Esta língua

0
32

Não sou bilingue. Creio que, agora, com esta idade, posso entregar-me a acreditar que nunca serei bilingue. Por muito que chegue a aperfeiçoar outras línguas, não me parece que venha a relacionar-me com nenhuma outra desta forma, tão imediata, instantânea quase. Se não passasse horas a escrever nesta língua, é bastante provável que, na grande maioria das vezes, não a sentisse, tal é o automatismo da ligação que existe entre os pensamentos e este material expressivo, esta matéria. Porque acredito que partilho esta sensação com muitos, penso que posso utilizar a primeira pessoa do plural para afirmar que a língua portuguesa se tornou parte de nós, indivisível daquilo que nos constitui. Ao contrário dos objectos que anotamos numa lista antes de fazer a mala, nunca nos esquecemos dela, levamo-la sempre para onde vamos.

 

Podemos estar na Times Square, nos Champs-Élysées ou a caminhar devagar pela Ponte Vecchio, em Florença, e começamos a escutar pedaços de frases em português. Algo como: “Ó Manel, anda cá ver isto.” Ou então: “Nem morto eu dou cinco euros por uma garrafa de água.” Levantamos a orelha perante palavras que, de repente, se distinguem irremediavelmente de todas as outras. A reacção que poderemos ter a essa surpresa depende de cada um. Pela minha parte, já tive as mais diversas reacções, algumas a serem um pouco embaraçosas de confessar. Exemplo: em Dubrovnik, acompanhado de um amigo, já caminhei ao lado de uma família de portugueses durante minutos, saindo do caminho que pretendia fazer, apenas para ouvir as suas conversas: tinham chegado de barco e, não sabiam onde, tinham apanhado piolhos. Se algum leitor se identificar com este episódio, em meu nome e em nome do Costa, apresento sentidas desculpas pela invasão de privacidade. Foi irresistível.

Quantas vezes terá acontecido o contrário? Quantas vezes íamos nós nos nossos “ó Manel” e nos nossos “nem morto faço isto ou aquilo” e algum português nos distinguiu da multidão? Rodeados por um país que não nos entende, depois de passarmos as fronteiras, habituámo-nos a ter a intimidade presente na nossa língua. Se forem como eu, já deverão ter praticado aquele desporto radical de dizer, em português, as maiores inconveniências à frente de estrangeiros que não percebem uma palavra. É gratificante o prazer momentâneo de exprimir aquilo que se pensa e que, normalmente, fica por dizer. Exemplo: dizer à frente do empregado do restaurante que a comida é uma porcaria, algo que nunca faria perante um empregado que me entenda. Faço parte daquele grupo de clientes de restaurante que, quando me perguntam se está tudo bem, digo sempre que sim, mesmo que não esteja. Confiando que o empregado não entende, o risco consiste na possibilidade de o restaurante ter um letreiro em que não se reparou, onde está escrito: “Fala-se português.”

Se estivermos na China, por exemplo, e ouvirmos alguém a falar português, independentemente do sotaque, a timidez diluiu-se e temos de ter uma conversa com essa pessoa. Aconteceu-me essa identificação imediata em Taiyuan, na província de Shanxi, onde estava a tentar pedir um gelado, com bastante dificuldade, até perceber que o empregado da gelataria tinha vivido em Moçambique e, por isso, falava português. Contou-me que havia muito que não encontrava ninguém e, por isso, às vezes, para não esquecer, adormecia à noite a manter conversas em português consigo próprio.

Muitas vezes, há estrangeiros, mesmo entre os que não falam português, a ensinarem-nos detalhes que desconhecíamos sobre esta nossa língua. Como quando nos confundem com russos e nos fazem reparar que pronunciamos os ésses no final das palavras no plural como xis. Ou como quando nos dizem que o português é uma língua com sonoridade doce. Essa sim, é uma grande lição: quando nos encontram qualidades que falhamos encontrar em nós próprios. Não porque somos modestos, mas porque não conseguimos ver.

Esta língua, que honra ver o mundo através dela.