Quando Marlon Brando quis fazer um filme sobre a Rainha dos Piratas de Macau

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O filme propunha-se em parte contar a história de Lai Choi San, mítica líder de um grupo de piratas baseado em Macau no princípio do século XX, mas problemas pessoais e desentendimentos com o autor do guião, Donald Cammell, levaram o actor a desistir do projecto. O guião, inacabado, acabou por dar origem a um romance só publicado após a morte de Marlon Brando. Chama-se Fan-Tan, está assinado por ambos e, segundo a crítica, é pouco mais do que medíocre.

Marlon Brando & Alice Marchak no Tahiti

Lai Choi San é uma lenda na história da pirataria nos mares do sul da China. Ao longo dos anos 20 e 30 do século passado, comandou a partir de Macau uma frota de mais de uma dezena de barcos-piratas que nenhuma força naval da região parecia capaz de destruir. O seu nome tornou-se famoso em todo o mundo quando o jornalista americano de origem finlandesa Aleko E. Lilius publicou em 1931 o livro I Sailed with Chinese Pirates, onde contava as aventuras enquanto cativo e depois hóspede do seu bando de piratas. O relato deu origem, mais tarde, a vários outros livros, entre contos, romances e até publicações de banda desenhada.

Mas não foi um especial fascínio por esta figura histórica da região que levou Marlon Brando a dar início ao projecto. Segundo a sua assistente pessoal de muitos anos, Alice Marchak, a ideia de fazer um filme em torno deste tema partiu antes de uma dupla preocupação: arranjar um papel para a actriz de origem chinesa Anita Loo, com quem Marlon Brando estava envolvido, e produzir uma película que promovesse o arquipélago do Tahiti, onde o actor então vivia. «Ele parecia muito interessado nessa ideia de filmar em Tetiaroa (o seu atol no Tahiti), mas depois mudava completamente de opinião e voltava a querer fazer um filme que tivesse um papel chinês para Anita», recorda Alice Marchak no seu livro de memórias, Me and Marlon. «De repente, lembrei-me de ler um relato muito interessante sobre piratas que ainda operam nos mares da China. Falei-lhe das suas façanhas. Sugeri algumas ideias para histórias, inclusive de uma mulher chinesa pirata que operava nos mares da China, e Marlon decidiu desenvolver essa ideia. Eventualmente Marlon acabaria por levar os saqueadores dos mares da China para a sua ilha no Pacífico Sul, para esconderem o seu saque em Tetiaroa. Uma vez que a história incluía agora Tetiaroa, sentia-se entusiasmado: podia escrever um papel para Anita e explorar a sua ilha ao mesmo tempo.» Mas Marlon Brandon raramente se concentrava num projecto por muito tempo. E depois de muitas conversas entre ambos, onde a personagem pensada para Anita Loo ora surgia romanticamente sob uma lua tropical, ora se transformava numa impiedosa pirata que gritava ordens à sua tripulação de bucaneiros, o projecto foi posto de lado. Por outras palavras, «os piratas foram colocados em doca seca», como escreve Marchak no seu livro de memórias.

Marlon Brando & Alice Marchak no Tahiti

Um dia, a filha de Anita Loo, China Kong, procurou Marlon Brando para lhe pedir um empréstimo. O actor discutiu o assunto com a sua assistente pessoal e disse-lhe recear que o empréstimo não fosse reembolsado, ou até que a mãe não concordasse com ele. Marchak sugeriu então a Marlon Brando que contratasse Donald Cammell, marido de China Kong, para trabalhar no projecto dos piratas, usando os salários para pagamento do empréstimo. «Uma vez que Donald é argumentista, pode pôr o material em forma de guião», foi a sugestão apresentada e logo aceite pelo actor.

Como estava já estabelecido que Tetiaroa ia ser um dos principais cenários do filme, partiram todos para a ilha em meados de Dezembro de 1978, onde trabalharam ininterruptamente no guião durante cerca de um mês. Mas, sem que então soubessem, estavam apenas no início de um longo e doloroso processo que acabaria por conduzir ao cancelamento do filme e à publicação de um romance a título póstumo.

Mick jagger and Donal cammell, 1968

Uma relação de altos e baixos

Marlon Brando tinha conhecido Donald Cammell no final dos anos 50, nos circuitos da vida boémia de Paris. Escocês, nascido e crescido nos meios intelectuais de Edimburgo, Cammell fazia um pouco de tudo no domínio das artes: era jornalista, editor de uma revista literária, escritor, artista plástico de considerável talento e também cineasta. «É difícil dizer qual dos dois autores era mais carismático ou ousado, ou qual deles teve a vida mais complexa. Mas tinham coisas em comum, incluindo uma tendência estilizada para a auto-destruição e o gosto pelo experimentalismo criativo», notou o escritor David Thompson no prólogo que acompanha o romance assinado por ambos. «E gostavam também da companhia um do outro, embora num espírito muito competitivo».

No final dos anos 60, Cammell convidou Marlon Brando a contracenar com Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones, num filme sobre um gangster americano que se vira forçado a procurar refúgio em casa de uma estrela de rock em Londres. Desconhecedor do talento do amigo enquanto cineasta, Marlon Brando recusou o convite, acabando por ser substituído por James Fox no projecto que daria origem ao filme de culto Performance, estreado já em 1970. Brando terá tido em conta essa oportunidade perdida uns anos mais tarde quando aceitou, sem hesitar, que Cammell fosse o guionista do seu filme sobre piratas.

Porém, entre um e outro episódio, um grave desentendimento esteve perto de pôr fim à relação de amizade entre Brando e Cammell. Em 1974, o escocês começou a namorar China Kong, filha de Anita Loo, quando aquela era ainda uma menor de 14 anos e ele tinha já completado 40 anos de idade. Marlon Brando só lhe perdoou (o que hoje seria visto, inequivocamente, como um caso-crime de pedofilia) quando Cammell casou, quatro anos mais tarde, com China Kong. No fim do mesmo ano estavam todos de partida para o Tahiti.

O trabalho conjunto em Tetiaroa produziu um primeiro guião de 165 páginas, datado de Maio de 1979, depois submetido à apreciação de vários estúdios de Hollywood, incluindo a MGM. «Alguns responderam com entusiasmo, outros rejeitaram-no liminarmente. Era claramente um trabalho ainda pouco vendável», conta ao PARÁGRAFO Darwin Porter, autor de Brando Unzipped, uma das mais recentes biografias do actor.

O interesse de Marlon Brando pelo projecto começa então a esfriar. «Ele estava a passar por uma série de problemas pessoais», explica Porter. «Sabia que tinha de fazer uma dieta muito rigorosa e perder muitos quilos para poder fazer o papel de um aventureiro romântico». Para além disso, acrescenta o biógrafo, Brando dizia recear que o filme fosse muito caro e que tivesse de delegar demasiado poder aos estúdios de Hollywood. «Queria uma produção independente, mas faltava-lhe o dinheiro». 

Donald Cammell ficou de tal modo desapontado que, segundo Alice Marchak, os dois homens ficaram meses sem se falar. Ao contar ao seu irmão, David, que o projecto não ia para a frente, Donald desabafou: «Marlon gosta de torturar as pessoas».

Para evitar que o trabalho tivesse sido em vão, Cammell propôs a Brando que do guião se partisse para um romance, para que depois do êxito deste fosse mais fácil encontrar financiamento para o filme. Marlon Brando concordou com a ideia e Donald Cammell pôs mãos à obra.

Primeiro, trataram das formalidades. Assinaram, em Julho de 1982, um contrato com a Pan Books e o seu editor à data, Sonny Mehta, pelo qual Brando e Cammell recebiam um adiantamento de 100,000 dólares a título de direitos de autor. O guião existente seria o ponto de partida; Cammell ficava responsável pela escrita do romance, mas Marlon Brando teria a palavra final em termos editoriais.

«E foi assim que, algures entre 1982 e 1983, Donald Cammell escreveu o romance Fan-Tan, ou uma versão incompleta dele, de acordo com as conversas iniciais havidas entre ambos e respeitando a primeira abordagem proposta por Brando», afirma o autor David Thompson no prólogo que escreveu para o livro, editado em 2005. 

Entre cenas cortadas e anotações escritas por Marlon Brando, o livro foi tomando forma. Donald Cammell centrou a sua investigação na biblioteca da UCLA, Universidade da Califórnia em Los Angeles, e foi nas leituras que aí fez que «encontrou uma mulher pirata real para servir de base a Madame Lai Choi San – figura de que Marlon já ouvira falar e que o intrigava», revela Thompson. Com a mulher, China Kong, visitou também Hong Kong, para se familiarizar com questões relacionadas com a construção de juncos, incluindo depois no romance pormenores sobre a concepção do barco que levaria um tesouro para o Tahiti. «China (Kong) recorda chamadas telefónicas para Marlon a partir de Hong Kong, em que os dois homens faziam a revisão das páginas do romance».

David Thompson confessou ao PARÁGRAFO desconhecer se alguma vez Donald Cammell ou a mulher estiveram em Macau, nessa fase do processo de investigação. E não nos foi possível também tirar essa dúvida com a própria China Kong, actriz e produtora que continua radicada em Los Angeles, desde a morte de Cammell, em 1996. Todas as nossas tentativas de contacto foram infrutíferas. 

Quanto a Marlon Brando, não há também qualquer registo de que tenha passado nessa altura por Macau ou por Hong Kong, hipótese que é aliás vista como muito improvável por todas as fontes com quem contactámos. Aparentemente, o actor só terá estado por uma vez em Hong Kong, com o produtor e realizador George Englund, quando ambos procuravam cenários para o filme The Ugly American. Mas isso aconteceu em 1956, muito tempo antes de Brando idealizar o filme sobre piratas dos mares da China. Curiosamente, mesmo quando participou, com Sophia Loren, na rodagem do último filme realizado por Charlie Chaplin, A Countess from Hong Kong, datado de 1967, as filmagens decorreram por inteiro em Inglaterra, nos estúdios da Pinewood. Nem nessa altura visitou Hong Kong.

Macau: uma presença subentendida 

Embora se tenha depois distanciado do projecto, Marlon Brando chegou a mostrar-se entusiasmado com ele. No final de uma entrevista com Lawrence Grobel, autor de Conversations with Brando, o actor revelou-lhe estar a escrever um filme, «com seis capítulos, ainda muito cru e inacabado, com uma escrita um pouco rebuscada», mas «com uma história interessante», explicando que o queria fazer no Tahiti, onde pensava abrir uma escola. A síntese que fazia da narrativa era toda ela atabalhoada:

«É sobre um contrabandista em Hong Kong que sai da prisão. Ele tinha salvo a vida de um chinês quando lá estava, que por acaso era um dos … bem, houve uma pirata chamada Lai Choi San em 1927 e … bom, eu envolvi-me tanto na pesquisa que me esqueci do projecto. Havia esta pirata, Madame Chang, que em 1830 tinha sob o seu controlo 600 juncos e não sei quantas pessoas, piratas, e deu de tal forma luta à marinha chinesa que a levou a uma situação de impasse. Havia muitas mulheres piratas, e muitas apoiavam Mao Tse-tung, mas isso é já ir muito para a frente. De qualquer modo, estes piratas estavam a saquear a China por volta de 1911. E este tipo, este contrabandista, rouba aos piratas as pérolas do Palácio Real no valor de meio milhão de dólares». A descrição continuou assim, tremendamente confusa e nada rigorosa em termos históricos, até ao fim do relato. Depois de o ouvir, Grobel afirma ter ficado «sem palavras» e incapaz de perceber se Marlon Brando tinha acabado de inventar tudo aquilo ou se estava mesmo a trabalhar naquela história para um filme.

Apesar de se referir a figuras históricas intimamente relacionadas com Macau, ainda que em épocas históricas diferentes, Grobel disse ao PARÁGRAFO que Brando jamais lhe mencionou Macau no contexto do projecto dos piratas. No entanto, como se pode ler no livro que reúne as conversas entre ambos, o actor referiu-se numa ocasião à possibilidade de utilizar a então colónia portuguesa como cenário para um outro filme que jamais viria a fazer. Curiosamente, tratava-se também de um projecto em colaboração com Donald Cammell, sobre um agente da CIA que voltava ao activo para eliminar o líder de um cartel colombiano da droga – um filme que iria chamar-se Jericho. «Encontrar um local colorido como Macau ou Tânger» para as filmagens, em vez de uma Washington «sem graça», era a opção que Brando defendia para aquele filme, antes de decidir colocar o projecto na gaveta por pretensas dificuldades na celebração de contratos de seguro, a poucos dias do início da rodagem. 

O fim anunciado

O projecto dos piratas teve também um fim abrupto. «A certa altura do processo, Brando simplesmente fez saber a Cammell que não queria ir para a frente com Fan-Tan, quer fosse em formato de filme ou de romance», conta David Thompson. Marlon Brando não terá gostado do livro (embora Cammell duvidasse que alguma vez o tenha lido), e por isso pagou o adiantamento feito pela editora e nunca mais voltou a falar do assunto. 

«Donald Cammell ficou furioso», garante Thompson. «Sentiu-se traído. Ele achava que o livro tinha consideráveis méritos, e ao escrever o romance, percebeu que gostava muito desse tipo de trabalho. E sonhava ainda em fazer o filme. Mais de uma vez, chegou a queixar-se de que Marlon tinha sido caprichoso e manipulador, jamais tencionando ir para a frente (com o projecto)». 

Darwin Porter explica o comportamento errático e imprevisível de Marlon Brando com um «esgotamento nervoso», que terá estado na origem do colapso deste e de muitos outros projectos nos seus últimos anos de vida. E cita alguns exemplos: «No estado (de saúde) deteriorado em que se encontrava, rejeitou projectos fabulosos em que poderia ter feito muito dinheiro. Por exemplo, recusou 4 milhões de dólares para fazer de Pablo Picasso. Surpreendentemente, rejeitou também uma participação especial como Al Capone que lhe teria rendido 5 milhões. Recusou ainda uma oferta farta para fazer de Karl Marx e um convite do realizador Adrian Lyne para aparecer com Laurence Olivier numa comédia de costumes. Por essa mesma altura, dedicou uma grande parte do seu tempo a trabalhar em guiões originais (nunca terminados), talvez cinco no total, dos quais Fan Tan foi apenas mais um». 

Depois da morte do actor, em 2004, David Thompson foi convidado pelos herdeiros de Marlon Brando e Donald Cammell a concluir o romance, escrevendo o último capítulo com base em notas que tinham resultado das primeiras sessões de trabalho em Tetiaroa. E Fan-Tan foi publicado no ano seguinte pelo mesmo editor que assinara o contrato inicial, duas décadas antes: Sonny Mehta, agora em representação da Alfred A. Knopf Publishing, de Nova Iorque.

Reflectindo sobre o projecto e os seus autores, Thompson escreveu no final do prólogo: «Hollywood é a história de todos os filmes que fez. E isso é já por si suficiente para uma história doida e bem repleta. Mas é mais do que isso: é também o relato, mais negro e louco, de todos os grandes sonhos e projectos que nunca chegaram a realizar-se. E, no fim de contas, talvez os sonhos por realizar – como o Fan-Tan – sejam mais românticos ou mais sonhadores do que aqueles que chegaram a bom porto».

 

Marlon Brando & Alice Marchak