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      InícioEntrevista"Camões liga Macau, Goa e Moçambique"

      “Camões liga Macau, Goa e Moçambique”

      Lourenço Rosário, fundador e antigo reitor da Universidade Politécnica de Moçambique, está em Macau para participar no Congresso Internacional do Meio Milénio de Camões, que se realiza este fim-de-semana. Em entrevista ao PONTO FINAL, o académico falou sobre a ligação do poeta ao triângulo Macau-Goa-Moçambique. “Camões é uma espécie de sedimento que faz com que nos reconheçamos”, comenta.

       

      Começa amanhã o Congresso Internacional do Meio Milénio de Camões, em Macau, que vai contar com 17 congressistas de oito países. Um dos oradores é Lourenço Rosário, académico, fundador e antigo reitor da Universidade Politécnica de Moçambique. O investigador, que se tem dedicado ao estudo de Camões, diz, em entrevista ao PONTO FINAL, que o poeta português cria laços entre Macau, Goa e Moçambique, um triângulo “imaginário”, como lhe chama. É Camões, defende, que faz com que os três territórios se reconheçam entre si.

       

      Tem desenvolvido a sua actividade focando-se na literatura africana e recentemente também em Luís de Camões. Como é que surgiu esse interesse em aprofundar a obra do poeta?

      Foi por acaso. Eu participo num júri do prémio Leya há quase dez anos, do qual também faz parte o professor José Carlos Seabra Pereira, presidente do centro camoniano de Coimbra. Ele estava a fazer um trabalho sobre Camões no mundo e desafiou-me a reflectir sobre Camões em África. Eu nunca tinha trabalhado Camões. Dei “Os Lusíadas” quando fui professor do liceu, o meu estudo de Camões restringiu-se a isso, nunca pesquisei. Isto já faz uns quatro anos. Aí, entrei no Camões em África. Não propriamente na obra de Camões sobre África, mas como Camões ganha relevo no contexto da literatura africana. Com esse trabalho, fui apresentar uma mesa redonda que o professor José Carlos Seabra Pereira realizou em Coimbra. Ele parece ter gostado de tal forma que logo a seguir eu recebi um convite para ir para um congresso que havia na Alemanha, em Augsburg, onde fui apresentar o mesmo tema, já mais trabalhado. A seguir fui convidado para ir a Santa Barbara, nos Estados Unidos. Isso entusiasmou-me um pouco para aprofundar mais. Foi assim que entrei no mundo de Camões, de forma perfeitamente colateral.

       

      Quais são as características da obra de Camões que destaca?

      Em primeiro lugar, o seu profundo conhecimento das matérias que trata, como alguém que teve um grande banho cultural na sua época. Ele mostra um domínio das técnicas e das medidas antigas – das redondilhas e sobretudo dos sonetos. Naturalmente, destaco “Os Lusíadas”, pelo impacto que isso teve na vida e na história de Portugal.

       

      Está em Macau no âmbito do Congresso Internacional do Meio Milénio de Camões, onde vai falar sobre a presença do poeta em África. Quer antecipar sobre o que é que vai falar?

      O que pretendo é mostrar duas coisas: que Portugal teve relevância como grande potência mundial no século XVI por causa da geração que esteve no Oriente, devido ao triângulo Macau-Goa-Moçambique; e em segundo lugar que o espaço criado por este triângulo não ocupa nenhum território, mas ocupa um imaginário que é um legado nosso comum. Contrariamente ao império português no Atlântico, que deixou territórios grandes como Brasil e Angola, aqui não há nenhum território, mas existe o legado mental e a memória. Camões é uma espécie de sedimento que faz com que nos reconheçamos. Eu venho aqui de Moçambique a Macau para falar sobre Camões, tal como há quem venha de Macau e de Goa que vão a Moçambique falar de Camões. O império é imaginário, mas é também memória.

       

      Camões continua a ser relevante nos dias de hoje, 500 anos depois?

      Há dois Camões: um Camões poeta e homem da literatura que tem a grandeza que tem; e há outro Camões que é meio híbrido entre a obra e a pessoa, sobretudo utilizado pelos sistemas para uma determinada utilidade política e ideológica, etc. Falamos de que Camões? A academia muitas vezes tem dificuldade de impor Camões como a grande figura que é no nosso espaço linguístico, e não falo só em Portugal.

       

      Tem dificuldades porquê?

      Talvez porque as relações – como Camões é um poeta português – se tenham distanciado. As pessoas sabem quem é, mas não há um impacto de Camões por parte dos professores, para que Camões tenha a dimensão que ele deve ter.

       

      A que é que se deve essa lacuna?

      Penso que tem a ver com o distanciamento que há entre a história que temos em comum com Portugal e a importância do legado que determinadas figuras na história – literárias, políticas, militares, religiosas, etc. – deram ao espaço que nos pertenceu a todos num determinado momento da história de Portugal e do universo da lusofonia.

       

      Camões é visto como um símbolo nacional português. Como é que ele é visto em África, nomeadamente em Moçambique?

      Eu penso que é uma figura a ser reconstruída em Moçambique. Já existe um movimento literário. Os poetas moçambicanos, quando falam da literatura do Índico, colocam Camões como referência. Funciona como um marco que congrega toda a visão da literatura do Índico. Isso já é importante no que diz respeito ao reconhecimento dos escritores moçambicanos, sobretudo poetas, por Camões. Mas faltam-nos os outros dois vértices do triângulo, que é Macau e Goa. Camões liga Macau, Goa e Moçambique. Falta-nos esta visão da literatura do Índico ligar Goa e Macau. Há essa ligação porque Camões viveu nesses três espaços e foi aqui que ele escreveu praticamente a obra toda. Ele veio de Portugal com 25 nos e voltou lá [a Portugal] para morrer. Não se pode dizer que Camões tenha desenvolvido muito a sua literatura no continente europeu, foi cá, durante a sua jornada.

       

      Em Moçambique, há interesse na literatura portuguesa?

      Já houve mais. Digo isto com muita pena. O surgimento da literatura moçambicana foi em ruptura com os cânones da literatura portuguesa e de aproximação aos cânones da literatura brasileira. Todos os grandes escritores moçambicanos, quando falam das suas primeiras referências literárias, fazem sempre referência à literatura brasileira, para se afastarem da literatura portuguesa. Isso faz parte de uma luta de libertação não armada, tem a ver com processos históricos. Tem havido uma certa aproximação, sobretudo através de alguns escritores mais relevantes, nomeadamente o Mia Couto, que teve um grande impacto em Portugal e isso depois teve um refluxo para Moçambique. Depois houve outros, como Paulina Chiziane, que começam a ser divulgados em Portugal e isso faz refluxo para Moçambique. Há uma troca. Há uma reaproximação.

       

      Em que ponto está a literatura de Moçambique?

      Está a surgir uma nova geração. Houve aquela literatura revolucionária, empenhada e muito colada ao movimento de libertação e nacionalismo; depois houve uma reacção a essa literatura com uma literatura mais intimista, mais lírica, nos contos a narrativa era mais fora da revolução. Houve uma quebra de qualidade. Neste momento, começa a surgir uma nova geração que começa a experimentar novos temas e novas estéticas que estamos a observar com algum interesse.

       

      Terá isso a ver com aquela reaproximação a Portugal de que falou?

      Também, sim. Para se escrever em português, tem de se dominar a língua; e, para se dominar a língua, é preciso melhorar a escolaridade. Portugal tem um papel a desempenhar nisso.

       

      Esta é já a quarta vez que está em Macau. O que é que acha em relação à preservação e promoção da língua portuguesa aqui em Macau?

      A primeira vez que vim cá, achei o interesse pela língua portuguesa bastante baixo, mas isso já foi há muitos anos. O português era falado pela comunidade portuguesa e por um núcleo muito pequeno da Universidade de Macau. Hoje estive a falar com o cônsul de Moçambique aqui [Rafael Custódio Marques] e ele diz que nota um esforço bastante grande de promoção da língua portuguesa e a ideia é conseguir – uma vez que a língua portuguesa é língua oficial – que se introduza no sistema uma maior expansão do ensino em língua portuguesa, o que é importante. Não se pode difundir a língua se não se ensinar nessa língua. Neste momento, para além dos marcos escritos das ruas e etc., eu sinto que já há maior interesse. Agora não sei se esse interesse corresponde à divulgação e expansão.