Nascido no Quebec, Guy Delisle já viveu aqui bem perto, em Shenzhen, deambulou por vários outros lugares do mundo e tem feito bandas desenhadas sobre os mais variados temas, muitas vezes a partir da sua própria vida, outras buscando nas vidas alheias, reais ou ficcionais, aquilo que nos torna humanos, independentemente do ponto do globo onde nascemos ou vivemos. Guy Delisle vem a Macau para participar no Rota das Letras, depois de passar por Hong Kong, onde inaugurou uma exposição do seu trabalho no âmbito do festival da Francofonia.
Os livros onde registou viagens a lugares tão distintos como Pyongyang, Birmânia ou Jerusalém deram a Guy Delisle o reconhecimento mundial como “autor de livros de viagens”. É um facto extraordinário, tendo em conta que a linguagem utilizada por este autor natural do Quebec é a banda desenhada, meio que não costuma produzir reconhecimentos tão unânimes fora do âmbito das grandes indústrias de entretenimento. Guy Delisle, então, é um dos autores de viagens da nossa contemporaneidade, mas o seu trabalho estende-se muito para além desses volumes viajantes e inclui trabalhos que se arrumarão nesse vasto universo da não-ficção – umas vezes aproximando-se da reportagem, outras mantendo o tom no relato pessoal e nas memórias – e outros de difícil classificação, sobretudo entre os primeiros livros que publicou.
É nos anos 90 do século passado que Delisle começa a publicar em livro e essas primeiras narrativas de maior fôlego estão muito longe do registo que mais tarde seria a sua imagem de marca. São histórias que experimentam soluções narrativas a partir das ferramentas da banda desenhada, quase sempre atravessadas por um certo absurdo que tem por base as relações humanas e sentimentais. L’aventure est au coin de la rue, publicado em 1996, conta a improvável história de amor entre um homem e uma mulher desconhecida, cruzando humor e delicadeza numa sucessão narrativa que não escapa ao absurdo. Aline and the Others, publicado em 1999, que terá uma espécie de continuidade com Albert and the Others, em 2001, reúnem cada um vinte e seis histórias de mulheres e homens cujos nomes, ordenados alfabeticamente, percorrem um extraordinário catálogo de comportamentos emocionais, fantasias sexuais e afectos nem sempre satisfeitos. Estes serão os livros mais experimentais de Guy Delisle, oriundo do cinema de animação – onde dominaria, de antemão, uma série de técnicas da narrativa visual – e dedicado a desbravar caminhos numa outra linguagem, provavelmente sem poder imaginar que seria nessa que o seu nome acabaria por ecoar pelo mundo.

Autor viajante
Na transição para a nova década, em 2000, Shenzhen marca o início dos livros de viagem (todos eles disponíveis em português com chancela da Devir). Delisle muda-se para a cidade do Sul da China para dirigir um estúdio de animação e regista os seus dias, mas sobretudo a estranheza, a dificuldade de entender e de se fazer entender verbalmente, as experiências nem sempre entusiasmantes (como aquela dor de dentes que se transformará num autêntico pesadelo).
A Shenzhen hão-de juntar-se Pyongyang, a narrativa da temporada que o autor passou na capital norte-coreana enquanto trabalhava num estúdio de animação, sempre vigiado e sem possibilidade de deambular sozinho, Crónicas Birmanesas, o relato da sua estada na Birmânia, acompanhando a sua mulher, que trabalha para os Médicos Sem Fronteiras, e Crónicas de Jerusalém, o último deste conjunto onde identificamos uma série de características comuns.
Publicado em 2011, Crónicas de Jerusalém é o resultado de uma temporada vivida nessa cidade entre 2008 e 2009, anos que agora nos parecem longínquos se atendermos aos acontecimentos mais recentes na Palestina… Nestas crónicas diarísticas, vencedoras de vários prémios desde então, não há análises profundas sobre a ocupação da Palestina por Israel ou as várias propostas a que já assistimos sobre o melhor modo de diferentes povos partilharem a cidade, mas antes notas do quotidiano, algum humor perante os hábitos e práticas locais e a habitual leveza com que Delisle procura representar o que para si é diferente. O conflito não deixa de existir, quase sempre em pano de fundo, ainda que várias personagens o abordem, mas é no seu dia a dia em Jerusalém que o autor se foca, bem como na panóplia de personagens que vai encontrando e que acabam por marcar os seus dias, dando-lhe matéria infinita para construir este livro.

Na primeira pessoa
O registo autobiográfico estrutura vários outros trabalhos de Guy Delisle para além dos livros de viagens. Em Factory Summers, de 2021, o autor regressa aos anos finais da sua adolescência e ao emprego temporário que manteve por três verões numa fábrica de celulose, no Quebec. Muito para além da lembrança juvenil, esta é uma narrativa que reflecte sobre diferenças sociais e discriminação sexista a partir de um espaço de trabalho exclusivamente masculino – e palco livre para toda a espécie de comentários que vão desfilando em modo de competição – e de um conjunto de tarefas fisicamente bastante duras e realizadas em turnos de 12 horas. É também uma reflexão sobre a relação de Delisle com o seu pai, trabalhador de escritório, enfrentando diariamente apenas 8 horas de labor e arrastando ao longo da vida uma infelicidade profunda.
Num registo muito diferente, a série de livros que o autor dedicou à paternidade contrastam com esta reflexão sobre o seu próprio pai. Le guide du mauvais père são quatro livros, também disponíveis em inglês, que exploram, com humor e uma enorme dose de paciência, os gestos e os cuidados que se esperam de um bom pai, contrastando-os com os esquecimentos, as falhas e os tropeções quotidianos. A experiência de ser pai e a partilha quotidiana da vida com os seus filhos em crescimento reflectem-se nestas pranchas de modos muito plurais, umas vezes focando-se no desespero, outras na maravilha das descobertas e aprendizagens diárias, sempre com uma atenção detalhada aos pequenos gestos e às emoções que são a matéria-prima do desenvolvimento humano.

Histórias alheias
Fora do registo autobiográfico, duas obras se destacam na longa produção de Delisle: Muybrigde e Hostage. A primeira é um dos trabalhos mais recentes do autor, publicado em 2024, e conta a história de Eadweard Muybridge, uma das figuras pioneiras da fotografia. Em 1870, Muybridge decide provar a teoria do magnata da ferrovia norte-americana, Leland Stanford, que dizia que os cascos dos cavalos não tocavam no chão quando os animais galopavam. Nesse processo, acaba por criar de forma quase acidental a fotografia em time-lapse, desenvolvendo profundamente a capacidade da câmera capturar o movimento.
Hostage, de 2016, está próximo de um trabalho jornalístico, com a devida ressalva relativamente ao facto de Delisle não ser jornalista e contar esta história a partir de relatos do seu protagonista, ou seja, sem testemunhar em primeira mão aquilo que conta. Mesmo assim, a vivência de Christophe Andre durante o seu cativeiro de cento e onze dias, raptado na Tchetchénia enquanto ali trabalhava com os Médicos Sem Fronteiras, é registada com rigor, respeitando as descrições que o próprio fez a Delisle e fornecendo dados que permitem contextualizar o cenário geo-político em que este rapto acontece. Narrado na primeira pessoa, Hostage dá voz a este homem que, em 1997, passou mais de três meses com a vida suspensa, sem saber se sairia vivo do seu cativeiro, e confirma a qualidade do trabalho de Guy Delisle na adaptação das vozes que cria ao tipo de narrativa que pretende desenvolver.
Mais de três décadas de criação de banda desenhada confirmaram Guy Delisle como um dos nomes grandes desta arte. O facto de os seus livros de viagens serem aqueles que maior reconhecimento reúnem dever-se-á, talvez, à apetência – que nunca saiu de moda – por relatos desse género, mas a obra deste autor do Quebec é mais vasta e variada nos seus registos e géneros, merecendo uma atenção que amplie o foco. Afinal, o mundo também está nas pequenas histórias domésticas e nas grandes histórias de pessoas, sejam elas reais ou ficcionais.










