Hong Kong Confidential (1958)

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ilustração rui rasquinho

 

Diz-nos Ian Fleming que, quando não está a serviço da Rainha e do país, James Bond é um aficcionado por whisky escocês. George Smiley, de John le Carré, é um apreciador de livros antigos. E, claro, Sherlock Holmes dedilhava o seu Stradivarius nas horas vagas. Todos homens bastante cultos, portanto. O mesmo não se pode dizer do espião americano Casey Reed. No filme Hong Kong Confidential (1958), Reed, interpretado pelo sempre inexpressivo Gene Barry, um veterano dos filmes B, é um espião que é cantor de lounge nos tempos livres… E, assim como Holmes é óptimo a resolver crimes, mas não deixa de assustar os gatos da vizinhança quando toca o seu violino, Barry é um cantor de covers distintamente medíocre – e isso é ser muito, muito gentil! Na verdade, é péssimo.

A primeira vez que vemos Casey, ele está a cantar no Frisco Joe’s Nightclub, em Wanchai. Para grande alívio dos clientes (imagino), os serviços secretos dos Estados Unidos da América chamam-no de urgência para a missão de encontrar um príncipe árabe que tinha sido sequestrado. E Casey consegue uma pista enquanto ainda está sentado no bar, sem fazer nada de mais… mas há um porém. O contacto de Casey não fala em público. «Venha ter comigo ao beco atrás da loja de gin Sun Ho, à meia-noite…» Nunca um personagem secundário num filme B foi tão instantaneamente marcado para morrer!

Receio que o guião não melhore muito. A companheira de Casey, Fay Wells (Beverly Tyler, a eterna loira dos filmes de série B), está perdidamente apaixonada por ele, apesar de Casey continuar a deixar tudo para trás tudo para se dedicar à espionagem. Fay permanece ao seu lado mesmo quando ele parte para Macau, onde se rende imediatamente aos encantos de Elena Martine (Allison Hayes, especialista em papéis de raparigas rebeldes na década de 1950). Como estamos em Macau, é claro que Elena é uma negociante de ouro particularmente sensual que derrete barras contrabandeadas do precioso metal e as transforma em supostas bugigangas de aspecto barato que são, depois, contrabandeadas para Hong Kong. Além disso, está envolvida com o obscuro Club Jikki, dirigido por Chung (interpretado pelo actor coreano-americano Philip Ahn).

Sem grande explicação (o que reflecte a pouca perspicácia do responsável pelo Club Jikki), Casey consegue um trabalho para poder observar o movimento e todo o entra e sai do clube. Elena é uma frequentadora assídua e convive com o suposto maior negociante de whisky de Macau, Owen Howards, que tem um sotaque inglês refinado o que, claro, na inescapável tradição de Hollywood, o marca imediatamente como um vilão. 

De alguma forma, a sensual Elena, o elegante vigarista Owen e o Club Jikki levam ao príncipe sequestrado. Pelo meio, há uns quantos tiroteios em que Casey confirma ser tão mau atirador quanto cantor. Kay aparece em Macau depois de sair do barco vindo de Hong Kong, e continua apaixonada por Casey, que insiste em tratá-la como lixo. Ao longo do filme, não fica totalmente claro se Casey é realmente um manipulador, antipático e péssimo cantor, ou se Gene Barry interpreta o papel deste modo para provocar o humor… 

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Estranhamente, tendo em conta que o filme se passa quase totalmente em Macau, a produção decidiu manter o título Hong Kong Confidential. É claro que tudo foi filmado em estúdios na Califórnia, com um orçamento que mal daria para pagar o almoço da equipa, mas o realizador, Edward L. Cahn, apesar da carreira pouco significativa pela série B, consegue criar uma sensação de aglomeração e agitação em Macau. O Club Jikki tem uma clientela internacional e um barman português, enquanto Philip Ahn é um bom maître. Será isso suficiente? Por mais errático que seja o argumento, por mais exagerada que seja a actuação dos actores, por mais lugares-comuns que ocupem os 67 minutos de filme (e garanto que parecerão mais longos), Hong Kong Confidential capta um certo clamor internacional da Guerra Fria que liga Macau aos interesses dos EUA no Médio Oriente, aos motins em Paris e à instabilidade colonial em Hong Kong. 

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É sabido que o contrabando de ouro salvou a economia de Macau no pós-guerra. Ian Fleming chegou ao território no final da década de 1950 para fazer uma reportagem sobre o comércio de metais preciosos, quando o tráfico de ouro e Macau já eram temas profundamente relacionados… O ouro era um motivo recorrente em inúmeros romances pulp fiction, filmes de série B anteriores a Hong Kong Confidential e artigos sensacionalistas em jornais. A reputação perdurou. No início da década de 1960, o The New York Times publicou uma reportagem especial:

Macau: A misteriora alquimia do lucro; 50 milhões de dólares em ouro importados por um pequeno enclave e depois contrabandeados para o exterior, naturalmente de forma não oficial

Em 1960, estatísticas (pouco confiáveis) mostravam que as importações de ouro para Macau quase chegaram aos 30 mil quilos, mas os ourives da Avenida de Almeida Ribeiro usaram apenas 2% desse total. O que aconteceu com o restante? Bem, esse era o segredo não tão bem guardado de Macau. O precioso metal terá saído do território com a ajuda das tríades, em barcos-dragão, hidroaviões, bagagem de passageiros no barco Macau-Hong Kong e, talvez, derretido, transformado em bugigangas baratas e enviado para Hong Kong incógnito. 

Tenho de ser honesto com os leitores: Hong Kong Confidential está longe de ser um grande filme. Na verdade, digamos que luta para ser medíocre, mas, por outro lado, captura algo da verdadeira Macau no final da década de 1950: o ouro, o cosmopolitismo. Talvez por isso possamos acreditar, fingindo que não é totalmente ridículo, que um agente secreto dos EUA disfarçado de cantor de boîte poderia subir a bordo do barco de Hong Kong para Macau deste modo…

Hong Kong Confidential 
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