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      “A tradução não é só razão, é também emoção”

      Zhang Weimin tem dedicado a sua vida à tradução da literatura portuguesa para língua chinesa. Foi, aliás, o primeiro tradutor para chinês da obra integral de “Os Lusíadas” e acabou de traduzir o “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa. Em entrevista ao PONTO FINAL, declara o seu amor pela literatura portuguesa, destacando Camões e Fernando Pessoa.

      Há cerca de 40 anos que Zhang Weimin aproxima a literatura portuguesa da China. Tradutor de inúmeras obras em língua portuguesa para chinês, Zhang foi o primeiro a traduzir a obra integral de “Os Lusíadas”. Recentemente, traduziu o “Livro do Desassossego”, obra publicada pelo Instituto Cultural em Macau. Em Macau no âmbito do Congresso Internacional do Meio Milénio de Camões, concedeu uma entrevista ao PONTO FINAL em que recorda a sua aproximação à língua portuguesa e em que fala dos autores portugueses com admiração. Além disso, Zhang Weimin diz também que o interesse dos leitores chineses pelas obras portuguesas é grande. Por fim, assegura que os tradutores de literatura não têm de se preocupar com as ferramentas de inteligência artificial – pelo menos, para já. Até porque “a tradução não é só razão, é também emoção, e isso a inteligência artificial não tem”.

       

      Tem dedicado a sua carreira à tradução de obras da língua portuguesa para a língua chinesa. Como é que se começou a interessar pelo português?

      Comecei a estudar a língua espanhola em 1965. Entrei num colégio onde se ensinava espanhol, em Pequim. O estudo foi interrompido quando começou a Revolução Cultural. Depois, em 1973, entrei no ensino superior para estudar línguas estrangeiras.

       

      Como é que viveu o período da Revolução Cultural? Quais as memórias dessa altura?

      Nessa altura eu era estudante do ensino secundário, ainda era pequeno. Foi uma grande confusão. A vida política e económica foi muito afectada, mas, como na altura era jovem, não senti muito. Não sabíamos o que se passava, mas queríamos voltar a estudar. Finalmente, tive a sorte de voltar a estudar espanhol. Passados quatro anos, terminei o estudo de espanhol. Precisamente nessa altura, a China queria desenvolver as relações com os países de expressão portuguesa e precisava de alguém que dominasse o português. Começar do início era difícil, então, arranjaram algumas pessoas que já tinham uma certa base e preparação através da língua espanhola. Então, entrei no curso de língua portuguesa. O nosso professor era português, hoje é um dos famosos sinólogos de Portugal, António Graça Abreu. Foi um bom professor, ensinou-nos português e preparou-nos para conhecer a cultura, a língua e a literatura. Nessa altura, tivemos acesso a contos de Eça de Queirós, sonetos e redondilhas de Camões. Foi o primeiro contacto com Camões e com a literatura portuguesa.

       

      O que é que lhe chamou a atenção na obra de Camões, na altura?

      Tive a sorte de começar a estudar espanhol desde muito jovem e de voltar a estudar espanhol quando muita gente não teve essa possibilidade. Tive sorte de ser dos primeiros alunos a estudar português e tive sorte de ter um professor muito talentoso. Em 1980, assinalaram-se os 400 anos do falecimento de Camões e surgiu a ideia de preparar uma antologia para divulgação da cultura. Nós organizámos um pequeno grupo e o professor Graça Abreu procurou estrofes de “Os Lusíadas”, sonetos e redondilhas. Depois, distribuímos esse material para que cada um traduzisse uma parte. Assim, preparámos a primeira antologia de líricas de Camões. Isso despertou-me grande interesse neste poeta. Depois, pensei conhecer mais e fazer mais traduções.

       

      A parte simbólica de Camões, que é visto como um símbolo nacional português, também o interessou?

      Esta parte só comecei a conhecer depois de começar seriamente a fazer o trabalho de tradução de “Os Lusíadas”. Comecei a conhecer melhor este grande homem. Para mim, Camões é um génio com um grande sentimento patriótico. Através da obra, também conheci o nascimento, o desenvolvimento e a história da nação portuguesa. Ele é um génio. Como é possível ter todo aquele conhecimento greco-romano e da história de Portugal no cérebro? Hoje, com a Wikipédia, nós fazemos uma pesquisa agora e amanhã já nos esquecemos [risos]. Ele era um génio daquela época. Não sei se é milagre ou se é Deus que manda estas pessoas para o mundo.

       

      Ao longo da sua carreira, não traduziu apenas Camões. Traduziu também recentemente o “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa, que foi publicado agora pelo Instituto Cultural de Macau. Como é que foi esse processo?

      Eu comecei a entrar no mundo da literatura portuguesa através da tradução de uma obra de José António Saraiva, um pequeno livro sobre a história da literatura portuguesa. No início, eu não queria fazer a tradução, eu queria só aprender português através da leitura. Depois de alguns meses de estudo do português, dominamos a língua de forma muito limitada e elementar. Para ter mais conhecimento da língua portuguesa, comecei a ler e a fazer algumas traduções. Através dessa obra, conheci os autores mais importantes, como Eça de Queirós, Fernando Namora, Padre António Vieira e Fernando Pessoa, que nessa obra é apresentado como uma figura de grande influência no mundo. Foi nessa altura, por volta de 1982, que a Fundação Calouste Gulbenkian ofereceu à revista onde trabalhava uma pequena biblioteca. Procurei os livros de Fernando Pessoa e comecei a ler. Gostei muito de Fernando Pessoa, mas sinceramente não compreendia tudo, na altura. Fiz uma pequena antologia, que depois foi apoiada pela Fundação Calouste Gulbenkian para publicar na China, e outra versão com mais poemas publicada pelo Instituto Cultural de Macau.

       

      E agora o “Livro do Desassossego” foi publicado em Macau. Como é que surgiu a oportunidade para traduzir esta obra?

      Há alguns anos, encontrei em Macau o Yao Jing Ming, grande poeta, professor e tradutor, e ele uma vez sugeriu: Porque não traduzes o “Livro do Desassossego”? E eu disse que era difícil, mas, mesmo com a impressão de que os textos são muito difíceis, eu fui procurar na internet. Fui traduzindo alguns e publiquei em blogues para ver a reacção das pessoas e, finalmente, decidi traduzir.

       

      Quanto tempo demorou a traduzir o “Livro do Desassossego”?

      Quatro ou cinco anos. Fiz muitas revisões, muitas comparações. Não é fácil encontrar soluções em chinês.

       

      Quais são as principais dificuldades na tradução de obras literárias da língua portuguesa para a língua chinesa?

      A maior dificuldade é o domínio da língua chinesa. Sinto falta de adjectivos e expressões adequadas. Camões usa muitos maneirismos. Para descrever uma coisa bela, por exemplo, usa muitas expressões e nós temos de procurar na literatura chinesa formas diferentes de descrever essa beleza. Não é fácil. Outra dificuldade é encontrar uma forma que respeite o sentido original e que agrade ao público chinês. A literatura chinesa tem uma linguagem diferente. A minha maior preocupação quando faço tradução é respeitar o sentido original, não trair o autor.

       

      Há quem diga que não é possível traduzir poesia de forma correcta. Qual é a sua opinião? É possível, ou haverá sempre algo em falta em relação ao original?

      Um poema tem duas partes: a ideia que se quer expressar e a musicalidade, métrica, rima, por exemplo. Mesmo um soneto tem diferentes ritmos. Uma tradução idêntica é impossível, mas, se o leitor conseguir ter o mesmo sentimento ao ler a tradução, já é suficiente. Na minha opinião, se um poema tem ideias importantes para transmitir aos leitores de outra língua, tenho de traduzir. Não é só traduzir um poema, é transmitir a ideia. Se exigirmos que um tradutor traduza sonetos com dez ou 12 sílabas e rimas, isso não é fácil.

       

      Das obras que traduziu até hoje, qual a sua preferida?

      Eu traduzi Camões, Fernando Pessoa, Padre António Vieira… Gosto muito das suas ideias. Quando era jovem gostava mais de Camões e dos seus temas relacionados com amor, romance e aventuras. Há episódios de tempestades no mar que Camões descreve e que nos levam para dentro do barco. De Fernando Pessoa gosto muito das suas ideias novas. Gosto de todos. No início só queria traduzir alguns e hoje já traduzi quase 3.000 poemas de Fernando Pessoa.

       

      Actualmente está a trabalhar na tradução de mais alguma obra?

      Este é um momento muito especial. Em 2022, o professor Felipe de Saavedra convidou-me para participar neste congresso dos 500 anos do aniversário de Camões, mas eu, na altura, disse-lhe já fiz esse trabalho há quase 40 anos. Voltar a lembrar-me de tudo seria difícil e, por isso, pensei fazer algumas traduções de líricas de Camões. Fiz o primeiro rascunho da tradução, ainda tenho dúvidas. Sinto uma grande necessidade de encontrar versões anotadas, porque há expressões que não encontramos no dicionário ou na internet.

       

      Devia haver mais traduções de obras portuguesas para chinês?

      Sim, sim. Para haver mais tradução são precisos apoios. Tive aqui um encontro com estudantes e eles têm muito interesse em Camões e na literatura portuguesa, mas é preciso incentivos.

       

      Incentivos da parte do Governo português?

      De instituições como a Fundação Oriente, o Instituto Camões ou das próprias universidades para que, quando criam cursos de português, criem grupos para fomentar a tradução e apoiar a publicação ou pequenas revistas, por exemplo.

       

      Como é que é a recepção das obras de língua portuguesa traduzidas para língua chinesa por parte do mundo falante de chinês?

      Como a China tem muita população, mesmo que haja apenas uma pequena parte que se interesse, já é muito. Na internet há um site onde se fazem comentários de publicações. Às vezes tenho curiosidade e vou ver o que as pessoas acham da tradução e verifico que há muitas pessoas que gostam de “Os Lusíadas”. Depois de lerem, vêem que é uma obra grandiosa. No círculo de jovens poetas da China, quase todos conhecem Fernando Pessoa.

       

      Qual é a importância da tradução hoje em dia, numa altura em que há novas ferramentas que permitem traduções feitas por inteligência artificial? E o que acha da inteligência artificial neste âmbito?

      Não posso prever o futuro, não sei para onde vai a inteligência artificial e até que ponto vai substituir os humanos. Não sabemos se Deus criou os homens para os homens criarem a inteligência artificial. Neste momento, a tradução através de inteligência artificial não é perfeita e não é possível. Os homens têm sentimentos e a tradução não é só razão, é também emoção, e isso a inteligência artificial não tem. Talvez já comece a ter, porque, quando jogo xadrez contra inteligência artificial, sinto que ela fica zangada [risos]. A inteligência artificial não entende o amor referido nos poemas de Camões.

       

      Então, para já, o trabalho dos tradutores está assegurado?

      Pelo menos na literatura, sim.