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      InícioCultura“Porque é que não criámos uma escola sinológica em Portugal?”

      “Porque é que não criámos uma escola sinológica em Portugal?”

      O investigador Rui Lopo escolheu Inácio de Andrade e Manuel da Silva Mendes para abordar a representação do pensamento chinês na filosofia em Portugal, enquanto o professor José Carlos Seabra Pereira destacou Camilo Pessanha. Na conferência “Entre Portugal e Macau: pontes culturais, pontes para o futuro”, no dia 19 de Novembro, no Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa, reuniram-se académicos, filósofos e historiadores para analisar o pensamento chinês na literatura ou filosofia portuguesa.

      “Porque é que não criámos, nestes 500 anos, uma escola sinológica em Portugal?” A interrogação vem de Rui Lopo, do Instituto de Filosofia da Universidade do Porto, no início da sua apresentação sobre “Recepção e representação do pensamento chinês na filosofia em Portugal: o lugar de Macau”, assumindo a lacuna. Destacando ainda que “falta um estudo sistemático da história de recepção da China e das suas filosofias na história das filosofias em Portugal”, o investigador referiu Inácio de Andrade e Manuel da Silva Mendes, como dois nomes importantes para reflectir sobre este tema.

      No período missionário, há referências “interessantíssimas e pioneiras” de “um conhecimento instrumental das culturas do extremo oriente, da Ásia e da China”, como Tomás Pereira ou Fernão Magalhães. “Há uma série de autores que foram pioneiros em dar a conhecer ao mundo ocidental, ao mundo europeu e à cristandade, aquilo que iam por lá encontrando”, refere.

      Depois, começa um período mais ou menos novo, com a fundação do jornal Abelha da China, em Macau, no século XIX. “Surgem intelectuais novos, não são missionários, não são funcionários do Estado português, alguns até podem ter sido diplomatas, mas eu interessei-me concretamente por autores e letrados, que se colocavam numa perspectiva excêntrica, que não é nem a de um missionário nem a de um funcionário do Estado português”, diz. É o caso de Inácio de Andrade e da compilação de cartas que enviou à sua mulher no século XIX, por parecer “um documento bastante importante”, para fazer um ponto de situação da visão de um português, que não é missionário nem um agente do Estado português, mas um comerciante.

      A não supremacia da filosofia europeia

       

      No estudo das representações do pensamento chinês na filosofia em Portugal, Rui Lopo refere ainda Lopes Praça, historiógrafo da filosofia portuguesa, que adverte “contra a tentação de considerarmos a primazia europeia, neste caso helénica, quanto às questões da filosofia, pondo em causa a própria originalidade, o próprio pioneirismo de Aristóteles”.

      Esse é o espírito que irá presidir à obra de Inácio de Andrade e, mais tarde, de Manuel da Silva Mendes, um professor do Liceu de Macau que escreveu amplamente sobre o território, mas com uma “abordagem laica ao assunto do pensamento chinês”.

      Para o académico, tanto Inácio de Andrade como Manuel da Silva Mendes, devido à sua experiência em Macau, “se interessam profundamente por assuntos chineses, de maneiras completamente diferentes, e apresentam à cultura portuguesa aspectos bem diferentes da China”. No caso de Inácio de Andrade, o investigador refere que se distingue de outros autores orientalistas, pelas fontes a que recorre: a sua experiência pessoal, os sábios locais e as suas viagens pela China e Índia. “Aprendeu chinês e estava constantemente acompanhado por tradutores e intérpretes capazes, que lhe permitiam comunicar com sábios, professores e representantes das tradições culturais e religiosas que ia encontrando”, diz. Refere-se ainda às “obras europeias de matéria sínica e apela a que sejam aferidas pelo crivo da experiência, apesar de valorizar autores que se debruçam sobre a China, sem nunca lá terem estado”. No geral, Andrade reprova a “ignorância e deturpação da matéria sínica na Europa”.

      Na opinião de Rui Lopo, “é necessário reconhecer uma dimensão sínica e sinológica na história do pensamento filosófico português”, afirmando que  “há uma série de textos reflexivos que parecem ter sido ignorados.” E, na sua opinião, na concepção do pensamento filosófico chinês, há que ter em conta o taoísmo. “É a religião popular, e, na tradição dos letrados e dos funcionários do império, é a pura de superstições”, esclarece. Aliás, esses mesmos funcionários chegam a referir que “o budismo é menos merecedor por ser uma religião estrangeira”, descrevendo ainda o taoísmo a partir daquilo que vêem como superstições populares e adivinhação. Por isso, continua o académico, Inácio de Andrade, que “é um crítico das batotas epistémicas dos outros, também incorre nessas batotas, dizendo que certas tradições são eruditas, como a confuciana, mas as outras reputa apenas de populares ou menos chinesas”, diz.

      Procurando pensar na especificidade da reflexão filosófica, Rui Lopo volta a realçar a “peculiaridade” de Inácio de Andrade. “Pela sua origem social, pela novidade que é alguém escrever a partir de uma experiência que não é nem eclesial nem diplomática e por ele dialogar com sábios chineses”, afirma.

      Por seu turno, Manuel da Silva Mendes “apresenta uma ideia de sinicidade complementar e oposta àquela que, 60 anos antes, Inácio tinha apresentado”, referindo que, “na China, coexistem, de forma intrincada, a confuciana, a taoista e a budista, e que não há uma mais chinesa do que a outra”.