O Banco do Japão (BoJ) iniciou ontem uma reunião de dois dias sobre política monetária, na qual a maioria dos analistas antevê a manutenção das taxas de juro e uma desaceleração da redução das compras de obrigações do Estado.
A instituição tem-se mostrado cautelosa quanto a mudanças na política monetária, numa altura em que cresce a incerteza sobre o impacto na economia global da agressiva e errática política tarifária dos Estados Unidos.
A esta preocupação soma-se a escalada dos ataques entre Israel e Irão, factor desestabilizador no Médio Oriente que preocupa o Japão, dada a sua elevada dependência do petróleo da região.
O consenso entre analistas é de que o banco central japonês mantenha em 0,5% a taxa de referência a curto prazo e que debata a possibilidade de reduzir o ritmo da diminuição das compras de obrigações governamentais, face aos recentes aumentos abruptos dos rendimentos dos títulos a longo prazo.
Estes rendimentos dispararam em Maio, devido a receios quanto à saúde fiscal do país, cuja dívida é mais do dobro do Produto Interno Bruto (PIB), e depois de alguns deputados terem proposto a redução do imposto sobre o consumo.
O primeiro-ministro japonês, Shigeru Ishiba, pondera novas ajudas fiscais às famílias, pressionadas pela inflação, o que levaria a um aumento da despesa pública.
Em Julho passado, o BoJ decidiu reduzir trimestralmente em 400 mil milhões de ienes (cerca de 2,4 mil milhões de euros, à taxa actual) o volume das compras de obrigações do Estado, até Março de 2026, numa tentativa de normalizar a política monetária.
Espera-se que a entidade continue a reduzir progressivamente estas compras para além do próximo ano, mas o mercado quer saber se o banco central, Maior detentor das obrigações governamentais japonesas, tomará medidas para evitar volatilidade face à atual incerteza económica e geopolítica, incluindo uma possível revisão do ritmo de redução.
Em Março do ano passado, o Banco do Japão pôs fim à política monetária pouco ortodoxa que manteve durante uma década para combater a deflação, concretizando a primeira subida das taxas em 17 anos. Em Agosto, iniciou também um ajuste quantitativo para reduzir o seu elevado balanço.
Kazuo Ueda, governador do banco central japonês, afirmou que a instituição mantém o plano de continuar a subir as taxas de juro, caso a evolução da economia e dos preços corresponda às expectativas, mas deixou claro que não se preveem mudanças a curto prazo perante a atual incerteza.
O mercado obrigacionista japonês, anteriormente de pouca oscilação, tem registado picos de volatilidade que se fazem sentir a nível global. Os títulos de dívida do Japão, nomeadamente os de longo prazo, têm registado subidas acentuadas dos rendimentos, o que amplifica a instabilidade em mercados de dívida de várias partes do mundo, especialmente devido aos receios sobre o aumento dos défices fiscais globais.
Análises da Bloomberg indicam que os títulos do Tesouro norte-americano estão cada vez mais sensíveis aos movimentos dos títulos japoneses, enquanto a volatilidade do mercado de dívida japonês — avaliado em cerca de 7,8 biliões de dólares (6,7 biliões de euros) — atingiu os níveis mais elevados em mais de duas décadas.
Este fenómeno representa uma mudança significativa face aos últimos anos, durante os quais o controlo da curva de rendimentos do BoJ funcionava como âncora global para os custos de financiamento. Com a perda deste controlo, o mercado global de dívida tem vindo a ficar mais exposto à volatilidade.
A deterioração do apetite pelos títulos japoneses poderá conduzir a rendimentos ainda mais elevados, aumentando o peso da dívida pública japonesa, que é o mais alto entre as principais economias.
Especialistas destacam que a subida dos rendimentos das obrigações japonesas tem efeitos diretos em outros mercados, reduzindo a atratividade relativa das dívidas soberanas noutros países e provocando maior volatilidade e vendas nesses mercados.
O aumento da correlação entre os títulos japoneses e os dos EUA, Reino Unido e Alemanha tem sido notório, com picos históricos registados recentemente. Após um leilão de obrigações japonesas a 20 anos ter tido pouca procura em Maio, os rendimentos das obrigações do Tesouro a 30 anos nos EUA atingiram o valor mais alto em 19 meses. Lusa











