O canto do bode

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Hoje em dia já poucas pessoas lêem o jornal. Aquele ritual de abrir as páginas demasiado grandes, tentar domar o jornal que se nos desmancha nas mãos, dobrar-lhe as páginas, segurar o jornal com uma mão enquanto com a outra se leva a bica à boca tentando não tirar os olhos da página, depois vem o cigarro… Nem que fosse só ao fim de semana! Como tantas outras coisas da nossa vida comezinha e desinteressante de antes, está também lá se foi.

As notícias agora chegam por outros meios, não é preciso sair de casa para as comprar. Agora vamos ‘online’, é tão mais prático!, e à medida que os jornais online começam a cobrar, esses chupistas!, nós ou bem que lemos só os títulos, enquanto estes ‘ainda’ forem de graça, ou esperamos que a ‘social media’ da nossa preferência nos informe naquele ecrãzinho sem o qual já não poderíamos viver. A fiabilidade dúbia daquilo que se nos põe em frente do nariz, isso não importa.

Uma coisa, no entanto, não muda, as notícias, seja no papel, seja no ecrã, são sempre más notícias. Mas a verdade é que, se as notícias não fossem más, não seriam notícia! As notícias são como os filmes e séries a que nós assistimos, se não houver por lá um mauzão que cometa algum crime horrendo, ‘para que assistir?’ Isto não é sadismo, não é que nos deleitemos na desgraça dos demais, mas se não houver problemas, não há nada para contar. Aliás, se os jornais não trouxerem más notícias sabemos logo que ‘algo de podre se passa no reino da Dinamarca’; só naqueles regimes “simpáticos” é que os jornais apenas dão notícias boas.

Se dermos uma olhadela às últimas notícias que andam por aí, há pelo menos três que não nos podem deixar indiferentes. Em primeiro lugar tem de estar a tragédia, que há mais de um ano, os cidadãos de Gaza, se é que se lhes pode atribuir tal qualificativo, têm enfrentado. A sorte destes ‘peões’ do jogo de xadrez entre o Hamas e os Israelitas e sem xeque-mate à vista é, sem dúvida, a maior desgraça que anda hoje pelo mundo. A Ucrânia não se compara. Mas pelo menos já não estão sozinhos, juntaram-se-lhes agora também os libaneses já que aos israelitas não lhes faltam armas graças ao amigo Biden. [Joe Biden vai à missa todos os domingos e dias santos de preceito, como ‘bom’ católico que é; confessar-se-á das mais de 17 000 crianças mortas em Gaza e as mais de 26 000 deixadas órfãs? Dar-lhe-á alguém a absolvição?]

Mais recentemente, muito mais recentemente, tivemos a tragédia das chuvas em Espanha, na província de Valência. Contam-se já mais de 200 mortos, várias pessoas ainda desaparecidas e milhares e milhares de negócios, o mesmo é dizer, postos de trabalho, completamente destruídos.

Finalmente tivemos a eleição de Donald Trump. Que consequências trará essa eleição para os palestinianos?, e para os ucranianos?, e para os mexicanos?, e para a Europa?, e para a economia mundial da qual todos dependemos para pagar as contas lá de casa? Será esta mais uma tragédia à espera que se levante a cortina? Já não falta muito para sabermos!

‘Tragédia’ não é apenas uma palavra que, volta e meia, aparece nas páginas dos jornais; trata-se também de uma realidade com a qual, infelizmente, estamos todos bem familiarizados, seja porque já passámos por alguma, seja porque conhecemos as tragédias de outros. ‘Mas de onde vem esta palavra tão mal agourada?’

Todos já ouvimos falar da ‘tragédia grega’ e até conhecemos algumas, a de ‘Édipo’, que mata o pai por engano e sem saber casa-se com a própria mãe, a de ‘Antígona’, que por dar sepultura ao irmão é condenada à morte por emparedamento, e, é claro, a de ‘Medeia’, a mulher que, para se vingar da traição do seu amado, mata os filhos que teve com ele, entre muitas outras. Algumas chegaram mesmo ao grande ecrã.

Mas nas suas origens, a tragédia está longe de ser a coisa lúgubre e fatídica com a qual nós hoje em dia associamos a palavra. Para os gregos, a tragédia não era uma forma mais de literatura, conceito que os gregos não tinham, em vez disso, a tragédia era um meio de reflexão sobre a vida nas suas dimensões humana, social, política e religiosa. Na Grécia antiga, a moralidade ou a forma de agir não estava dissociada do lugar que o indivíduo ocupava na vida da ‘pólis’, da sua relação com o Estado, com os outros, e finalmente, com os deuses. Era sobre estas realidades que a tragédia grega versava.

Na antiga Atenas, as tragédias não serviam para entreter a burguesia; não se ia ao teatro para se relaxar e escapar às preocupações da vida quotidiana. Muito pelo contrário, assistir às tragédias ‘mises-en-scène’ no ‘observatório’, aquilo que a palavra grega ‘théatron’, português ‘teatro’, queria dizer originalmente, era um dever religioso e cívico a que todos os cidadãos de Atenas estavam obrigados durante três dias todos os anos. Havia mesmo um fundo especial, o ‘theoricón’, para garantir que até os mais pobres poderiam assistir.

As tragédias, e também as comédias, faziam parte do festival Dionisíaco de Atenas, o maior dos quatro festivais dedicados a Dioniso no Peloponeso, que se celebrava na Primavera, e que era dedicado a Dionísio ‘Eleuthereús’, ou ‘libertador’. A preparação e execução adequada deste festival religioso que, considerado um acto de serviço público, era subsidiado com dinheiros públicos, era uma das preocupações mais importantes do Estado ateniense; até os tribunais encerravam durante estas festividades.

Durante os três dias da ‘Grande Dionisíaca’, nome pelo qual era conhecido este festival, os cidadãos de Atenas reflectiam em comunidade sobre o ‘destino dos homens’ enquanto observavam no palco a queda e a ruína de muitos dos seus heróis da mitologia grega. A tragédia transformou-se numa forma de educação cívico-política da pólis ateniense. Através da tragédia, os cidadãos ponderavam sobre problemas que iam muito além das questões práticas ou dos dilemas da vida quotidiana. Para dar um exemplo, a primeira vez que se discutiu a relação antagónica entre a moralidade natural e a lei dos homens, conflito esse que ainda hoje está na base de questões tão importantes como sejam o aborto, a eutanásia, ou a pena de morte, não foi num tratado filosófico ou teológico ou em textos legais mas sim numa tragédia grega, a Antígona de Sófocles que contrapõe a liberdade e o dever moral do indivíduo às prescrições do Estado. Para nós, hoje em dia, a tragédia seria provavelmente o último lugar onde nós esperaríamos encontrar definições legais ou modelos de comportamento moral, mas isso é porque a ideia que temos de tragédia como peça de teatro e o que a tragédia representava para os gregos dos dias de Sófocles não coincidem. Na verdade, na Atenas de então, a tragédia tinha a capacidade de tornar menos abstractas questões teóricas, como a relação entre a moral e a lei, ao integrá-las na realidade da vida quotidiana, recorrendo para tal aos mitos que faziam parte do universo de referências dos gregos.

Para além disso, a tragédia tinha também o poder de trazer tais questões à consideração de toda a população ateniense ao mesmo tempo, incluindo as autoridades, que, todos os anos, ocupavam os primeiros lugares no teatro.

O papel cívico da tragédia torna-se particularmente significativo quando Atenas passa a ser uma democracia directa em que todos os cidadãos tinham assento na ‘ekklesía’ ou assembleia legislativa e os seus governantes eram eleitos pelo povo. O diálogo entre Creonte, rei autocrático de Tebas, e o seu filho Hémon sobre a natureza do poder do Estado, a concentração do poder em um só homem e a administração da justiça é o exemplo mais perfeito de como a tragédia foi se tornando uma forma de intervenção cívico-política na vida da pólis. Em frente de toda a cidadania ateniense, apresenta-se sobre o palco duas ideias de governo, a de Creonte, o tirano que elogia a obediência à autoridade, e a do seu filho que, desafiando as posições despóticas do pai, encarna os novos ideais de liberdade e justiça adaptados por Atenas.

Mas, deixando de lado por um momento o contexto externo da tragédia grega, se nos concentrarmos no conteúdo dos textos dos três grandes tragediógrafos, Ésquilo, Sófocles e Eurípides, facilmente nos apercebemos de que, a um nível mais profundo, a tragédia grega, mais do que veicular preocupações de tipo sociopolítico, pretende reflectir sobre a fragilidade humana e a imprevisibilidade do mundo. É daí que deriva o significado que a palavra ‘tragédia’ tem hoje.

A palavra ‘tragédia’, que nos chega através do Latim ‘tragoedia’ é originalmente uma palavra grega que quer dizer ‘canto do bode’; não o ‘canto’ do estábulo, mas sim o ‘canto’ de cantar. Este vocábulo remonta às origens humildes da tragédia grega como um acto estritamente religioso inserido nas festividades dedicadas ao deus Dionísio. Dionísio, o Baco dos romanos, frequentemente associado com a devassidão e a bebedeira, era para os Gregos uma divindade polifacetada e complexa; como deus era tanto o protector das colheitas como o deus da loucura, que era na altura entendida como uma forma de possessão divina. O ‘canto do bode’ referir-se-ia aos berros que o bode dava quando estava a ser sacrificado sobre o altar de Dionísio; a perspectiva que este sacrifício traria benesses, fazia com que os berros do bode soassem a canto. Ainda hoje podemos ver nas ruínas dos teatros gregos o altar onde, todos os anos, um bode “cantava” pela última vez na sua vida para que os atenienses pudessem ter boas colheitas.

Na sua reflexão sobre o Homem e o seu lugar no mundo, a tragédia tenta explicar a causa do sofrimento humano e fá-lo através das lentes do politeísmo prático dos gregos. Assim, os males de que padece o Homem são o resultado da relação desigual entre este e os deuses. Esta desigualdade faz com que a ‘hǘbris’, ou soberba, dos homens produza do outro lado a ‘invidia deum’, ou ‘inveja dos deuses’, que, ofendidos pela impiedade dos homens, decidem vingar-se, infligindo assim toda a sorte de reveses e desgraças sobre a raça humana. No mundo pintado pela tragédia grega, a soberba, a arrogância, o orgulho levam a que o Homem se esqueça do seu lugar no mundo, e é essa a causa maior do seu sofrimento. No final, a tragédia grega visa explicar a ‘tragédia’ humana causada pela acção do homem num mundo imprevisível e fora do seu controle.

Perante a vontade dos deuses o Homem nada pode. ‘O que fazer perante os tanques e as bombas dos judeus? E que poderiam ter feito os valencianos abalroados pela força das águas que arrastou casas e carros como se fossem de brinquedo?’ Nada!

Ao assistir ao vivo e a cores no telemóvel que trazemos no bolso ou no computador em que trabalhamos todos os dias à desgraça de outros tão iguais a nós, somos levados, às vezes arrastados, a reavaliar a nossa situação e a reflectir acerca do nosso lugar no mundo que nos rodeia. É nesses momentos, quando confrontados com a ‘tragédia’ dos outros, que nos apercebemos da sorte de ‘não termos sido nós’. Para os gregos, segundo Aristóteles, era essa a função da tragédia; a tragédia servia para ‘fazer a catarse ou purificação’ do indivíduo.

Uma das grandes diferenças entre a tragédia e a comédia, diz Aristóteles na ‘Poética’, é que as personagens da tragédia são das classes altas, da realeza e da aristocracia enquanto que as personagens da comédia vêm do povo. Aquilo que os atenienses viam acontecer sobre o palco era a queda, a ruína dos ‘todo-poderosos’. Era através da ‘empatia’ que nós naturalmente sentimos pela tragédia dos demais que se produzia na alma dos espectadores a purificação ou catarse. Aristóteles não explica como é que esta purificação se operava, mas nós podemos tentar compreender já que também nós, através dos mesmos mecanismos, passamos pelo mesmo processo.

A catarse, mais do que ‘pena’ ou ‘comiseração’, pode ser entendida como a constatação de que ‘podia ter sido eu’ ou ‘eu posso ser o próximo’ seguida de um sentimento de temor combinado com humildade que conduzem à reflexão acerca da nossa condição e da forma como nos vemos a nós e aos outros num mundo que está fora do nosso controle.

Outra consequência da empatia é a ‘indignação’. Esta chega quando somos confrontados com o desespero de pessoas encurraladas numa espiral de absoluta impotência, totalmente abandonados à mercê da crueldade, da injustiça, da falta de humanidade de verdadeiros carrascos. Quando assistimos a pais que desenterram dos escombros os seus próprios filhos e sabemos que amanhã vamos assistir à mesmíssima cena, e depois de amanhã outra vez, e para a semana, e sabe Deus até quando, somos tomados por uma sensação de indignação imensurável que deriva do nosso sentido de justiça natural. A catarse chega depois de nos darmos conta de que a nossa indignação, por muito justa que seja, não faz nenhuma diferença senão a nós mesmos como um mecanismo necessário de escape emocional. É quando nós nos pomos no lugar dessas vítimas, quando sentimos como nossa as injustiças, a impotência e o abandono que eles sofrem é aí que se produz a catarse ou ‘purificação’ que nos leva a repensar e recalibrar o nosso posicionamento no esquema das coisas.

A assimilação do desespero dessas vítimas inocentes lembra-nos algo que no fundo nós sempre soubemos, que nós somos impotentes perante a imprevisibilidade do mundo e que muitas vezes tudo o que nós podemos fazer, tal como o bode sacrificado sobre o altar de Dionísio, é berrar aos céus ainda que pareça que o céu já lá não está ou, se está, é como se não estivesse. Não há mais nada a fazer; na tragédia humana, os ‘berros do bode’ são os nossos berros, muitas vezes mudos, porque até o berrar pode trazer punição.

A Ucrânia, a Palestina, Valência entre tantas outras tragédias humanas, que vão aparecendo por esses jornais afora, abalam as “certezas” que alicerçam a nossa existência e põem a nu a nossa condição efémera e frágil. Mas, infelizmente, a catarse não dura muito, e a soberba não demora muito a dar um ar da sua graça e, outra vez, lá estamos nós às turras com ‘os deuses’. No fundo, o Homem não gosta de admitir a sua fragilidade, não quer admitir que não está em controle, e recusa-se a aceitar que o seu destino esteja ‘nas mãos dos deuses’. No entanto, tragédias como a de Valência confrontam-no com a verdade de sua condição de forma muito particular; todas aquelas mortes, toda aquela destruição, toda aquela ruína não foram causadas por nenhuma guerra, por nenhuma bomba, por nada ocasionado pelo homem e que o homem, como tal, pudesse evitar, foi apenas chuva!

 

Roberto Ceolin

 

MA (Conim.) MPhil, DPhil (Oxon.)

 

Docente Universitário de Línguas Antigas