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      Início Parágrafo Parágrafo #75 Luís Mesquita de Melo: Sete histórias no mar do Faial

      Luís Mesquita de Melo: Sete histórias no mar do Faial

       

      Sara Figueiredo Costa

      Nasceu na Horta, ilha açoriana do Faial, e tem viajado pelo mundo, contando nesse percurso com muitos anos de vida em Macau, onde trabalhou, entre outras áreas, como advogado. Depois de A Humidade dos Dias (Capítulo Oriental), publicado em 2019 e lançado na Livraria Portuguesa, em Macau, Luís Mesquita de Melo regressa aos livros com Navegações e Outras Errâncias (Companhia das Ilhas), um volume que reúne sete narrativas com o canal Faial-Pico como cenário e o mar que rodeia as ilhas como fio condutor. São histórias de gente que quer partir, mas também de gente que aporta à ilha e nela descobre uma nova vida. E entre os que dali nunca saíram e os que diariamente se fazem ao mar, Luís Mesquita de Melo mergulha nas suas memórias de infância e em episódios que ajudaram a construir a narrativa da própria ilha para criar um conjunto de histórias que passam agora a pertencer ao universo literário. A partir do Vietname, onde vive actualmente, respondeu às perguntas do Parágrafo sobre estes sete contos açorianos.

       

       

      Muitos destes contos giram em torno de personagens que têm em comum a vontade de fugir – da ilha, mas também de uma certa vida ou de si próprias. Este desejo faz parte da chamada condição de ilhéu? Sentiu-o, também, em algum momento da vida?

      Não é só a vontade de fugir da ilha. Propositadamente não me quis focar nesse lado da insularidade. O Eddie, por exemplo, em vez de partir/fugir, chega e adopta a ilha como a sua casa. Outros personagens nunca chegam a sair dali, como se ficar fosse a única forma de vida, como por exemplo o Gilberto. É verdade que a vontade de partir – que por vezes pode mesmo ter os contornos de uma fuga, no caso de Otília – está sempre presente no espírito de quem vive numa ilha. Acho que faz parte da forma de viver numa ilha: o saber que se pode sair. Sobretudo quando o horizonte se fecha em dias de invernia. Eu, como qualquer jovem adolescente que cresceu numa ilha como o Faial, ansiava também por partir um dia. É esse o percurso normal. Não diria partida no sentido de fuga, mas partida como única opção de vida para prosseguir os estudos. O grande ponto de interrogação é sempre o regresso, se e quando. Ainda hoje vivo dividido entre o estar fora e o regresso, como uma maldição. O escritor Daniel de Sá escreveu que «sair da ilha é a pior maneira de ficar nela».

       

      Apesar de viver longe dos Açores e da sua ilha há muitos anos, quer este livro, quer o anterior, transmitem a ideia das ilhas como uma presença de que não é possível escapar. É assim?

      Sem dúvida. Diria até que é uma forma de exorcizar a ausência para ir vivendo com as saudades. Apesar de ser saído do Faial há muitos anos, quando tinha 18 anos, a verdade é que sempre que possível voltei para recarregar as baterias. Em cerca de 40 anos de ausência contam-se pelos dedos de uma mão os anos em que não voltei em férias. E mesmo ausente, sempre acompanhei o que se passa nas ilhas, através da literatura, da televisão, dos amigos. A Humidade dos Dias [livro anterior do autor] é mais intimista, no sentido de que descreve muitas das minhas experiências e estados de espirito da minha juventude, e pretende, na minha voz, expressar um pouco o que é viver no meio do Atlântico rodeado de mar. O Navegações e Outras Errâncias parte de pessoas reais, que existiram e viveram, de uma forma ou outra, no canal Faial-Pico, mas em relação às quais eu tomei a liberdade de ficcionar alguns aspectos das suas vidas. É também uma homenagem às gentes do canal.

       

      Há uma personagem curiosa nestes contos, o Oficial da Marinha, que cresce com vontade de mar e acaba por encontrar a sua realização na descida de um rio, o Amazonas. Inspirou-se numa pessoa real para construir esta personagem?

      Como disse, todas as personagens têm uma base real. Os seus nomes são verdadeiros, bem como alguns dos factos de onde eu parti para construir as narrativas. O Oficial de Marinha existiu mesmo. Era o meu bisavô e não só desceu o rio Amazonas como raptou a minha bisavó Olina (porque o pai dela não aprovava o relacionamento entre ambos) e acabou trazendo-a para o Faial. A minha mãe, que se lembra muito bem dela, contou-me alguns dos factos sobre os quais ficcionei esta história, que nos dias de hoje é quase inconcebível, pelo menos na civilização ocidental. O ponto de partida foi o facto de a minha mãe contar muitas vezes que o bisavô se tinha viciado em pasta de café durante a descida do Amazonas e acabou por ter ataques de delirium tremens com a abstinência do café.

       

      Um dos cenários que integra vários destes contos é o do canal entre o Pico e o Faial, o mesmo que Vitorino Nemésio eternizou. Que papel tem esse canal, e a dificuldade de o atravessar, por vezes, no modo de viver dos ilhéus?

      O canal Faial-Pico é mesmo o centro de todas estas narrativas, no sentido de que todas as histórias passam por lá, por onde partiram uns, chegaram outros, viveram muitos e sonharam todos. O canal exprime distância e proximidade ao mesmo tempo: distância, porque nem sempre é fácil atravessá-lo, sobretudo em dias de mau tempo; proximidade, porque é a única forma de ligação entre duas ilhas irmanadas na solidão do Atlântico Norte, condenadas a olharem-se nos olhos. O canal foi sempre uma fronteira e uma janela. Quando ainda era miúdo e comecei a andar à vela, o canal era uma fronteira que significava aventura, desafio, temeridade, e que parecia intransponível, mas era também uma janela por onde entravam os navios e os aventureiros (pequenos barcos à vela que ali chegavam depois de atravessar o Atlântico).

       

      O facto de ser um praticante de vela, e de ter esse convívio com os barcos desde novo, foi decisivo nesta recriação de tantas histórias que estão absolutamente fincadas no território marítimo?

      Com toda a certeza. Muitas das descrições das viagens marítimas baseiam-se na minha própria experiência e nas muitas milhas que já percorri em alto-mar. O facto de ser um velejador inveterado permite-me transpor para a escrita, com alguma facilidade, as vivências marítimas, sejam as tempestades, os pores-de-sol estonteantes, sejam as noites ou amanheceres passados longe de terra firme. Os barcos sempre estiveram presentes na minha vida e, sejam eles veleiros ou transatlânticos, fazem parte da viagem que é também uma dimensão importante da minha escrita.

       

      Há muitos livros e textos que ecoam nestas Navegações e Outras Errâncias, de Moby Dick à Ode Marítima, passando pelo Mau Tempo no Canal. Até que ponto a literatura interferiu na sua imagem das ilhas, nomeadamente depois de passar a viver longe dos Açores?

      Não é possível escrever sem se ter lido muito. Mesmo antes de sequer pensar em aventurar-me na escrita, sempre fui um leitor ávido e, na minha adolescência, de tudo o que era literatura de viagens, expedições marítimas, voltas ao mundo à vela, regatas oceânicas. Um dos livros que mais me marcou foi escrito pelo circum-navegador  Bernard Moitessier: The Long Way. Neste livro, ele descreve a sua volta ao mundo durante a Golden Globe Race, em solitário, em 1968, em que, ao completar uma volta ao mundo e perto de ganhar a regata, decidiu desistir e continuar a sua viagem, tendo navegado no total 37,455 milhas até ao Tahiti sem nunca ter tocado terra. Mais do que uma perspectiva ou imagem das ilhas, a literatura sempre me proporcionou a dimensão da viagem, inevitável para quem cresceu no meio do oceano. O livro Navegações e Outras Errâncias é também, em grande medida, sobre a viagem.

       

      Este é um livro sobre lonjuras, desejos de fuga ou de mudança, sentimentos trágicos e heróicos, mas é também um livro sobre memórias, mesmo que ficcionadas, das referências familiares às histórias de lugares emblemáticos como o Café Peter, dos cenários de isolamento às chegadas regulares de barcos que traziam cartas, livros, discos e modas. Como foi esse processo de partir das memórias para a ficção?

      Penso que é natural para qualquer escritor começar por escrever sobre aquilo que lhe está mais próximo. Sejam memórias, lugares, vivências, ou simplesmente coisas que nos aconteceram. A ficção ajuda-nos a libertar dos factos e permite ilustrar a vida com uma liberdade e cor que nem sempre a realidade encerra. Apesar de muitas destas histórias terem uma base de verdade, factual, foram no entanto reconstruídas na minha escrita com uma ideia poética das pessoas e dos lugares. Foi este o meu contributo criativo ao dar-lhes uma dimensão literária, e daí o recurso à ficção.

       

      Há vários episódios neste livro que parecem ter sido inventados para a literatura, mas que deixam a suspeita de terem de facto acontecido: lembro-me dos queijos Gorgonzola, transportados por aquele navio que avaria, em «Orione», e que acabam oferecidos ao pai do narrador, ou do homem que sonhava apanhar a baleia que terá engolido Jonas, em «Rufino». Estas histórias aconteceram? E foi preciso modificá-las muito para fazer delas literatura?

      Foi preciso modificá-las apenas à medida da minha imaginação. Mas de facto aconteceram. A história dos queijos aconteceu de facto e marcou o meu difícil relacionamento com o cheiro do queijo durante toda a minha juventude. O comandante do navio Orione ofereceu, na verdade, dois queijos enormes ao meu pai, que empestaram a nossa casa durante muito tempo. Sendo esse o ponto de partida, eu quis no entanto ficcionar a viagem do Orione até sofrer o incêndio perto dos Açores e o seu encontro com um dos rebocadores holandeses, que estacionavam no Faial, bem como descrever um pouco como seria a espera da tripulação dos rebocadores de alto-mar nas tardes passadas no Peter. Este é, na verdade, todo o processo da escrita deste livro, combinando um ponto de partida verídico com a minha visão do que poderia ter acontecido.

       

      A escrita era algo que fazia parte da vivência da sua casa de infância, nomeadamente através do seu pai, que fez jornalismo e documentários e que escreveu, entre outras coisas, contos. Começou a escrever regularmente apenas em 2019, quando publicou o primeiro livro, ou já o fazia e só nessa altura decidiu publicar?

      Embora o gosto pela escrita já existisse desde há muito tempo, eu diria que um conjunto de circunstâncias levaram a que apenas publicasse pela primeira vez em 2019. Primeiro, uma questão de maturidade, já que muitas das coisas que escrevi antes pura e simplesmente não tinham a qualidade ou a maturidade para serem publicadas. Considero-me bastante exigente naquilo que faço e há um momento próprio em que nos reconhecemos naquilo que escrevemos. Até aí foi apenas um processo de desenvolvimento e aprendizagem. Em segundo lugar, o facto de ser advogado de profissão leva a que passe os dias a ler e a escrever outras coisas o que me retira a disponibilidade para a escrita literária ao fim de um dia de trabalho. Mesmo assim, sempre tentei, e tive muita satisfação pessoal, por vezes, em escrever o melhor possível, sobretudo nos articulados processuais, quando fazia mais advocacia de tribunal. Sou por natureza um escritor lento e tudo tem de sair quase na sua versão final, o que, aliado à por vezes falta de disponibilidade mental e de tempo, leva a que só em 2019 se tenha concretizado a publicação do primeiro livro, e este dois anos depois.

       

      No seu livro anterior, A Humidade dos Dias, as suas memórias dos Açores já eram matéria central, mesmo que com algumas referências a outras geografias, nomeadamente a asiática. Depois de muitos anos a viver em Macau, e estando agora no Vietname, os Açores continuam a moldar o seu modo de ver o mundo, apesar da distância?

      Não diria que moldam a minha maneira de ver o mundo, embora reconheça que desempenham um papel importante na minha sensibilidade criativa e literária. Penso que este livro marcará o fim da necessidade de escrever sobre os Açores. Gostaria de escrever sobre Macau e o Vietname. Sempre foi uma preocupação que a minha escrita seja universal, no sentido de que não seja preciso de conhecer o Café Peter ou ter nascido nos Açores para aderir e apreciar o que escrevo. Daí, talvez, a opção por um estilo de prosa poética que tenha por si mesmo valor literário, independentemente do objecto da escrita.

       

      Tem planos para um próximo livro?

      Gostava de transportar o cenário geográfico da minha escrita para a Ásia (Macau e Vietname), onde ao fim e ao cabo passei 22 anos da minha vida. Tenho algumas ideias. Mas talvez me aventure, um dia, a escrever um romance que penso ainda ter cabimento nos Açores. Será, no entanto, a seu tempo, até que tenha a liberdade para poder escrever como gostaria, isto é, sem os constrangimentos do meu trabalho diário, o que espero não ser um futuro muito distante.

       

       

       

      Luís Mesquita de Melo

      Navegações e Outras Errâncias

      Companhia das Ilhas