Nocturno de Maria Ondina Braga

FICÇÕES

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Como a mulher de Lot, Ondina olha para trás. Não apenas uma vez, mas várias, a testar os limites, a esperar a qualquer momento ser convertida numa estátua de sal. Segue pelas ruas escuras e ermas de Macau como se perseguisse um fio de música enovelado nas teias do silêncio. A chuva despenhada, de repente, com a pujança de uma cascata, molha-lhe o rosto e o corpo. É Abril, todas as comportas do céu se abriram de súbito.

Terminou a última aula de inglês da noite e regressa à Casa das Professoras, onde vive. Aquela chuva quente, apesar do desconforto, quase a revigora do cansaço. Recorda outras chuvas, outros cheiros: Angola, Goa, em contraste com a bruma fria de Inglaterra. Em cada sombra que cruza, tenta ver uma personagem e são já tantas! Opiómanos, adivinhos, refugiados, aquela inexplicável atracção pelos marginais, excluídos da vida, os leprosos de Coloane, bandos de lázaros adiados, as loucas que percorrem as ruas imersas noutra realidade… Mais do que empatia, aquela estranha sintonia, como se um fio de música lhes atasse os destinos com um nó cego. Também ela, sempre à margem. A sua independência extrema sempre escandalizou os outros, sobretudo a boa sociedade conservadora, para quem o casamento era uma obrigação de qualquer mulher, uma garantia de estatuto, de aceitação. A recusa em casar causava estranheza por todo o lado, de Braga a Macau. Por outro lado, o facto de ter ficado órfã cedo conferiu-lhe, ironicamente, uma liberdade invulgar. Pôde sair do Portugal salazarento do seu tempo e viajar sem ter de recorrer à autorização do pai (já falecido) ou do marido (inexistente).

Pelas ruas estreitas vagueiam, àquela hora, espectros de opiómanos, loucos, deserdados da vida, para além de um ou outro militar português vindo de um serão no Clube. Ondina caminha pelas ruas como se levitasse, a montar o dorso da chuva. Em cada sombra acende a esperança de descobrir Lu Si-Yuan, o chinês do norte, homem de rara beleza, paixão platónica, daquelas que habitam somente o mundo dos corações distantes, das ideias, das ilusões desfeitas. Sim, ela sempre se apaixonara pela beleza invulgar, daí ficar sempre de mãos vazias – a  beleza escorre pelos dedos como a luz. Não se pode prender, nem colher, quanto mais a quisermos agarrar, mais se esquivará. 

Um dia, recebeu de Lu Si-Yuan uma carta, escrita nos mais belos caracteres em papel de arroz. Guarda-a como o maior tesouro, mas não a consegue decifrar. Lá está, na gaveta da mesa-de-cabeceira onde guarda os seus segredos… Naquele exíguo quarto, seu axis mundi, pequeno centro a partir do qual contempla a vida, a morte, o passado, o presente e o futuro. Mas sobretudo o passado, essa visita impertinente, constante, a chegar com patinhas de veludo como um gato ronceiro, arisco. Roça-lhe pela memória, a brincar com as suas recordações, acesas, por vezes, pelos mais banais objectos: uma caixa, um livro, o sabor do chá… como a madalena do narrador proustiano, a emanar o sabor do tempo perdido.

Tem pressa. Quer contemplar a carta, reviver os meandros duma ilusão esculpida em cada caracter… quer revê-lo. Deixará Macau em breve. O Ano do Cavalo entrou a galope e tem o dom de transportar as gentes, quando o desejam, para outras paragens. Por isso, partirá, na sela daquele cavalo de fogo, desta vez, rumo a Portugal para recomeçar uma nova vida – reiniciada, aliás, constantemente, em cada canto do mundo, desde a Europa à Ásia, sem esquecer África, os cheiros de Angola a habitarem-lhe a alma, a acenderem-se no final de cada chuvada quente de Abril.

Quando abre a porta, já toda a casa dorme. Entra no quarto, seu refúgio, sua torre de marfim. Sim, será estátua de Sal, se preciso for, para se reencontrar, para em cada página escrita e por escrever, esculpir o sentido da vida, com o cinzel dos dias.