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Terça-feira, 7 de Fevereiro, 2023
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      Pessoa pessoal

      CRÓNICA

      Ouço ecos de Fernando Pessoa. Aqui, as palavras partem-se lentamente, espalham-se pelo chão. «Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte…» Se falar muito, as palavras encherão esta sala, e chegarão aos joelhos; depois, à cintura, ao peito; depois, ao pescoço. Em silêncio, poderei respirar. Entre palavras e silêncio, haverá esta hora absurda que Fernando Pessoa criou dentro do lugar interior onde sinto ou entendo. Há uma hora eterna e absurda que enche esse pedaço de mim. Em momentos, em horas, esse lugar envolve-me, como se me submergisse, obriga-me a respirar, como se me asfixiasse. Cansado, olho de frente para o cansaço. Não o atravesso, como diante de um túnel negro. «Ah, como esta hora é velha!…» Fico sentado e espero que passe. Eu seria feliz se as minhas palavras pudessem erguer o cansaço, levantá-lo no ar como o tronco cortado de um pinheiro a escorrer resina.

      Sei que sabes pouco sobre mim, não nos conhecemos, mas não te minto. Estas mãos, que passei sobre estas palavras, que seguraram cada um dos instantes desta hora, estão aqui. Podes vê-las. Podes tocá-las. Estas mãos que um dia estarão geladas sobre o meu peito gelado, estão aqui. Podes vê-las. Podes tocá-las. «O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos, / E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim.» Nas palavras, as minhas mãos aprenderam a segurar a hora que não passa, espectro de um martírio, sombra negra de um mistério. Tu, de repente, podes ser alguma coisa que me transforme. «Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!…/ Ah, se fôssemos as duas cores de uma bandeira de glória!…» Existe uma parede a crescer sobre mim. Aprendi longamente o ofício de uma hora absurda, o tempo de nascer, ser criança, e, depois da vida, morrer cansado e vazio. Uma hora que se repete e multiplica repetidamente. Aprendi para nunca mais esquecer. Nas palavras, as minhas mãos, estas mãos, moldaram o vazio.

      Não te pergunto o que não poderás responder nunca. «O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas…» Dói devagar a expressão gasta das manhãs que nunca encontraremos juntos. «Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso…» E os teus gestos. «E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas/ Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso».

      Se pudesse dizer alguma coisa para sempre, seria um rei a fumar cigarros intermináveis num salão infinito. As janelas teriam suficiente tamanho para sonhar. Eu possuiria certezas e poderia afirmar que o poeta é um fingidor. Haveria sorrisos à minha volta. O poeta seguraria uma rosa entre os dedos e fingiria tão completamente. Mas não tenho certezas, procuro em vão e chego a fingir que é dor a recordação de sonhar aquilo com que ainda sonho. Algo sobe pelas escadas gastas da minha memória, como a memória fingida de uma dor que deveras sinto.

      O poeta morreu, e os que leem o que escreve, caminham por onde não entendem: a curvatura das costas, as lentes embaciadas dos óculos, a piedade. Na dor lida sentem cada prega de um destino impreciso, como se ler fosse a explicação do mundo. O poeta morreu duas vezes. Havia deuses a olharem pelo poeta. Em cada gesto dos deuses, uma porta de fumo abria-se sobre o tempo. E assim nas calhas de um milagre desmesurado, deuses e poeta: o girar perpétuo de uma máquina que gira, a entreter a razão daqueles que, nas ruas, se encontram em olhares cruzados.

      «Não sei quem me sonho…» Chove chuva oblíqua. Na rua, passo por um homem que sacode do interior do guarda-chuva as notas gastas de um órgão de catedral. A rua é o silêncio fresco e o eco. As árvores alinhadas ao longo do passeio são o cheiro das velas que ardem há séculos. Visto um hábito dourado para atravessar a rua. Ajoelho-me diante de bancos de jardim. Há um espectro que me diz bom dia. «Não sei quem me sonho…» Chove chuva oblíqua. No porto, as gruas erguem do chão as folhas amarelas que caíram no outono. Os ramos secos do mar estalam debaixo dos meus pés. Navios chegam das raízes que, debaixo da terra, traçam mapas de rotas novas, acabadas de descobrir. Neste porto de navios de aço, o mar recorda tempestades de troncos caídos, relâmpagos e trovões sobre a paisagem. «Não sei quem me sonho…» Chove chuva oblíqua. «A Grande Esfinge do Egipto sonha por este papel dentro…/ Escrevo – e ela aparece-me através da minha mão transparente/ E ao canto do papel erguem-se as pirâmides…/ Escrevo – perturbo-me de ver o bico da minha pena/ Ser o perfil de Quéops…/ De repente paro…/ Escureceu tudo… Caio por um abismo feito de tempo…/ Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro/ E todo o Egipto me esmaga de alto através dos traços com que faço a pena…»

      Ai, que prazer, estar aqui e ser noite, ler palavras como se nas palavras existisse uma salvação de tudo aquilo que agora, estando aqui, lendo palavras, não imagino. Ai, que prazer, existir qualquer coisa pura e bela, tão distante do ideal de pureza e de beleza, que entra pela porta, talvez uma brisa, talvez o invisível que se passeia pelos rostos. Ai, que prazer, um livro fechado, Dom Sebastião sentado, Jesus Cristo calado. Falta uma citação de Séneca para pousar os meus braços sobre esta mesa, e a cabeça sobre os braços, e deixar-me adormecer. Esta noite é grande demais para que a poesia a substitua. As palavras rasgaram as capas dos livros. As palavras, as danças, estão lá fora, nas ruas, entre as crianças. Prazer, dever, ler, fazer, maçada, nada. Tantas palavras para falar de nuvens. Ai, que prazer, estar aqui e ser noite. Ai, que prazer, existir qualquer coisa pura e bela. Ai que prazer, um livro fechado, Dom Sebastião sentado, Jesus Cristo calado, e todos os ecos de me habitam, todos os ecos que me habitam, silêncio sobre silêncio.