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      ENTREVISTA

      Sara Figueiredo Costa

      NOVA EDIÇÃO DA PEREGRINAÇÃO, UM «CLÁSSICO INCONTORNÁVEL»

      Já se tornava difícil encontrar uma boa edição da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, nas livrarias. Sérgio Guimarães de Sousa abraçou a tarefa e, ao longo de quase um ano, fixou novamente o grande texto da literatura portuguesa de viagens, acompanhando-o de várias notas e de um texto introdutório. Com chancela da Assírio & Alvim, Peregrinação regressou aos escaparates e o Parágrafo falou com o seu editor sobre a tarefa hercúlea que permitiu esse regresso.

      Em 1614, vinte e um anos depois da morte de Fernão Mendes Pinto, publicava-se em Lisboa a Peregrinação. No frontispício da edição, impressa por Pedro Crasbeeck e a sua famosa casa tipográfica, e com o aval do Santo Ofício, lia-se a descrição do que aquelas páginas ofereciam: Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Em que dá conta de muitas e muito estranhas coisas que viu e ouviu no reino da China, no da Tartária, no do Somau que vulgarmente se chama Sião, no do Calaminhão, no Pegú, no de Martavão, e em outros e muitos reinos e senhorios das partes orientais, de que nestas nossas do ocidente há muito pouca ou nenhuma noticia. E também dá conta de muitos casos particulares que aconteceram assim a ele como a outras muitas pessoas e no fim dela trata brevemente de algumas coisas e da morte do Santo Padre Mestre Francisco Xavier, única luz e resplendor daquelas partes do Oriente e nelas Reitor Universal da Companhia de Jesus.

      Mais de quatro séculos depois desta impressão, o texto de Fernão Mendes Pinto volta a ter uma edição integral, disponível para os leitores que não tenham tido acesso às edições anteriores, há muito desaparecidas das livrarias. Sérgio Guimarães de Sousa tem desenvolvido o seu trabalho de pesquisa no Centro de Estudos Mirandinos, que dirige, sediado em Amares (Minho) e dedicado ao estudo da figura e da obra de Francisco de Sá de Miranda e, mais latamente, do século XVI. Foi neste contexto que o investigador preparou esta nova edição da Peregrinação, a convite da editora Assírio & Alvim, trabalho que lhe ocupou cerca de dez meses em regime de dedicação intensa, como contou ao Parágrafo: «Foi um trabalho bastante exigente, mas compensador, dada a extraordinária riqueza do texto de Fernão Mendes Pinto. Acresce ainda o facto de a Peregrinação ser um dos mais importantes textos da nossa literatura de viagens. Tornava-se, pois, urgente disponibilizá-lo em nova edição. É um clássico incontornável da nossa história literária e um documento de primeira relevância para se perceber a presença portuguesa na Ásia no século XVI, além de constituir uma fonte histórico-cultural preciosa sobre o Oriente daquela época.»

      Dar a ler aos leitores do século XXI um texto escrito e impresso no século XVI exige, além de um meticuloso trabalho, uma série de decisões sobre questões ortográficas, uma vez que as grafias utilizadas na época são muito distintas das actuais. Na verdade, o que se lê no frontispício da primeira edição deste livro é em que da conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouuio no reyno da China, no da Tartaria , no do Sornau, que vulgarmente se chama Sião, no do Calaminhan, no de Pegù, no de Martauão, & em outros muytos reynos & senhorios das partes Orientais, de que nestas nossas do Occidente ha muyto pouca ou nenhua noticia. As decisões editoriais de Sérgio Guimarães de Sousa passaram, portanto, pela aproximação ortográfica ao nosso tempo, sem alterar qualquer outro elemento textual: «Sem desvirtuar minimamente o texto original, ou seja, mantendo totalmente o discurso de Mendes Pinto, atualizei a grafia, mantendo, contudo, certas marcas lexicais da época, como sejam alguns arcaísmos. E também mantive, dado tratar-se de um texto também literário – ou seja, imbuído de um ritmo narrativo próprio – a pontuação. A opção por uma atualização da grafia visa facilitar a legibilidade do texto. Convirá não esquecer que se trata de um texto pautado por uma forte alteridade histórica. Torná-lo legível a um público alargado foi, seguramente, uma preocupação desta edição.»

      Viagens e aventuras sem glória

      É no vasto campo da literatura de viagens que mais facilmente enquadramos um livro como a Peregrinação. É disso que trata Fernão Mendes Pinto, de uma viagem, ou de várias, e do seu registo pela voz de um narrador cujas escolhas de itinerários, pontos de vista e cenários a destacar serão decisivas para o tom geral da obra. Apesar disso, o texto não obedece a uma estrutura rígida de género que o arrume de modo definitivo numa qualquer categoria literária e essa é, aliás, uma das características definidoras de um clássico, a pluralidade de abordagens de leitura motivada pela riqueza de sentidos. Será por isso que esta prosa continua a encontrar novos leitores, apesar de tão distante do nosso tempo, como defende Sérgio Guimarães de Sousa: «Um texto como a Peregrinação atinge, forçosamente, vários públicos, dada a sua natureza heterogénea. Mas mais do que tudo é um dos três ou quatro grandes textos do nosso património literário, razão pela qual deve ser lido e – atrevo-me a dizer – relido. E de preferência com demorada atenção. Nele encontramos um manancial de informações verdadeiramente impressionante.»

      A viagem de Fernão Mendes Pinto começará em Lisboa, no ano de 1537, quando embarca numa caravela que tem a Índia como destino. Passará, ao longo dos anos seguintes, por vários lugares dessa terra a que chamamos Oriente: além da Índia, Malaca, Java, Samatra, China, Macau e Japão, umas vezes exercendo o ofício de soldado, outras de pirata, umas vezes sendo comerciante, outras um leigo ao serviço da Companhia de Jesus. O tema da viagem atravessa todo o livro e à volta dele se organiza boa parte da narrativa, descrevendo rotas, desembarques, lugares visitados pela primeira vez e pessoas que habitam esses lugares, mas onde um mero diário de viagem sugeriria descrições detalhadas e uma enumeração topológica e cronológica devidamente organizada para melhor recepção do leitor, Fernão Mendes Pinto arrisca outros modos de narrar. Assim, ao itinerário empreendido e à descrição dos vários pontos de paragem juntam-se apreciações sobre atitudes alheias, reflexões sobre a natureza humana e pequenas histórias anedóticas que hão-de perdurar. E juntam-se igualmente informações detalhadas sobre rotas marítimas, percursos terrestres, urbanismo, religiões, costumes, organização política, direito e práticas penais e todo um rol de dados que contribuirão para a importância histórica e documental que este relato também tem, ao contrário do que parece querer mostrar o trocadilho feito lenda, Fernão, mentes? Minto. Sobre essa ideia, Sérgio Guimarães de Sousa é muito claro: «A conhecida fórmula: «Fernão Mendes? Minto» é profundamente injusta. Porque, como explico na introdução, todos os aventureiros mentiam. Mentiam porque perspetivavam a realidade nova que viam à luz, como não podia deixar de ser, de uma determinada constelação de valores. Ou seja, socorriam-se do que sabiam e da linguagem de que dispunham para descrever uma realidade inédita e para a qual ainda não havia distanciamento crítico-analítico nem tempo suficiente para uma perspetivação histórica. Se hoje desembarcássemos num planeta desconhecido, as informações que enviaríamos para a Terra seriam elaboradas em função dos nossos padrões cognitivo-mentais enquanto habitantes do planeta Terra e da nossa linguagem.»

      É possível que o facto de a Peregrinação apresentar uma leitura da expansão portuguesa que se opõe a um certo imaginário colectivo associado à ideia de descoberta e troca cultural, mostrando um outro lado, pouco luminoso e algo degradante, desse avançar por mares e terras das caravelas e de quem nelas viajava, tenha ajudado a dar corda a esta ideia da mentira plena. Como explica o responsável por esta nova edição, «mesmo com algumas passagens pautadas por exageros e imprecisões, a verdade é que o relato de Mendes Pinto é bem mais historicamente consequente do que outros relatos. Porque não obedece a um propósito épico-elegíaco, ao contrário do que sucede com Os Lusíadas, por exemplo. Com Mendes Pinto, o que temos é a descrição, sem complacências, do colonialismo português na Ásia. O autor não se inibe de descrever episódios cruéis e atrozes, exemplificativos de como foi a expansão portuguesa por terras do Oriente. E revela, com isso, uma estupenda simpatia, para não dizer mesmo empatia, para com os povos e os costumes orientais, o que é – convenhamos – algo de espantoso no século XVI. Sobretudo vindo de português, para todos os efeitos, colonizador. É que Mendes Pinto foi, talvez sem consciência plena disso, um humanista.»

      A guerra é a guerra…

      Tendo em conta os padrões editoriais e livreiros da época em que foi publicada, a Peregrinação teve uma enorme fortuna crítica e de recepção no mundo letrado europeu. Para Sérgio Guimarães de Sousa a explicação é esta: «O sucesso da Peregrinação foi notável e continua a sê-lo, sendo talvez o livro português mais traduzido no mundo, ou um dos mais traduzidos. E não é difícil perceber a razão disso: a Europa estava ávida de informações sobre o Oriente, região do globo sobre a qual alimentava visões exóticas, quando não fantasmagóricas. A Peregrinação veio preencher, assim, um vazio. Deu a conhecer, sob a forma de uma narração empolgante, o Oriente aos ocidentais. Foram várias as reedições da obra, traduzida nas mais importantes línguas europeias. Um caso de grande sucesso, dificilmente igualável.»

      Esse conhecimento de parte do Oriente trazido até aos ocidentais pela pena de Fernão Mendes Pinto passou também por Macau. Se as referências ao território que hoje conhecemos no texto da Peregrinação propriamente dito não são fáceis de cotejar, há, ainda assim, uma carta do autor escrita que se cruza com Macau e a sua história, como conta o editor: «Há, de facto, uma carta de Mendes Pinto, enquanto jesuíta, datada de 20 de novembro de 1555, escrita a partir de Macau. É indicativa da crescente importância que essa região, em termos geo-estratégicos, foi ganhando no processo da colonização portuguesa oriental. E é, para todos os efeitos, um documento importante, na exacta medida em que, até prova em contrário, é a primeira carta datada de Macau escrita por um português.»

      Ao conhecimento sobre terras distantes e então pouco conhecidas nas longitudes europeias, a Peregrinação juntou uma vertente satírica, crua e muitas vezes picaresca dessas viagens que os portugueses fizeram pelo Oriente. Das fugas apressadas aos negócios mal-sucedidos, das contendas pouco heróicas às personagens que ganharam vida própria sem que a História as tenha celebrado em louvores (lembremos Coja Acém, o corsário, um entre tantos), o livro de Fernão Mendes Pinto não canta as imaginadas glórias nacionais nem a suposta bondade de quem chegava a terras estrangeiras com o desejo apontado às riquezas que por lá haveria. O que nos conta é uma viagem, muitos tropeções e uma necessidade de sobrevivência aplicada em soluções imaginativas e quase sempre inesperadas. Escute-se Por Este Rio Acima, o disco em que Fausto Bordalo Dias mergulha no texto de Fernão Mendes Pinto, fazendo nascer versos como os que cantam, em “A guerra é a guerra”, Foge saloio, eh parolo/ Aguenta António de Faria e a fidalguia/ Todo o massacre e todo o desconsolo/ Que já lá vem o Coja Acém e o mar a arder.

      Tanto tempo depois, a Peregrinação continua a falar connosco, como sempre fazem os clássicos, e os séculos que separam a primeira edição da obra de Fernão Mendes Pinto dos tempos que nos couberam em sorte não revelaram grandes diferenças na virtudes ou nas misérias da natureza humana. Para o confirmar, está aí esta nova edição de uma das grandes obras da literatura em português.