela naufragaram na dor, na febre, as dele perderam-se no rumor longínquo de uma língua desconhecida. Ele tenta ajudá-la a levantar-se. Na impossibilidade de a manter de pé, o rapaz carrega-a às costas. Caminha como um sonâmbulo, guiado pela luz da lanterna do telemóvel – a lua nova é um tímido rabisco de luz. A tropeçar nas pedras, ele avança, rumo à aldeia. O silêncio impera, gerado nas entranhas do medo. A certa altura, caem ambos desamparados. Não muito longe, uma luz… Gritam desesperadamente: ela em inglês, ele em mandarim. Exaustos, permanecem sentados no chão, vendo aquele fio de luz aproximar-se. São duas mulheres karen, iluminadas por um archote – o dourado dos anéis nos pescoços faísca de forma enigmática. Susan geme com dores, o pé e a perna derramam-se num inchaço. Uma das mulheres ajuda a transportá-la, enquanto a outra lhes ilumina o caminho. Uma delas empurra a porta e entram na casa com chão de terra batida. Não há uma palavra, só silêncio, solidariedade. Rapidamente se apercebem do estado de Susan. Examinam-lhe com cuidado o pé e a perna. Depois, aquecem água numa panela de ferro, juntam ervas e raízes, improvisam uma ligadura. As mulheres agem com a sabedoria de enfermeiras experientes, trocando murmúrios, enquanto colocam os curativos na paciente. Afinal, todo o veneno tem o seu antídoto.
Só mais tarde, quando já consegue levantar-se, Susan tem consciência da sorte. Deve a vida àquela gente com quem não consegue comunicar, mas que domina o idioma da solidariedade, da generosidade.
Após a recuperação, decide um novo rumo: Myanmar, onde, numa ONG, defenderá a causa da etnia karen, apoiando os refugiados Rohingia. Salvar vidas, tal como salvaram a sua. Talvez seja essa a sua missão: aprender, descobrir-se, lutar para fazer a diferença – palavras-chave norteadoras da nova vida.










