Houve quem chorasse ao telefone, quem não quisesse mexer na ferida oitenta anos depois. Mas houve também quem abrisse a porta de casa, mostrasse fotografias amarelecidas e se sentasse à mesa para contar histórias de uma Alta de Coimbra que já não existe. Os últimos “Salatinas”, sobreviventes da demolição da velha alta nos anos quarenta e cinquenta, são agora protagonistas de um documentário que lhes devolve a dignidade e a memória. Filipa Queiroz, Rafael Vieira e Tiago Cerveira estiveram com eles, ouviram-nos e filmaram-nos. O resultado é um retrato íntimo de uma ferida ainda aberta na história do país.
Os “Salatinas” são os últimos sobreviventes da comunidade da velha alta de Coimbra. Como é que os encontraram e como construíram a confiança necessária para que eles partilhassem convosco memórias e fotografias tão pessoais?
Rafael Vieira: Foi um processo bastante longo para conseguir entrar na intimidade das pessoas, sobretudo porque algumas pessoas guardam boas memórias, mas há memórias traumáticas também, de expulsão. Começámos este processo no contexto de uma revista para fazer uma reportagem, depois transformou-se numa reportagem dupla que até foi premiada numa revista de Coimbra em 2022! E como foi tão bem acolhida percebi que fazia sentido transformá-la em livro. Este processo foi-me aproximando das pessoas, algumas abriam-nos outras portas e tornaram-se facilitadores para outras pessoas. O livro, ao ser produzido, também abriu outros interesses. Outras pessoas aproximaram-se, a querer também falar, comentar e partilhar as suas memórias. Depois decidimos avançar para o filme. Reuni a Filipa, que era a minha editora na tal revista, chamámos o Tiago, e percebemos que o filme fazia sentido. Fomos amadurecendo o projecto e esse amadurecimento levou a que contactássemos dezenas e dezenas de pessoas. O filme é o resultado desta soma de amadurecimento, de contacto e de trabalho.
Filipa Queiroz: É uma história viva também, nunca foi de facto terminando. Mesmo agora, cada vez que vamos apresentando o filme, há pessoas que nos contactam, que vão às sessões e que acrescentam sempre alguma coisa. Uma vez que há uma reportagem, um livro e um filme parece que as coisas vão crescendo.
Rafael Vieira: São vários patamares, foi crescendo como uma bola de neve.
Houve alguma história específica de um dos entrevistados que mudou a vossa perspectiva sobre o que este documentário se tornaria?
Filipa Queiroz: Todas, de certa maneira. Alterar propriamente dito não, mas acrescentar sem dúvida. Houve muita coisa que viemos a descobrir ao longo desta pesquisa, porque não foi apenas captar algo que já estava consumado, foi mesmo ir acrescentando pontos. Eu penso que tivemos vários momentos que podem não ter mudado o fio condutor, mas que nos obrigaram a acrescentá-los porque eram interessantes. Não estava tudo desenhado do início, foi-se fazendo.
Rafael Vieira: Houve também um respaldo académico. Três académicos falam no filme, um da parte musical, um da parte da história da arte e o Nuno Rosmaninho, que foi a pessoa que investigou mais a questão social, a questão dos proprietários. E este respaldo académico permitiu ir procurar outro material. Eu recordo-me de vários momentos em que nós éramos surpreendidos com informações, com reclamações ao Estado, reclamações bastante violentas num contexto autoritário, cartas bastante emotivas… As pessoas ficaram na eminência de não poderem contestar a perda da sua propriedade… foram expulsas. A indemnização a que eles tiveram direito foi muito inferior à sua expectativa e ao valor de mercado… há todo um processo traumático. A gente que foi expulsa e colocada nos bairros periféricos de Coimbra era gente mais desfavorecida. Os proprietários que estavam num nível económico que permitia uma vida bastante mais completa, mais dignificada, ficaram sem dinheiro, sem posses.
Filipa Queiroz: Ver essas cartas e folheá-las no arquivo, graças até à ajuda da pessoa do arquivo que não só nos abriu as portas como foi proactiva a encontrar mais coisas, acabou por ser um trabalho colectivo, as pessoas envolviam-se. Descobrimos um disco inédito de um artista da altura, muito conhecido pela comunidade salatina, que depois caiu no esquecimento. E de repente temos ali a música original dos anos vinte, que a própria família cedeu, orgulhosa de a mostrar. Foi mais uma camada que nós não esperávamos incluir.
Tiago Cerveira: Mais do que dez ou quinze entrevistas, mais do que fotografias, há vídeos de alguém que na altura teve a sensibilidade de registar a própria destruição. Isso é o que permite este tipo de filmes, juntar a oralidade com a imagem.
Rafael Vieira: O filme acaba por revelar esses tesouros escondidos.
Filipa Queiroz: Isto também é muito revelador dos nossos três perfis diferentes. Um videógrafo, uma jornalista e um arquitecto juntam-se e um está super concentrado no património arquitectónico, outro nos materiais de vídeo e outra nos materiais culturais.

Vocês conseguiram encontrar imagens inéditas das demolições reais e uma gravação rara da década de 1920. Podem explicar um pouco do trabalho de detective envolvido na descoberta desses arquivos? Onde é que todos estes tesouros estavam escondidos?
Rafael Vieira: É muito trabalho de arqueologia. O filme reúne a pesquisa em arquivos públicos, institucionais, universitários, municipais, reservas do Diário de Coimbra e acervo pessoal. Há pessoas que têm caixas que foram passadas dos avós, para os pais, para os filhos, que reúnem muitas coisas de que as pessoas já nem se recordavam. Há pessoas que têm arquivos que ocupam a sala, outras reúnem as suas memórias numa caixa de sapatos, mas cada fotografia evoca uma memória que elas têm, memórias da Velha Alta de Coimbra que elas levaram consigo para os novos bairros onde foram instaladas. Conseguimos captar isso, essas pessoas a relembrarem o possível.
Rafael Vieira: A cabeça de cada um deles é um arquivo vivo que é preciso desvendar. É extraordinário. Uma pessoa central faleceu já depois do filme estrear, infelizmente, e com cada pessoa que desaparece um arquivo perde-se. É urgente encapsular em filme uma história de afectos comuns, a nossa ascendência é salatina.
Filipa Queiroz: A minha avó é uma das protagonistas do documentário, ela tem 96 anos agora e já se notam as diferenças desde quando foi entrevistada. Não foi entrevistada por ter sido desalojada, felizmente, mas nasceu e ainda vive na Alta de Coimbra, num sítio que não foi apanhado pelas demolições. Tem uma memória muito viva, e sobretudo descritiva, de como era a Velha Alta de Coimbra e das coisas que lá aconteciam.
O documentário é estruturado em três capítulos distintos: a vida vibrante, a destruição e a dispersão. A ideia sempre foi concebê-lo neste formato de tríptico ou essa estrutura surgiu durante o processo de edição?
Tiago Cerveira: Nós podemos tentar seguir um caminho, mas a seguir esse caminho vira completamente quando sentimos que nos faltam outras camadas, a música, as práticas. Mas conseguimos chegar a um filme que faz jus àquilo que era a comunidade que lá existia, uma comunidade completamente heterogénea. Eram os professores catedráticos, os estudantes boémios, as tricanas, os futricas, os músicos, malta com menos condição social e malta com mais condição social. Ouvimos toda a gente, falámos com toda a gente.
Filipa Queiroz: Acrescentámos também uma parte narrativa baseada no livro do Rafael. Nós costuramos a coisa porque não queríamos que fosse apenas, como diz o Tiago, o “Portugal sentado”.
Rafael Vieira: Queríamos que fosse uma laranja, que se desse a uma pessoa de Lisboa e que ela fosse descascando, mesmo não conhecendo nada de Coimbra. Portugal sabe que existe uma Universidade de Coimbra, mas mesmo não conhecendo nada a nível da cidade, a história percebe-se ao ser descascada.
Como é que equilibraram a necessidade de serem historicamente precisos com o desejo de contarem uma história emocionalmente envolvente?
Tiago Cerveira: Nós nunca quisemos fazer um inventário. Nós queríamos ouvir os últimos Salatinas vivos e apercebemo-nos de que alguns depois acabariam por ficar de fora, senão tínhamos filme para dez ou quinze horas. Teve de haver um compromisso de criar um produto audiovisual que contasse uma história, mas que não ficasse um produto para culto de quem já conhece. Não é um filme de Salatinas para Salatinas.
Filipa Queiroz: Queríamos que tivesse impacto nas pessoas e estamos muito felizes com os resultados. Agora há jovens estudantes a fazer reportagens sobre o assunto, chamam-nos para conversas sobre o assunto, abordam as próprias Salatinas, que acabaram por insurgir na comunidade de outra forma e com outro destaque. Sentem-se vistas e orgulhosas. Estamos a falar de pessoas cujos familiares se suicidaram devido ao que aconteceu. É brutal, mesmo brutal.
Rafael Vieira: Não é reparar a história, isso é impossível. Aconteceu, tem é que se contar, e isso nunca foi feito. A própria universidade está desperta para esta questão de as pessoas não terem sido ouvidas e está a fazer um centro interpretativo. Chamam-lhe “portal interpretativo”, está situado no limiar do que foi destruído. Nós contribuímos para isso também.

Para os “Salatinas” que ainda estão vivos, qual foi a reacção deles ao verem o seu antigo bairro e as suas histórias no grande ecrã?
Tiago Cerveira: Sorrisos, lágrimas… Os próprios Salatinas disseram que acabaram por aprender muitas coisas sobre a comunidade. Em Coimbra esgotámos as duas sessões que tivemos, 1.200 pessoas. Há filmes portugueses que não enchem isso em dez, quinze, trinta exibições. Aqui em Macau vai ser a primeira exibição fora de Coimbra, vai ser o primeiro teste de público geral.
Filipa Queiroz: Tivemos uma Salatina, a Maria Luísa, que nos disse que se soubesse que ia aparecer num ecrã tão grande tinha-se vestido melhor, ela não achava que o filme teria tanta dimensão. Ela simplesmente abriu as suas portas, toda a gente foi tão receptiva, mas não estavam à espera de serem vistas depois com tamanha dignidade, com tamanho impacto. Há mais mulheres do que homens e isso também é uma coisa que me deixa muito feliz, as mulheres terem voz. Adoram, estão muito felizes.
Rafael Vieira: O astro do que ficou é orgulho total, fascínio e os descendentes a quererem saber mais. Foi o destapar do que estava tapado pela história.
Os sobreviventes estão no centro deste filme. Como é que orientaram as entrevistas para fazer com que alguém se abra sobre um trauma de oitenta anos sem explorar a sua dor? Como é que desenharam a linha divisória entre jornalista e confidente?
Tiago Cerveira: A base de tudo, uma vez que para muitas pessoas foi a primeira entrevista delas, é nunca criar um clima de entrevista. É uma conversa, um trato super terra a terra para criar um ambiente familiar. Nós fomos a casa das pessoas gravá-las e quando a pessoas se sentem em casa estão com um à vontade completamente diferente.
Filipa Queiroz: As conversas tinham altos e baixos.
Rafael Vieira: Como foi um exercício de violência por parte do Estado é sempre uma questão traumática, mas há um distanciamento que vai… aligeirando esse trauma. Contactámos duas pessoas, descendentes de proprietários, que não quiseram falar. Uma delas foi particularmente difícil porque chorou ao telefone, não queria mexer nisso. Tinham vidas desafogadas, em termos económicos, e perderam tudo. Há pessoas que não superaram este processo, essas não aparecem no filme.
Filipa Queiroz: As que aparecem no filme falaram com muito à vontade, alguma tristeza em alguns momentos, mas não impeditiva de continuar a entrevista. E nós, claro, sempre com o maior respeito. Não exploramos lágrimas, não exploramos a tristeza e a dor. Isto é surpreendente para quem não o viu, mas o filme tem vários momentos de humor, de gargalhada. Isso foi surpreendente também para nós, de forma muito orgânica e natural há um balanço. É como a vida, todos nós temos traumas, depois depende da forma como vivemos com eles. Felizmente os Salatinas com quem nós conseguimos conversar são pessoas que superaram o que lhes aconteceu, que querem partilhar e aceitam que a dor existe, mas não é com peso que a vivem e que a transmitem.
Tiago Cerveira: É uma catarse.
Rafael Vieira: Não é que o processo de filmagem tenha sido terapêutico para eles, mas reviram memórias de infância e é a sua infância que estão a recuperar, e obviamente da infância guardamos sempre momentos felizes.
E como é que está a ser a vida pós-lançamento do filme? Quais são agora os planos para ele?
Filipa Queiroz: Fizemos sessões de partilha numa república de estudantes e no arquivo da universidade chamaram-nos para conversar sobre o filme. Fizemos duas “caminhadas Salatinas”, duas visitas guiadas à Velha Alta de Coimbra, com lotação esgotada, onde conversámos sobre o filme e sobre os nossos achados de uma forma muito sensorial porque levámos alguns objectos que encontrámos, áudios, vídeos, pedacinhos do filme. E, entretanto, tem sido aquele caminho de enviar o filme para vários sítios, desde candidaturas para festivais de cinema, até cineteatros. Todas as sessões são gratuitas, temos feito sempre isso porque o filme não é um produto comercial e a ideia será sempre chegar à internet, depois televisão, se conseguirmos. Toda a gente de Coimbra pergunta se vamos vender, se vamos fazer DVDs, e nós dizemos sempre que sim. Se houver sempre momentos de partilha e de conversa, melhor.
Tiago Cerveira: Vamos a Copenhaga, a Lisboa, ao Porto e ao Rio de Janeiro.
Rafael Vieira: Vamos estar também na Universidade de São José a dar uma aula de três horas com os alunos de arquitectura. Vamos relacionar com os estaleiros Lai Chi Vun, de Coloane. Houve um processo de transformação, não necessariamente de expulsão, mas há uma transformação social e comunitária ali que é interessante para fazer a ponte com Coimbra. Vamos fazer algum trabalho com eles de argumentação arquitectónica e de percepção do envolvente social.












