Edição do dia

Domingo, 14 de Abril, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nuvens dispersas
26.9 ° C
27.9 °
26.9 °
89 %
4.6kmh
40 %
Dom
27 °
Seg
27 °
Ter
27 °
Qua
28 °
Qui
28 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioCategorias do ParágrafoEntrevistas no ParágrafoDJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA: ESCREVER PARA FAZER AS PERGUNTAS CERTAS

      DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA: ESCREVER PARA FAZER AS PERGUNTAS CERTAS

      Em 2015, Esse Cabelo aterrou com estrondo na literatura portuguesa, revelando uma voz segura e disposta ao risco, num romance que cruzava as memórias familiares, os ecos do passado colonial português e a construção de uma identidade, tudo atravessado pelos conflitos que cada um destes fios puxava à medida que convocava outros. Seis anos e várias livros depois, Djaimilia Pereira de Almeida (Luanda, 1982) regressa com dois novos títulos: Os Gestos e Três Histórias de Esquecimento, ambos publicados pela Relógio D'Água.

      Sara Figueiredo Costa

       

      Estas Três Histórias de Esquecimento partilham vários traços. Podemos dizer que um deles é a vontade de olhar para um passado onde pesam as marcas da História – a escravidão e o tráfico de escravizados, a Guerra Colonial – e que parece ser um modo possível de olhar para o presente, para o perdurar dessas marcas?

      Três Histórias de Esquecimento não começou por ser um projecto de três histórias, começou por ser um livro, A Visão das Plantas. Esse livro nasceu de uma inquietação relacionada com uma frase, que aliás abre o livro, agora, de Peter Geach, um filósofo católico britânico que eu li na mesma altura em que conheci Os Pescadores [de Raul Brandão], portanto, há vinte anos, quando entrei na faculdade. São coisas que me impressionaram muito e nunca me largaram. N’Os Pescadores impressionou-me sempre aquele parágrafo a respeito do capitão negreiro que tinha cometido uma série de atrocidades e que Raul Brandão descrevia muito brevemente como um homem que teria acabado a vida sem que fosse claro se se arrependia ou não do que tinha feito. Por outro lado, havia a frase do Peter Geach sobre a possibilidade de estarmos vivos, andarmos no mundo e eventualmente já estarmos mortos aos olhos de Deus sem o sabermos. Escrevi a primeira história muitos anos depois da primeira impressão que este parágrafo de Raul Brandão me causou e este tópico, esta ideia de podermos ou não ter a consciência limpa, podermos ou não viver uma vida alegre e branda e no entanto já estarmos apagados desse ponto de vista divino, de podermos estar aqui, na Terra, mas Deus já nem sequer estar a olhar para nós, essas duas ideias não me saíam da cabeça depois de ter concluído A Visão das Plantas. Então, acabei por imaginar esta divisão em três histórias, que também tinha a ver com outras coisas que fui lendo… Há um outro livro importante na sombra deste, Trois Contes, de [Gustave] Flaubert,que me acompanha há muito tempo e de que gosto muito. Surgiu a ideia de fazer uma história em três histórias, com todas a interligarem-se. Comecei a perceber que o Celestino [o capitão de A Visão das Plantas] era só o princípio de qualquer coisa que tinha a ver com tentar falar – e agora vou mais ao encontro da pergunta – tentar falar sobre assuntos que estão, por um lado, muito falados, mas por outro um pouco esquecidos, e tentar iluminar algumas nuances e focar a atenção do leitor nalgumas personagens que em relação a esses temas são ambivalentes. Por um lado, temos este capitão que, após uma vida de atrocidades, morre descansado e sem julgamento, por outro temos este ex-combatente que, sendo angolano, jura fidelidade aos portugueses, e por último, o Bruma, que era cativo, submisso, e com o qual tento mostrar a forma como mesmo uma pessoa submissa pode estar livre no seu interior. Portanto, interessava-me olhar para estes assuntos iluminando as suas nuances e estas três figuras permitiram-me fazer isso.

       

      Quando há esta sobreposição de passado e presente, como se não fosse possível separar os tempos, porque eles se misturam – algo que se nota em Três Histórias de Esquecimento, mas também em Os Gestos –, começam a surgir figuras fantasmáticas. O que a interessa ou atrai nesta ideia do fantasma, tão presente?

      Não é exactamente uma atracção, o que se passa é que eu sou uma pessoa assombrada. As figuras das Três Histórias de Esquecimento são figuras sobre as quais li em algum momento, ou falei com elas, e passaram a pertencer a este género de catálogo de assombrações. Os livros acabam por nascer naturalmente do diálogo que vou estabelecendo com essas figuras que estão cá dentro e que nascem da vida ou de outras leituras. No caso de Os Gestos, também é um livro bastante fantasmagórico, sim. Tem a ver sobretudo com momentos da minha vida e, mais do que isso, com um caminho que perfiz nos últimos anos e que acabou por encontrar fixações persistentes, fantasmas. Aquilo a que estou a chamar fantasmas não é exactamente o que aparece nas histórias fantásticas, claro… São fixações, ideias persistentes, que não param de me interpelar. Os Gestos vai ao encontro desse género de presença na minha vida. No fundo, ambos os livros vão, e talvez os anteriores também.

       

      Em Os Gestos escreve, a certa altura, que cada livro se cruza consigo para ajudá-la em alguma coisa. E, mais adiante, ainda sobre os livros, diz: «O bordado que teço através deles é a vida pela qual respondo.» Antes de escrever o primeiro livro já tinha esta ideia da escrita ou foi algo construído à medida que foi escrevendo?

      Não tinha, não. Essa ideia foi-me ensinada pelos livros, ao escrever um livro após o outro. Fui percebendo que cada livro me coloca perante um problema e escrevo para tentar entender o problema. Quando ele aparece, não o percebo e escrevo o livro para tentar percebê-lo, mais até do que para tentar responder-lhe. Depois o que acontece é que às vezes só depois de ter escrito os livros é que compreendo o que vieram fazer à minha vida. Eles ajudam-me, mas nem sempre sabia que precisava dessa ajuda. E depois percebo porque é que aquele texto veio ao meu encontro. Tanto isto de que estou a falar agora como a ideia dos fantasmas, de que falámos há pouco, só aparecem no decurso de estar a escrever vários livros, um atrás do outro.

       

      Como se os livros convocassem esses fantasmas?

      Exactamente. Quem ouça esta conversa pode pensar que é alguma coisa paranormal, e não é, é mesmo assim, no sentido em que existem coisas, inquietações, angústias que temos, que só as temos porque escrevemos sobre elas e só nos curamos delas ao escrever. Não há outra forma de apaziguar esses fantasmas, mas também não há outra forma de os fazer aparecer. Nos últimos cinco anos escrevi vários livros e tudo isto de que estamos a falar é um mundo que acordou a partir deste processo, solitário, muito silencioso, que põe em acção uma série de coisas que me eram totalmente desconhecidas quando escrevi Esse Cabelo. Estava menos atenta e tinha muito menos intimidade com o meu trabalho do que tenho agora.

       

      Ainda sobre Os Gestos, há aqui um exercício que aponta simultaneamente para uma introspecção, mas também para o exterior, nomeadamente para os espaços, os sons, os objectos, como se todas essas coisas fizessem parte de nós do mesmo modo que fazem as memórias. É uma leitura precisa deste livro?

      Sim, colocando Os Gestos ao lado das Três Histórias de Esquecimento, às vezes sinto que é como o primeiro fosse uma espécie de avesso do segundo, um pouco como se enquanto escrevia as Três Histórias a vida fosse aquilo que está em Os Gestos. E não é certamente uma vida ensimesmada, é atenta ao que vem de fora, como está a dizer, e essas coisas podem ser o que me rodeia, os objectos na casa, mas também as coisas que se avistam na rua, o trabalho dos outros, aquilo que a cidade nos oferece. E há uma coisa importante no livro Os Gestos: ele só foi possível depois de uma determinada percepção ter ganhado muita força, a de que os meus livros me permitiram concluir um caminho de regresso que não seria capaz de fazer de outro modo.

       

      E esse caminho, onde a levou?

      Os Gestos começa com uma frase que diz «Consegui lembrar-me de que tive dezassete anos» e o livro só é possível porque esta frase é a primeira, mas podia ser a última, no sentido em que escrever vários livros permitiu lembrar-me de como era quando tinha 17 anos. Passei muitos anos na Universidade a estudar literatura e ao longo desses caminhos uma pessoa vai-se esquecendo da razão por que faz certas coisas. Quando entrei na faculdade, queria ser escritora e, pelo caminho, esqueci-me completamente disso e dessa rapariga que entrou na faculdade. E andei esquecida dessa rapariga ao longo de quase 20 anos.

       

      E o esquecimento perdurou já depois da faculdade?

      Sim, e os livros que entretanto escrevi fizeram-me voltar a essa rapariga que tinha da literatura uma visão certamente muito ingénua, mas tinha também uma paixão, uma urgência em relação a ler e a escrever de que entretanto me esqueci. Para mim foi muito importante perceber que foram os livros que me devolveram o gosto pelos livros, se quiser, e Os Gestos conta a história deste caminho, que não é de regresso a casa, mas de regresso ao passado. Não no sentido da evocação nostálgica, mas de um reconhecimento de que agora me lembro mais ou menos de como era naquela altura.

       

      Estes dois livros juntam-se a uma série de outros, num percurso que começa com Esse Cabelo, em 2015. Esse primeiro livro é claramente atravessado pela sua biografia, pela história pessoal. Como vê hoje esse trabalho de escrita a partir da biografia.

      É engraçado, porque escrever mais transformou a minha maneira de escrever e, para mim, aquela linguagem do Esse Cabelo é-me estranha, hoje. Nunca leio os meus livros depois de os publicar, mas às vezes pedem-me para ler uma parte, em algumas sessões, e esse primeiro livro está escrito de uma forma que agora me provoca estranheza, é um livro escrito quase noutra vida.

       

      Quão importante é para a sua escrita o facto de ter na sua história familiar pessoas com origens em geografias e culturas tão diversas?

      É muito importante para a minha escrita, mas sobretudo para a pessoa que sou. Tenho uma família de pessoas de várias etnias, o meu pai era branco, a minha mãe era negra, tenho um irmão branco e uma irmã negra, para além disso a minha é uma daquelas famílias onde há pessoas de muitas etnias e todas misturadas.

       

      Como acontece no Esse Cabelo?

      Exactamente. Há avós brancas, avós negros, gente espalhada pelo mundo, por muitos países. E eu sou tudo isso, é essencial para a minha maneira de estar na vida e de olhar para o mundo, ainda antes de ser essencial para a minha escrita.

       

      Nesse primeiro livro, e a propósito da família, há referência a uma série de familiares, entre eles uma trisavó macaense. Essa trisavó é real ou ficcional?

      Uma trisavó macaense? Não me lembro… A sério?

       

      Está no livro, sim, uma trisavó macaense que terá casado com um coronel português.

      A sério? [risos] Não me lembro. Há um problema terrível, porque as pessoas olharam para o Esse Cabelo de um modo…

       

      Como se fosse a sua biografia, sem ficção?

      Sim. Bom, se calhar tenho essa trisavó, mas não sei… O mais certo é ser ficção.

       

      O facto de essa fronteira entre a biografia e a ficção ser tão escorregadia, sobretudo quando se trabalha num registo que usa o discurso biográfico, é complicada para quem escreve?

      Sim, acho que me arrependo um pouco de não ter dito que o Esse Cabelo era só ficção. Talvez tenha sido um bocado ingénua, mas isso não foi nada pensado. De facto, vários aspectos do livro correspondem à minha vida, e devo ter dito isso a algum jornalista na altura e depois assumiu-se que tudo correspondia. Não sei, se calhar se não tivesse dito nada as pessoas assumiam na mesma.

       

      Numa das Três Histórias de Esquecimento, Maremoto, mas talvez de certo modo também no romance Lisboa-Luanda Paraíso, há uma vontade de o texto olhar para as pessoas que nos parecem invisíveis no dia a dia, a mulher que vive na rua, o arrumador de carros, o homem que vem de Angola para a operação do filho e acaba a viver em condições miseráveis. Aqueles que não vemos quando desviamos o olhar são essencial para nos percebermos?

      A história do Maremoto começa com um pequeno parágrafo precisamente sobre esse momento em que, na rua, mudamos de passeio para evitar que nos cruzemos com aquela pessoa, e o que é dito nesse parágrafo responde um pouco à sua pergunta. Acho que morremos um bocadinho nesse momento em que nos desviamos para não ver. É muito difícil generalizar isto, porque há todo o tipo de pessoas que não ignora, há todo o tipo de pessoas que se importa, que repara, por isso só posso falar da maneira como os meus livros perseguem, ou tentam… Estou a escolher muito as palavras porque é fácil dizer lugares-comuns sobre isto. Por isso é que acabo por escrever livros sobre figuras destas, porque elas me interpelam directamente naquilo que sou enquanto pessoa. É quase como se os livros tentassem responder a uma intimação que me é feita, ou que me foi feita por algumas pessoas em determinados momentos da minha vida, pessoas com quem falei, mas também muitas que só vi passar, e que olharam para mim, ou de quem ouvi falar, ou com quem me cruzei porque viviam no meu bairro. Digamos que tive a sorte de algumas dessas pessoas me colocarem problemas e, como disse há pouco, os meus livros nascem de problemas.

       

      E escrever é um modo de tentar perceber esses problemas, talvez mais do que de resolvê-los?

      Sim, interessa-me muito pouco responder, interessa-me mais perguntar. Se pensarmos em termos de perguntas e respostas, entendo os meus livros como uma tentativa de eu entender as perguntas, de formular as perguntas da maneira mais precisa possível.

       

      Daí aquela referência a Rainer Maria Rilke, em Os Gestos, quando diz «Amar as perguntas como quartos fechados, recomendou Rilke ao jovem Kappus, perguntas a que não sabemos responder como livros escritos em línguas que não sabemos ler.»

      Exactamente, é mesmo daí que vem. Esse texto [Cartas a um Jovem Poeta] mexeu profundamente comigo. Não sei se as respostas estão nos livros, mas o que importa é perceber qual é a pergunta, porque às vezes não é claro. Às vezes vemos toda a gente absolutamente segura de todas as respostas disponíveis de todos os lados e a minha pergunta é sempre: afinal, qual é a pergunta? Acho que os romances ocupam esse espaço de nos ajudar a todos a perceber quais são as perguntas. E se esse movimento nos ajudar a desapaixonarmo-nos um bocadinho da maneira às vezes tão cega como abraçamos as respostas, já valeu a pena.

       

      Terminada a entrevista, chegou-nos uma SMS de Djaimilia Pereira de Almeida, anunciando que a trisavó macaense, afinal, sempre existiu.