Em 1995, um grupo de artistas residentes na Beijing East Village, comunidade dedicada às artes nas suas múltiplas linguagens e sediada nos arredores de Pequim, decidiu realizar uma performance. O gesto colectivo procurava intervir na paisagem, talvez explorando a contradição entre a ideia de uma marca permanente e a efemeridade que caracteriza qualquer obra performativa, e foi registada por diferentes pessoas, em fotografia e em vídeo. É muito provável que nenhum dos envolvidos tivesse, há trinta anos, noção de que To Add One Meter to an Anonymous Mountain viria a assumir um papel de charneira na arte contemporânea chinesa e na história mundial das artes performativas, mas foi exactamente isso que aconteceu. Como quase todas as histórias relevantes, esta não é linear, começando muito antes do dia da performance – 11 de Maio de 1995 – e estendendo-se muito para além dele, num novelo de debates, conflitos e, sobretudo, heranças e ecos vários que continuam a mostrar a importância desta obra. É esse novelo que o fotógrafo e curador João Miguel Barros tem estado a desemaranhar, começando por exibir, em Lisboa, na galeria Ochre Space, aquela que será a mais detalhada e completa exposição sobre a performance e preparando, ao mesmo tempo, um livro que reunirá documentação importante (alguma dela dispersa ou inédita), entrevistas, imagens e uma reflexão aturada sobre o que foi To Add One Meter to an Anonymous Mountain, como se espalhou pelo mundo, contrariando a maldição da efemeridade performática e que ecos continua a produzir no presente. Falámos com João Miguel Barros sobre tudo isso, logo depois de vermos a exposição que continuará patente na Ochre Space até perto do final deste mês.
Neste número, destaque ainda para as duas edições da obra Lin Tchi Fá – Flor de Lótus, de Maria Anna Acciaioli Tamagnini, em português-inglês e português-chinês (publicadas pela Praiagrande Edições, em traduções de Lian Zimo e de Ian Watts). Lin Tchi Fá foi o único livro de poesia da autora, que viveu em Macau por dois períodos, entre a primeira e a terceira décadas do século XX, acompanhando o seu marido, o Governador Artur Tamagnini Barbosa. A sua recepção estendeu-se para lá das fronteiras culturais e as do território, alcançando grande prestígio entre a comunidade portuguesa, mas também chinesa, e tendo sido apontado por Natália Correia, muitos anos mais tarde, como uma obra muito relevante no contexto da língua portuguesa, algo que a poeta açoriana atribuía ao «talento literário com que [Maria Anna Acciaioli Tamagnini] semeou por jornais e revistas uma assinalável colaboração em verso e prosa, quer ainda pelo seu empenho em obras sociais e protecção com que encorajava as artes e letras». Lin Tchi Fá – Flor de Lótus está de regresso às livrarias e continua a suscitar diálogos e novas leituras, pese embora o inevitável passar do tempo.








