2000 está cada vez mais longe

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L0013206 Skeleton with hourglass, 17th century Credit: Wellcome Library, London. Wellcome Images http://wellcomeimages.org Skeleton with hourglass. 1605 Theatrum Anatomicum Bauhin, Caspar Published: 1605 Copyrighted work available under Creative Commons Attribution only licence CC BY 4.0 http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/

 

E, no entanto, 2000 continua aqui. No ano 2000 publiquei dois livros, foram os primeiros livros que escrevi e que publiquei. O ano 2000 terá sempre essa importância para mim, nunca poderei ter publicado os meus primeiros livros noutro ano. Esse ano, esse número marca a minha vida.

Enquanto acontecia, creio que não me apercebi da grandeza que representava pertencer ao grupo dos que viveram uma passagem de milénio. No seu presente, esse não era um grupo restrito, todas as pessoas que existiam no mundo pertenciam a ele. No entanto, à medida que os anos passam, vão crescendo os que nasceram depois disso e, ao mesmo ritmo, vão desaparecendo alguns que estavam lá, contentes, a celebrar. Chegará o dia em que não restará nenhum de todos os que, no mundo, viveram essa passagem de milénio. Depois desse idoso, muitas e muitas gerações virão. 

No fundo, tratou-se de uma passagem de segundo, como os segundos que se sucedem agora. Neste momento, podemos fechar os olhos e senti-los a passar. Durante esse exercício, se não imaginarmos um relógio a medi-los, um início e um fim para cada um deles, não seremos capazes de distingui-los no tempo contínuo. Será como se tentássemos partir o silêncio em pedaços. 

Caspar Bauhin, séc. XVII

Em si, haverá segundos mais importantes do que outros? Os números têm a importância que lhes damos. Passámos a vida inteira a considerar os números que determinaram que aquele segundo fosse o último do velho milénio e, também, que o que lhe sucedeu fosse o primeiro segundo do novo milénio. Avaliamos toda a história que conhecemos de acordo com esses números, com essa contabilidade. Para nós, na cultura que aceitamos em tudo, que nos regula o olhar e os valores, esses números são como uma escala de todo o tempo que existiu. Esses números ordenam a memória e o horizonte. 

Os livros ocupam o tempo de uma forma diferente de qualquer objecto produzido pelo ser humano. Um edifício, por mais sólido, envelhece, desgasta-se, requer manutenção. O livro, no entanto, vence o desgaste do papel, a forma como atravessa o tempo não é física. O livro transcende o papel que o contém. Fisicamente, o livro é uma multidão de exemplares, o livro é o imenso rumor das palavras, as ideias, as emoções, a vida que transportam. Cada leitura é um tempo presente que se abre dentro de outro tempo presente: o momento em que o texto foi escrito e o momento em que é lido sobrepõem-se página a página.

Lembro-me bem de quando achávamos que o ano 2000 seria um futuro impossível. Lembro-me de imaginá-lo. O meu pai e o meu padrinho falavam com entusiasmo do ano 2000, nem um e nem outro lá chegaram. 

Pessoas insuspeitas falavam seriamente acerca do fim do mundo. Havia alguma excentricidade nessas teorias, mas não eram negadas sem apelo. O número 2000 assustava. Até os que achavam que o mundo continuaria tinham dificuldade em garanti-lo. À medida que nos aproximávamos, mesmo quando já faltavam poucos meses e semanas, havia notícias na televisão acerca dos computadores que não iriam aguentar a actualização da data, a passagem do 1 para o 2. 

Um milénio, eis uma medida de tempo que nos transcende. Para conhecê-la, para sabermos realmente o que representa, seria necessário que vivêssemos muitas vezes seguidas. Teríamos de passar repetidamente por aquilo que, para nós, é uma vida inteira, preenchida por todo o tipo de experiências e aprendizagens. 

Foi por isso que não entendi completamente a grandeza do que estava a testemunhar. É preciso levantar muito a cabeça sobre o que nos rodeia para ser capaz de avistar a distância de um milénio. O presente é uma muralha à nossa volta. Só a literatura e outros colossos são capazes de avistar paisagens desse tamanho. No último dia de 1999, terminavam mil anos e começavam mil anos. E não éramos capazes de conceber o mundo de há mil anos ou como seria o mundo daí a mil anos.

Além disso, havia os livros. No ano 2000, começava para mim uma vida de livros escritos e publicados, eu não era capaz de conceber tudo o que começava nesse ano. 

Indiferentes a números e calendários, os livros. Mesmo quando se reportam a assuntos especialmente datados, os livros não pertencem apenas ao momento da sua publicação, carregam no corpo o sentido do instante em que nasceram, histórico, social, civilizacional, mas continuam a produzir sentido em contextos que o autor nunca poderá imaginar. Os clássicos não são os livros antigos, do passado, são livros que continuam a acontecer, absolutamente presentes. São relidos por cada geração, interpretados, contraditos às vezes, e nessa reinterpretação o texto renasce. O tempo não o gasta, amplia-o.

Há também o tempo que é transportado no interior do texto. Um romance pode condensar décadas numa leitura que dura horas, pode suspender a cronologia, pode fazer coexistir passado, presente e futuro numa frase. O leitor, ao virar as páginas, abandona a lógica do relógio, do calendário, e entra numa lógica própria, onde a memória e a antecipação se regem por outras regras. Os livros são fábricas de tempo.

E, claro, existe a cronologia da transmissão. Se tiver sorte, um exemplar passa de olhar em olhar, é oferecido, herdado, vendido em segunda mão, viaja de estante em estante, atravessa mudanças políticas, tecnológicas, linguísticas. Mesmo digitalizados, mesmo fragmentados em ecrãs, os livros continuam a ser mecanismos de persistência. É comum que as palavras sobrevivam a quem as escreveu, à época que as gerou. Ao ler, convivemos com os mortos e com os que ainda não nasceram.