“O reencontro com Macau não podia ter sido mais bonito”

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A actriz Margarida Vila-Nova voltou ao território, a convite do Festival Literário de Macau, para interpretar Teresa, uma jovem advogada vítima de abuso sexual, em À Primeira Vista (Prima Facie). Depois da apresentação da peça de teatro, que teve lugar nos dias 14 e 15 de Março, no Centro Cultural de Macau, a protagonista assumiu ao Parágrafo ter ficado emocionada por poder apresentar esta personagem, que lhe é tão querida, a uma plateia de rostos familiares.

Foi um regresso muito feliz que transportou Margarida Vila-Nova ao Centro Cultural de Macau (CCM) e levou amigos e caras bem conhecidas da comunidade a emocionar-se com a interpretação da personagem Teresa. No dia da estreia, no território, estavam, “de A a Z, todas as pessoas” com quem se cruzou, durante os sete anos em que a actriz morou na RAEM. Foi um momento “único de partilha”, que contou também com a presença do encenador, Tiago Guedes, e do filho, na audiência.

A peça À Primeira Vista (Prima Facie) é um monólogo forte e um thriller jurídico que correu o mundo, esteve em Portugal e foi levado para o território, integrado no Festival Literário de Macau. Encenado por Tiago Guedes e protagonizado por Margarida Vila-Nova, conta a história de uma jovem advogada, proveniente de uma família humilde de classe trabalhadora, que conseguiu vencer na vida, pelo seu próprio mérito. Vítima de abuso sexual, é obrigada a reflectir sobre o poder da lei, onde o o princípio da presunção da inocência, o ónus da prova e a moral divergem.

Depois de dois anos, a peça terminou a sua digressão, fora de Portugal, no território. “Foi muito simbólico regressar a Macau com o propósito de levar um espectáculo tão poderoso, tão urgente e tão importante”, admite Margarida Vila-Nova ao Parágrafo.

Geralmente, em dias de estreia, a preocupação com o texto ou com o espectáculo é tanta, que não permite aos actores desfrutar do momento. Em Macau, a actriz estava tranquila, conseguindo aproveitar a presença de tantas caras especiais. “Nunca tinha vivido uma estreia em que pudesse estar confiante e segura do trabalho que estava a apresentar pela primeira vez e rodeada de tantas pessoas”, destaca.

Um tema importante: o abuso sexual

Integrada no Festival Literário de Macau, a peça foi antecedida de uma conversa, no Instituto Português do Oriente (IPOR), sobre violência sexual e, no fim do espectáculo, no CCM, também houve lugar à discussão. “Já estou a fazer o espectáculo há tanto tempo, que foi fundamental voltar a discutir, a dialogar e a debater o tema, para me voltar a colocar no cerne da questão”, diz. “Foi uma lufada de ar fresco voltar a debater os prós e contras, ouvir as opiniões e foi muito enriquecedor a conversa final com o público e todas as conversas que foram tidas, ao longo da semana, nas entrevistas e nas conversas com advogados e juristas, com quem me reuni”, conclui.

Cássia Schutt, fotógrafa e directora criativa residente no território, foi a moderadora da conversa que aconteceu no IPOR, no dia 12 de Março, entre Margarida Vila-Nova e Tiago Guedes. “Assisti à peça, pela primeira vez, em 2024”, recorda, salientando que, na altura, ao olhar para os outros, percebeu que tanto ela como todos à sua volta estavam bem emocionados. “Ali entendi que aquela peça tinha uma missão maior”, declara, explicando que se tratava de “um lugar de catarse colectivo”.

Presente na estreia em Macau, no dia 14 de Março, Cássia afirma que foi “a melhor actuação de todas” entre as que assistiu da actriz. “Foi uma entrega muito emocionada da Margarida e com a honra de ter a presença do Tiago Guedes, que veio com uma partilha de detalhes sobre a montagem e fez considerações importantes sobre o tema”, diz.

Salientando o papel do encenador para apresentar um “contraponto masculino importante”, destaca o “trabalho de direcção” e a condução que permitiu “abrir o diálogo” também aos homens. “É uma peça que não fala só para as mulheres”, afirma.

Ciente da importância da temática representada, a fotógrafa manifesta ainda ter uma esperança: a de que a peça consiga suscitar questões junto da população de Macau. “É preciso uma sociedade mais informada, mais atenta e aberta para o diálogo”, diz. “Espero que os espectadores estejam abertos a essa conversa, não só no âmbito jurídico, mas educativo.”

Em À Primeira Vista (Prima Facie), questões como a do consentimento, no âmbito das relações sexuais, acabam por ser “universalizadas”, trazendo-as para a discussão pública. “Toca a todos: a um homem que não soube escutar um não, a um jovem que está a entender o que é um não, à mulher que já sofreu um abuso ou à mulher que pode ter passado por isso e não se ter apercebido”, destaca.

Elogiando a actuação de Margarida Vila-Nova, Cássia Schutt diz: “O reencontro [dela] com Macau não podia ter sido mais bonito ali, com o público dela.”

O consentimento e o ónus da prova

Catarina Cortesão Terra, jurista residente no território, destaca a universalidade do tema em foco, na peça À Primeira Vista (Prima Facie). “É um tema universal, que coloca a mulher e o consentimento numa plataforma de fragilidade na relação e no diálogo com o outro – neste caso, o sujeito masculino, que não consegue perceber o não do outro lado”, diz. A comunicação (ou falta dela) é, na verdade, algo que pode ser transportado ainda para cenários políticos, por exemplo. “A falta de leitura da fisicalidade do outro, que não se pode reduzir apenas à palavra, mas também à sua corporalidade”, declara.

Enquanto mulher e jurista, Catarina Cortesão Terra mostra-se particularmente interessada nesta temática. Numa época em que se vive e se proclama a auto-determinação feminina, a mulher, dentro de uma liberdade e de uma procura de auto-realização pessoal, “sente-se mais disponível para mostrar o que realmente quer de um homem.” Em À Primeira Vista (Prima Facie), “o enredo permite vislumbrar rapidamente que não há uma leitura do consentimento da outra parte [o homem] porque não quer”. Por isso, a jurista considera particularmente interessante e pertinente esta questão do consentimento, “ainda mais numa sociedade atual, em que se estão a revelar alguns comportamentos misóginos e de relativização da vontade das mulheres, além de se subestimar a sua procura da sexualidade.”

A jurista destaca ainda a interpretação “exímia” de Margarida Vila-Nova. “Tudo é desenhado no palco, através do movimento e da expressão da actriz”, declara. Para o público de Macau, habituado a peças com animação e vídeo, trazer À Primeira Vista (Prima Facie) aos palcos, que apenas tem por recurso a interpretação de Vila-Nova, é também uma novidade. “Engrandece a imagem e a simplicidade do teatro, porque o que vai evidenciar o tema é o corpo do actor e o olhar do actor”, afirma.

Além do consentimento, diz o advogado Frederico Rato, há outras questões jurídicas evidentes na peça. “A produção da prova (testemunhal, pericial, documental, ou outra), absoluta, inquestionável, indubitável ou, por outro lado, precária, contraditória ou inconclusiva”, afirma, acrescentando: “A questão correlativa ao consentimento: há crime de violação ou não.”

Em casos como os abordados em À Primeira Vista (Prima Facie), ainda que a prova possa ser considerada mais difícil, dada a aplicação do preceito constitucional da presunção da inocência, há que ter em consideração, diz o causídico, que este princípio se trata de “uma garantia da liberdade dos cidadãos e do seu direito de defesa, obrigando a que a responsabilidade pessoal, comportamental e cívica possa ser convocada.”

Sobre a qualidade da peça exibida no território, Frederico Rato não poupa elogios. “O regresso da Margarida ao território foi um amigo e sereno matar de saudades e o renovar da sua representação profissional, tendo Macau como palco”, afirma.

Destacando o papel da actriz, o causídico declara que, “nesta prova de fogo, a Margarida auto-desafiou-se”, demonstrando “um grande talento dramático a par da versatilidade de comediante, um gesto de superação física, psicológica e emocional.”

Num papel, que quase “vai hipnotizando o espectador, levando-o a auto analisar-se e a ordenar-se perante as personagens e os desempenhos que se lhe vão revelando”, instala-se “a inquietude da incerteza do não-consentimento, do consentimento sem sentido e do consentimento com sentido.”

No fim, artista e público precisam de alguma “coragem física e psicológica para despir aquela pele, diluir o complexo de culpa e vestir o fato de todos os dias”. Por último, elogia ainda o encenador Tiago Guedes, “cuja direcção e encenação serviu como uma luva o talento da Margarida.”

Uma viagem por Macau

Mas a vinda ao território foi, para a actriz, mais do que apenas o desempenho de um trabalho. “Ao longo destes anos, não dei conta do quanto Macau ficou a vibrar ainda dentro das minhas memórias e, quando aterrei, foi uma viagem no presente ao passado de todas as pessoas com quem me cruzei, os lugares que visitei e a vida que pude desfrutar enquanto aí vivia”, confessa a actriz, que acrescentou: “E acompanhada do meu filho, que nasceu aí.”

Peça à parte, Margarida e o filho, que nasceu em Macau, aproveitaram o tempo no território para “revisitar os lugares” importantes. E o filho lembrava-se desse tempo? ”As memórias perduraram no tempo, sobretudo, a memória de ter tido uma infância feliz, mas revisitámos os lugares em que vivemos, a escola que frequentou, os lugares onde habitualmente almoçávamos e passeávamos, o parque infantil e as casas dos amigos”, diz. “Foi uma verdadeira visita guiada ao nosso passado”, conclui.