«No início, houve apenas o acontecimento e as suas consequências. Não se trata de uma questão de tudo poder ter acontecido de um modo diferente, ou de tudo estar já predestinado desde a primeira palavra proferida pela boca do interlocutor desconhecido. A questão é a história propriamente dita; e se tem ou não algum significado, não é à história que compete revelar isso.» A frase está no início de A Trilogia de Nova Iorque, talvez o mais famoso livro de Paul Auster (aqui em tradução de Alberto Gomes, para as Edições Asa), e recuperamo-la para homenagear o autor, um mês depois da sua morte. Homenagem feita, regressamos à frase pelo seu conteúdo, exemplar no modo como descreve as relações que estabelecemos com os textos, os livros, a literatura. Também, de certo modo, com as histórias que vamos vivendo e sobretudo com o modo como as recordamos, não tão diferente de uma narrativa, ainda que esta sem leitores.
Escolher dar a ler aos outros as narrativas que construímos é prerrogativa intransmissível e nunca saberemos o tanto que se guarda em cadernos (ou discos rígidos, mais provavelmente) que nunca vamos abrir, mas quando a decisão é a de partilhar essas páginas, podemos deparar-nos com narrativas fragmentárias tão fascinantes como as que Andreas von Buddenbrock exibe no seu The Ink Trail (Blacksmith Books), um livro que reúne uma selecção dos muitos desenhos que o autor faz nas suas caminhadas por Hong Kong, território onde se instalou há uma dúzia de anos e que parece configurar um manancial infinito de pequenas histórias que não precisam de uma única palavra para ganharem sentidos. Conversámos com o autor sobre esta
Independentemente dos significados que lhes damos depois de estarem escritas, há histórias que nunca chegam a acontecer. É o caso da longa viagem por cumprir de António Pais Godinho, o alentejano que foi nomeado Bispo de Nanquim e que nunca chegou a partir para a China. O historiador José António Falcão conta-nos essa história a partir da documentação que descobriu, reuniu e estudou e confirma que nem só de ficção se fazem as boas narrativas, atravessadas por peripécias quase inverosímeis ou epifanias dificilmente explicáveis no contexto da razão. E voltamos a Paul Auster: «A questão é a história, propriamente dita (…).»








