Um olhar que vai além da cor

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O fotógrafo Ruy de Lacló regressa de Timor-Leste com um olhar íntimo e despojado sobre o quotidiano do país. O seu mais recente trabalho, reunido no livro O Que Os Meus Olhos Vêem, é um testemunho em preto e branco da cultura, da fé e da resiliência timorenses, captado ao longo de anos de imersão no território. A exposição homónima, que esteve patente na Livraria Portuguesa, revela não só paisagens, mas sobretudo rostos e histórias que desafiam o tempo.  

 

Timor-Leste, um país de contrastes. Das praias de azul cristalino aos verdes intensos da selva, das cores vibrantes dos Tais tradicionais ao arco-íris das microletas que cruzam Díli, a cor é parte indelével da sua identidade. Mas foi no preto e branco que Ruy de Lacló encontrou a essência do que queria mostrar. «O preto e branco […], permite uma maior concentração nos motivos e nos assuntos que pretendo abordar», explica o fotógrafo. O seu projecto, inicialmente concebido a cores, transformou-se numa narrativa visual em tons de cinza, onde os contrastes acentuam a dignidade, a luta e a espiritualidade do povo timorense.

Ruy de Lacló descobriu a paixão pela fotografia na juventude, na câmara escura da sua escola, e mais tarde elevou-a a forma de expressão para captar a singularidade de momentos irrepetíveis.

A exposição O Que Os Meus Olhos Vêem é o culminar de 12 anos de trabalho que se materializam num livro não apenas fotográfico, mas também histórico e etnográfico. Lacló, que participou no projeto educativo C.A.F.E. (Centros de Aprendizagem e Formação Escolar), não se limitou a captar instantâneos: viveu o país, mergulhou na sua cultura e entrevistou figuras como Ramos Horta e Ana Gomes para contextualizar as suas imagens. O resultado é um retrato multifacetado de Timor-Leste. Numa conversa franca, o fotógrafo desdobra os bastidores deste projecto, as suas motivações e as histórias por trás das imagens.

Houve algum momento que o tenha feito perceber que a fotografia era mais do que um interesse pessoal – talvez até uma forma de intervenção?  

É um pouco esse o propósito de fazer alguma intervenção social, antropológica, etnográfica, no sentido de levar as pessoas a reflectirem sobre o modo de vida deste povo, do povo timorense, que é semelhante a outros países em desenvolvimento e a algumas regiões do Sudoeste Asiático. Eu tenho viajado pelo Sudoeste Asiático e, de facto, há aspectos que não se alteram muito no modo de vida do povo timorense comparado com essas regiões. Mas respondendo à pergunta, sim, e de facto tento causar alguma sensibilidade com as imagens e com os retratos que faço.

Como foi a sua primeira experiência em Timor-Leste, enquanto fotógrafo e formador?

Foi uma experiência muito interessante nos dois campos, tanto na formação como professor como no de fotógrafo. Esse foi um dos propósitos que me levou a Timor-Leste – poder participar neste grande projecto que é o CAFE. Inicialmente chamava-se Escolas de Referência. Na altura, o projecto só tinha o pré-escolar e o primeiro ciclo. Essa experiência do primeiro ano foi muito marcante porque ensinar português às crianças timorenses que não falavam português foi realmente um desafio. Eu estava no enclave de Oecusse onde se falava baiqueno.

Do ponto de vista da fotografia, também foi um grande desafio porque desde que aterrei em Díli me apercebi das diferenças abismais em relação ao meu quotidiano. Era um certo caos organizado, onde os recursos eram – e continuam a ser – escassos. Mas do ponto de vista fotográfico, a riqueza contextual era enorme. Durante esse primeiro ano, era muito difícil não ser bom fotógrafo em Timor-Leste, porque as ocasiões e os momentos eram inúmeros, não só relativos à forma como as pessoas vivem, mas também às lindas paisagens. Não foi difícil fazer os enquadramentos que depois deram origem a este livro.

Quando voltei anos depois, apercebi-me que muitas daquelas realidades que já tinha fotografado se repetiam. Apesar de terem passado dez anos e notar algum desenvolvimento, em certos aspectos os mercados mantinham-se inalteráveis, a forma como as pessoas se relacionam continua igual. Nesta segunda fase, procurei encontrar momentos e enquadramentos diferentes, mas no fundo as realidades mantêm-se.

O projeto C.A.F.E. tem um impacto significativo na educação timorense. De que forma é que esta experiência influenciou a sua abordagem fotográfica?  

De facto, este projecto é único no âmbito da Lusofonia e da cooperação portuguesa. Ele só existe em Timor-Leste e é um grande contributo para o desenvolvimento da língua portuguesa neste país que adoptou o português como língua oficial. O projecto está sediado em 14 municípios e isso permitiu-me, como fotógrafo, conhecer bastante bem a realidade timorense em diferentes regiões. Cada uma tem as suas particularidades.

O facto de não estar apenas em Díli permitiu-me observar e conviver com os timorenses de forma mais próxima. Fui-me apercebendo da sua cultura, tradições, daquilo que é intrínseco a este povo. O projecto permitiu-me esta abordagem transversal ao país. Se não tivesse sido assim, não teria a oportunidade de vivenciar algumas realidades que estão retratadas no livro. As fotografias reflectem esta transversalidade, esta forma de conhecer o território.

Existe alguma fotografia que, para si, capture verdadeiramente a essência de Timor-Leste?  

Não tenho propriamente uma fotografia em mente que transmita a realidade, porque temos, no fundo, um puzzle. A realidade de Timor-Leste é como se fosse um puzzle, e cada fotografia é uma peça. Lembro-me de duas crianças com cestos de sal na cabeça, ou de um caixão transportado no mesmo ferry que levava cabras e bananas. É claro que quem conhece a realidade timorense, ao observar qualquer uma das fotografias, é capaz de enquadrá-la num determinado contexto. E, por isso, não tenho propriamente nenhuma fotografia que seja emblemática do seu todo. Portanto, digamos que as fotografias são um somatório do todo.

Como concilia o olhar objectivo de um documentarista com a experiência pessoal nas comunidades que retrata?

Esta é a minha segunda vez na China, mas para fazer um trabalho fotográfico mais profundo seria preciso mais tempo. É um país enormíssimo. Terei de voltar novamente e procurar encontrar estes elementos ou enquadramentos onde possa fazer alguma recolha fotográfica. Na Índia, onde passei um mês em 2019, consegui captar melhor aquela realidade complexa. No fundo, o que eu pretendo é transmitir aquilo que sinto ao visitar estes países através das minhas fotografias. Os meus enquadramentos são muito subjectivos – procuro mostrar o dia-a-dia das pessoas, como vivem, trabalham, resolvem os seus problemas. É isso que tento capturar para dar um entendimento daquilo que observo. Outros fotógrafos verão coisas diferentes.