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      ENTREVISTA

       

      A NATUREZA DE HONG KONG É UM REFÚGIO

       

      Do lado de lá do Rio das Pérolas, Andreas von Buddenbrock acaba de publicar um livro que reúne desenhos de Hong Kong, longe das imagens icónicas e turísticas. Conversámos com o autor a propósito deste The Ink Trail (Blacksmith Books), um outro olhar sobre o território onde os arranha-céus e as montanhas verdes convivem.

       

      Nasceu em Estocolmo, mas é em Hong Kong que vive desde 2012. Entre um e outro lugar, Andreas von Buddenbrock passou por Nova Iorque, onde trabalhou como assistente do escultor sueco Anders Krisár e no Museum of Modern Art (MoMA), e por Manila, onde ponderou ficar, até perceber que era em Hong Kong que queria viver. The Ink Trail, livro publicado pela Blacksmith Books, é o resultado das suas deambulações pelo território que habita, cruzando o gosto pelos passeios a pé com o desenho, forma de expressão que cultiva desde os primeiros anos de vida. Não se espere destas páginas que listem os lugares mais emblemáticos de Hong Kong, ou que ofereçam propostas de “experiências” turísticas. The Ink Trail nasce das caminhadas do autor pelo território e oferece à leitura uma outra visão da península e das ilhas que o compõem.

      Caminhar é uma das actividades preferidas de Andreas von Buddenbrock. Poder fazê-lo fora das grandes artérias urbanas, explorando trilhos, montanhas e ilhas, é algo que a diversidade de paisagens de Hong Kong permite e que o autor aproveita, agradecido. Como explica na introdução deste livro, o facto de Hong Kong ter essa mistura aparentemente estranha de arranha-céus e montanhas, ruas cheias de trânsito e trilhos rodeados de árvores, tantas vezes lado a lado, foi responsável pelo fascínio que o território sempre exerceu em si. Das caminhadas ao desenho talvez nem vá um passo, porque muitas vezes são actividades simultâneas. Não é que Buddenbrock desenhe em andamento, mas é frequente que os actos de caminhar e de desenhar imponham a sua urgência no mesmo momento. Outras vezes, o passeio é apenas um modo de desanuviar: «Por muito que goste de desenhar, posso sair principalmente para encontrar inspiração, em vez de estar a criar algo nesse dia. Tudo depende do momento.» Umas vezes, sai de casa com um destino definido, mas muitas outras é o acaso que o leva a este ou àquele lugar: «Posso ir a um sítio específico se tiver lido que vale a pena visitar ou se já o tiver visto no passado. No entanto, por vezes, também encontro estes locais ao acaso e começo a desenhar nesse momento, e é por isso que prefiro ter o meu caderno de esboços à mão. Especialmente se estiver a fazer caminhadas.»

      Antes de The Ink Trail, Andreas von Buddenbrock criou um blog com desenhos de viagens. Foi juntando imagens criadas em diferentes países e alimentando o blog e as redes sociais com elas, mas acabou por perceber que era em Hong Kong que passava a maior parte do seu tempo, avolumando-se, com o passar dos anos, os desenhos registados no território: «A maior parte dos desenhos já estavam feitos. Há já algum tempo que queria fazer um livro e, como já tinha uma grande colecção de desenhos, muitos deles sobre Hong Kong, reuni-los num num livro pareceu-me um gesto natural. Claro que, como o projecto não foi feito de um dia para o outro, fiz alguns desenhos novos entretanto e vários deles também entraram no livro final.» Foi assim que The Ink Trail foi nascendo, lentamente, sem compromisso editorial prévio e ao sabor das caminhadas do seu autor.

       

      Natureza e betão armado

      Na capa, The Ink Trail mostra o registo do complexo de prédios de Quarry Bay. É um local frequentemente fotografado e partilhado por viajantes, tendo ganho, ao longo dos anos, o estatuto de ícone visual da cidade. No miolo do livro, há outros lugares e ambientes igualmente reconhecíveis, de Victoria Harbour ao The Peak, dos táxis ao edifício do Bank of China. Apesar disso, este livro retrata uma Hong Kong muito longe do estereótipo da grande cidade de arranha-céus, sempre cortada por um trânsito infernal e iluminada pelos néons das lojas e restaurantes. As zonas verdes predominam e, mais do que isso, o que se destaca é um olhar atento sobre essa sobreposição de verde e cinzento, montanhas e prédios, árvores e grandes avenidas, ilhas e vidros espelhados. De certo modo, The Ink Trail não escolhe um lado neste suposto braço de ferro entre natureza e urbanismo, preferindo retractar o encontro, mesmo quando conflituoso, de ambos: «De facto, a natureza que rodeia a paisagem urbana de Hong Kong é um refúgio pessoal, um refúgio de todo o caos da cidade. Sendo, como imagino que muitos outros artistas são, um pouco introvertido, gosto da solidão de caminhar sozinho nos trilhos de fácil acesso, longe das pessoas e do trânsito. Como muitos dos meus desenhos foram feitos enquanto passava tempo na natureza, senti que uma grande parte do livro deveria reflectir isso mesmo. No entanto, incorporar paisagens urbanas e transeuntes fazia igualmente sentido, especialmente tendo em conta a quantidade de desenhos que criei ao longo dos anos no ambiente urbano.»

      Para além desta convivência entre natureza e cidade, um outro tema se destaca no livro de Andreas von Buddenbrock: as ruínas. Umas vezes, são casas, outras, velhas fábricas, ou apenas um muro, uma porta. Mais do que a ideia de algo que se desfaz, os desenhos do autor parecem focar-se no tempo e na sua inevitável passagem, aqui incendiada pelo clima e pela vegetação, capazes de acrescentaram à pedra ou ao betão em decadência uma outra fulgurância. Não é apenas o verde a contrastar com o cinzento, é o verde a engoli-lo, a apagá-lo aos poucos, ainda que nós, leitores, vejamos tudo a preto e branco. Quando lhe perguntamos o motivo de dedicar tantos desenhos a lugares arruinados, responde assim: «Estes são alguns dos meus sítios preferidos em Hong Kong, e desenhá-los é também uma das minhas coisas preferidas. Penso que o meu fascínio pelas ruínas se resume a ver o que a natureza e o tempo fazem quando o cuidado e a atenção constantes dos humanos se retiram, como um edifício ou um objecto se desmorona e simultaneamente se transforma em algo novo.» Para além deste fascínio, há também um lado de diversão nestas imagens e, sobretudo, nos passeios em que o autor as registou: «Também tem a ver com a aventura de explorar estes sítios antes e depois de fazer os meus esboços. Por isso, e provavelmente sem grande surpresa, optei por dedicar o último terço do livro a estes temas e ambientes específicos.»

       

      O preto e branco como programa

      Desenhos como os deste livro começam por ser feitos a lápis, quase sempre no local, e depois acrescenta-se-lhes a tinta negra. Às vezes, os acabamentos são feitos em casa, no sossego da mesa de trabalho, mas mesmo a aplicação da tinta é algo que pode acontecer onde quer que Andreas von Buddenbrock esteja a desenhar. Em alguns casos, como nos desenhos de Victoria Peak ou de Sham Shui Po, foi preciso voltar ao local mais do que uma vez – e aqui é preciso dizer que foi preciso voltar ao exacto local, de modo a que o ângulo do desenho não se alterasse – para ter um desenho completo, mas muitas vezes o processo ficou completo com uma só viagem.

      O preto e branco com que Buddenbrock trabalha permite centrar o olhar de quem lê no essencial. Afastadas do papel as cores eléctricas dos néons e o verde intenso das montanhas, cabe-nos, aos leitores, dar a cada imagem o seu sentido pleno, ora porque reconhecemos o lugar, ora porque o imaginamos. A ausência de cor é tanto uma escolha programática como um hábito, um modo de expressão que acabou por ir definindo o traço do autor: «Para que conste, não tenho nada contra a cor, mas tendo desenhado principalmente com lápis durante a maior parte da minha vida, e mais tarde com tinta, e tendo crescido a ler mangás a preto e branco e bandas desenhadas como o Sin City [de Frank Miller] ou The Walking Dead [de Robert Kirkman e Tony Moore], criar arte sem cor tornou-se uma espécie de padrão pessoal. Tal como as bandas desenhadas que mencionei, bem como alguns grandes filmes a preto e branco, especialmente do género noir, estou constantemente fascinado com o que pode ser feito para criar contrastes e estados de espírito utilizando apenas o claro e o escuro. Para mim, as imagens a preto e branco deixam alguma da informação à imaginação do espectador, à semelhança do que uma história escrita faz ao leitor. Por exemplo, quando o céu está em branco numa imagem a preto e branco, pode deixar alguns espectadores com a impressão de que se está a retratar um dia cinzento, enquanto outros imaginam um céu azul e sem nuvens. Diria mesmo que a cor, em alguns casos, diminui o impacto da imagem quando adicionada ao desenho.»

      O traço de Andreas von Buddenbrock é fino, detalhado e realista, mesmo que fuja de saturações e prefira a linha clara. As imagens que vamos vendo desfilar pelas páginas de The Ink Trail são reconhecíveis, ainda que possamos não conhecer o sítio específico onde foram feitas, e não abrem espaço para qualquer domínio fantástico ou ficcional. Assumindo-se como registos, estas imagens não perdem, no entanto, o seu poder narrativo, havendo no alinhamento todo o espaço para que cada leitura se abra a deambulações próprias sem necessidade de saber se correspondem ou não às do autor. Não é de um guia que se trata, mas de um percurso, uma movimentação pelo espaço que obedece aos impulsos, à curiosidade, à vontade de desafio. De certo modo, também o desenho pode ser essa movimentação, na medida em que o gesto de riscar o papel é muitas vezes um percurso de pensamento, uma tentativa de perceber algo, de esclarecer – um lugar, um objecto, mas também uma situação. Para o autor, desenhar tem muitas razões: «Por um lado, é uma forma diferente de preservar algo que experimentei, em vez de, por exemplo, tirar uma fotografia, ainda que isso também possa ser uma óptima forma de captar uma cena ou um momento. Também gosto do facto de, quando partilho a obra de arte com outros, os espectadores poderem ver algo muito diferente do que eu vejo e poderem dar ao desenho um significado completamente diferente, mais relacionado com as suas próprias experiências pessoais.» Essa comunicação com os leitores cumpre-se efectivamente com a passagem do caderno pessoal do autor para o livro, desafiando-nos a estabelecer um diálogo no qual o autor permanece como intermediário, como criador da imagem com que dialogamos, mas já não decide ângulos, olhares ou interpretações.

      Por outro lado, há um prazer na elaboração destas imagens que contagia quem as vê, mesmo que seja incapaz de traçar uma linha que remotamente se pareça com um arranha-céus de Central ou com uma árvore. Buddenbrock confirma-o: «Gosto de me certificar de que o que estou a representar vai ser divertido de desenhar, mesmo, ou talvez especialmente, quando é um desafio. É quase como um problema a ser resolvido e quando finalmente se descobre a solução, pode ser imensamente gratificante.» Será um pouco como subir as montanhas de Kowloon sem perder o fôlego, ou descobrir o caminho certo por entre o mato da ilha de Lamma. Caminhando ou traçando linhas numa folha, o essencial estará no movimento e na capacidade de o sentir como pensamento. Do lado de cá da folha, agora em livro impresso, a liberdade de acompanhar esses gestos está toda guardada para os leitores.