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      InícioCategorias do ParágrafoCulturaTradição e modernidade em Beishan

      Tradição e modernidade em Beishan

      A velha aldeia do distrito de Zhuhai está transformada numa plataforma de promoção das indústrias culturais de Macau.

      Sendo a cidade vizinha de Macau, Zhuhai sempre foi um dos locais mais visitados pelos residentes locais. Antes da pandemia, era comum passarem ali fins de semana ou fazerem incursões ainda mais breves, para compras, um jantar ou uma massagem. Embora as restrições relacionadas com a pandemia tenham afectado a mobilidade entre as duas cidades, há quem ainda encontre forma de visitar Zhuhai com alguma frequência, a fim de explorar possibilidades que possam surgir, mesmo nestes tempos algo sombrios em termos de desenvolvimento económico.

      E há quem o tenha feito antes e se tenha, inclusive, mudado para Zhuhai. “Viver em Macau tornou-se realmente demasiado caro”, diz o cofundador do festival This is My City (Macau), Manuel Correia da Silva. “Mudei-me para Zhuhai há cerca de oito anos porque as rendas em Macau eram e ainda são demasiado altas”. Actualmente a trabalhar como curador e produtor independente, explica que Zhuhai lhe abriu um novo espaço. “A cidade é muito maior e, em termos de zonas verdes, tem muito mais a oferecer do que Macau”.

      Nos últimos dois anos, devido às restrições resultantes da pandemia, Manuel teve de se submeter a várias quarentenas em Macau e Zhuhai. “E então percebi que é provavelmente mais realista fazer a minha vida aqui em Zhuhai, em vez de andar para trás e para a frente”, afirma.

      Em 2021, com a ajuda da sua parceira Ivana Jovanovic (Iva), Manuel encontrou um contentor para arrendar na cidade de Zhuhai; mais rigorosamente, na aldeia de Beishan. “Sou de Belgrado, vivo na China há cerca de 4 anos e mudei-me para Zhuhai em 2018”, diz Iva, em jeito de apresentação. Veio para a China para trabalhar como professora de inglês apenas por alguns meses, mas a estadia acabou por prolongar-se e está agora a gerir, a meias com Manuel, o espaço de arte “Estação Beishan”.

      “Zhuhai é uma cidade grande e há um número significativo de estrangeiros a viver aqui. Mas, surpreendentemente, não havia muitos lugares onde pudesse encontrar eventos culturais, até que descobri Beishan”. Iva explica ainda que sentiram a necessidade de acontecimentos culturais que passassem por intercâmbios entre estrangeiros e chineses locais – e daí que tenham começado a fazer projecção de filmes europeus numa cafetaria gerida por Michelle, uma senhora chinesa de Zhuhai. Conversa puxa conversa, Michelle revelou-lhes que o espaço do contentor por cima do seu café estava disponível para arrendar, oportunidade logo aproveitada.

      “O valor da renda é razoável, por isso decidimos ficar com ele”. diz Manuel. “O espaço foi inicialmente planeado para ser o meu estúdio, mas começámos a curadoria de alguns eventos musicais e agora com o professor Luciano Zubillaga estamos a planear conferências e eventos de intercâmbio sobre o Futurismo na China”. A Estação Beishan funciona agora como espaço alternativo para eventos de arte, cultura e música através de uma plataforma multidisciplinar. Músicos e artistas são convidados a actuar ao vivo e todos os ingressos são baseados em doações.

      “Adoptámos este conceito de ‘cada um pagar o que quiser’, porque não queremos impor a nós próprios a ideia de receitas de bilheteira”. esclarece Iva. Para além das doações, o espaço é rentabilizado também através da venda de cerveja portuguesa, pequeno negócio que está a conhecer um razoável sucesso.

      “Tenho um estilo de vida muito simples aqui em Zhuhai”, conta Correia da Silva. “Todas as manhãs chego a este espaço pedalando a partir da minha casa, mesmo atrás do túnel da montanha, na parte norte de Zhuhai. E fico aqui toda a tarde a trabalhar e a conhecer pessoas. Aliás, são tantos os transeuntes que vêm visitar o espaço que por vezes se torna difícil concentrar-me no meu trabalho”, ri-se, antes de acrescentar: “Adoro esta exposição muito local, aqui no meio do Beishan”.

      A aldeia de Beishan está situada na zona norte de Zhuhai. A partir de 2009, a aldeia sofreu uma progressiva transformação em polo de indústrias criativas, graças à acção de um homem persistente e com uma visão para o futuro centrada na arte, na cultura e no design. Simone Xue, conhecido como o “Reitor” entre os amigos, é o homem por detrás do projecto. O pai, Xue Yi Han, já falecido, era pintor e foi na aldeia de Beishan, ao longo de muitos anos, que fez a maioria dos seus esboços. “A ideia de preservar a aldeia foi do meu pai. Após a sua morte, o meu irmão Justin e eu finalmente decidimos fazer algo a esse respeito porque, caso contrário, os promotores imobiliários provavelmente mandariam demoli-la, para construir novos edifícios”, explica Simone.

      “Tenho um estilo de vida muito simples aqui em Zhuhai. (…) A cidade é muito maior e, em termos de zonas verdes, tem muito mais a oferecer do que Macau” – Manuel Correia da Silva

      Os dois irmãos, ambos também pintores, lançaram mãos à obra e renovaram, pela primeira vez de raiz, o Beishan Hall, núcleo histórico mais importante da aldeia. Investiram 2,5 milhões de renminbi e passaram dois anos em obras de renovação, do edifício principal (hoje uma galeria de arte) e também do templo e do teatro que lhe são vizinhos. “Fizemo-lo sem saber exactamente para onde o projecto nos iria conduzir. Renovar habitações tradicionais não era comum na China. Muitos teriam preferido construir novas casas em estilo ‘tradicional’, em vez de preservar edifícios antigos, que requerem mais tempo, trabalho e design especializados, e mais dinheiro”, explica o mentor do projecto. “Zhuhai não tinha nenhum exemplo anterior de iniciativas deste tipo, nem uma boa parte do país, na verdade. Foi como se nos tivéssemos desviado de uma estrada bem conhecida para percorrermos um caminho alternativo, que só agora começávamos a explorar”.

      “Renovar habitações tradicionais não era comum na China. Muitos teriam preferido construir novas casas em estilo ‘tradicional’, em vez de preservar edifícios antigos, que requerem mais tempo, trabalho e design especializados, e mais dinheiro. (…) Foi como se nos tivéssemos desviado de uma estrada bem conhecida para percorrermos um caminho alternativo, que só agora começávamos a explorar”” – Simone Xue

      Em 2010, Simone e o seu amigo francês Jean-Jacques Verdun, também residente em Zhuhai, fundaram o Festival de Música de Beishan, que logo deu origem a dois diferentes eventos: o Festival de Jazz de Beishan, no Outono, e o Festival de Música do Mundo, na Primavera. “A ideia de trazer música para a cidade seguiu-se a uma primeira tentativa de atrair gente com a galeria de arte, mas percebi que a música é mais acessível ao público em geral”, justifica. “A música é uma língua universal, sem barreiras linguísticas. Pessoas de todas as origens e modos de vida podem juntar-se a nós e desfrutar”. Antes da pandemia interromper a realização regular dos eventos, ambos os festivais conheceram um sucesso significativo junto do público local e das regiões vizinhas de Macau e Hong Kong.

      Benny Lo é outro nome importante associado ao projecto. Em 2011, produtor comercial e televisivo em Hong Kong há mais de uma década, regressou a Macau para trabalhar com músicos e outros artistas da RAEM interessados em actuar noutras cidades da região. “Zhuhai foi uma escolha óbvia, ainda que as duas cidades, mesmo sendo próximas como duas irmãs, não tenham na verdade muitas ligações entre elas”, observa o produtor, responsável pela passagem de vários artistas de Macau pelos palcos dos festivais de música de Beishan.

      Em 2020, suspensos temporariamente os eventos devido à pandemia, “a crise permitiu-nos repensar a estratégia”, recorda agora Simone. “O que aconteceu foi que estávamos já a preparar o terreno para que Beishan pudesse tornar-se num lugar culturalmente viável, onde as pessoas viessem mostrar o seu talento e os seus produtos. Não temos estado a ganhar dinheiro, mas temos sempre em mente que a qualidade artística e cultural deste espaço é o principal objectivo do projecto”. Com o nascimento de uma nova estratégia, Simone e Benny passaram a dedicar maior atenção aos produtos de Macau, e em particular aos gastronómicos.

      “Primeiro estabelecemos em Beishan a Goodone, vendendo produtos de design de regiões próximas e reservando uma área para os produtos de Macau”, conta Benny. “Ao mesmo tempo, abordámos diferentes restaurantes e marcas de alimentos em Macau, para que também eles viessem para Beishan”.

      Como explica Simone, os jovens de Zhuhai têm agora grande dificuldade em viajar para o exterior, pelo que passaram a ser maiores consumidores da arte e da cultura que lhes é oferecida localmente. Com base nestas necessidades crescentes, o modo de operar o negócio foi reajustado. “Baseia-se em colaborações. Não somos proprietários que apenas procuram empresas para entrar e arrendar os nossos espaços. Ajudamo-los a encontrar um local adequado, fornecemos-lhes serviços para a concepção das lojas ou dos restaurantes e encarregamo-nos do desenho da marca e da estratégia de marketing, com base no que temos observado como sendo as principais tendências do mercado ao longo dos anos. Eles só precisam de nos dar os produtos e nós implantamo-los no solo agora fértil do Beishan”. afirma Simone, com orgulho indisfarçado.

      Os resultados têm sido muito positivos. Bom exemplo disso é Chan Kee, com o seu restaurante especializado em Arroz de Frango de Hainão. Residente de Macau originária de uma família ligada à indústria do abastecimento de alimentos, Chan era já proprietária de um restaurante em Zhuhai, na rua dos bares de Shuiwan. “Vim para abrir o restaurante há 12 anos. A minha família é proprietária de um negócio alimentar em Macau e, nessa altura, preparava-me para emigrar para a América, quando me pediram ajuda para montar um restaurante em Zhuhai”, conta. “Aceitei, mas decidida a partir assim que o negócio estivesse bem estabelecido; só que essa oportunidade nunca surgiu”. Com raízes cada vez mais fortes em Zhuhai, viu-se então a abrir mais um restaurante, agora em Beishan. “Quando Simone e o Benny me abordaram, pensei por que não? O negócio na rua dos bares estava em declínio devido à pandemia e eu tinha de encontrar outras saídas. Eles ajudaram-me a montar tudo. Só preciso de preparar os melhores pratos que alguma vez fiz, com base agora em mais de uma década de experiência neste ramo”.

      Levou dois meses a renovação do local escolhido para o restaurante, uma das casas tradicionais de um pequeno beco típico de Beishan. Pouco tardou depois da abertura para que, dia após dia, se formassem à porta do restaurante filas de clientes atraídos pelo sabor único da famosa galinha de Hainão. “Fizemos dinheiro suficiente para cobrir o investimento em apenas um mês, e já expandimos o restaurante para a praça dos fundos da casa. Cozinhamos e vendemos agora 80 a 90 galinhas por dia. As pessoas gostam mesmo dos nossos pratos”, diz a senhora Chan, olhando com satisfação para o restaurante completamente lotado.

      “Eu sabia muito pouco de tendências ou de redes sociais. Mas a equipa de Beishan ajudou-me a desenvolver toda a imagem de marca e alertou-me também para a importância do marketing online para quem abre negócios na China Continental”, recorda a empresária. “Não é fácil iniciar um negócio numa área em que não se está familiarizado, mas com esta colaboração entre Macau e Zhuhai, tudo se tornou mais eficaz e interessante”.

      Na realidade, a imagem de marca adoptada por Chan Kee foi executada por uma empresa de design de Macau, a Mo-Design. Chao Sio Leong, fundador da companhia, é também um dos proprietários de um bar recentemente inaugurado em Beishan, sendo certo que “o Darling é muito mais do que um simples bar”, como explica. “Queríamos estabelecer uma plataforma onde diferentes eventos pudessem aqui realizar-se, como espectáculos de música, exposições, palestras e performances”. O nome do bar, Darling, foi buscá-lo a um conhecido estabelecimento de sauna e massagens de Macau. “O nosso objectivo é revitalizar elementos de Macau em termos de design e identidade cultural, os quais podem não nos trazer lucro financeiro imediato, mas ajudam à construção de laços que nos vão servir por muito tempo”, salienta.

      “A equipa de Beishan ajudou-me a desenvolver toda a imagem de marca e alertou-me também para a importância do marketing online para quem abre negócios na China Continental” – Chan Kee

      A abertura do bar é o resultado de anos de experiência de trabalho na China Continental, na área do design. “Temos projectos em Zhuhai, mas também em Xangai e noutras cidades chinesas, bem como no estrangeiro, como no Japão. Mas, devido à pandemia, começámos a concentrar-nos em cidades mais próximas e Zhuhai é uma escolha óbvia”, afirma. Chao Sio Leong mudou-se desde então para Zhuhai, onde vive com a mulher e os filhos. “Todos os dias levo os meus filhos à escola aqui em Zhuhai, e depois vou para o meu escritório no Centro de Design Zhuhai-Macau, para orientar os meus colegas nos projectos aqui baseados. Depois, durante a tarde, conduzo até ao meu escritório da Mo-Design, em Macau. Quando termino o dia de trabalho, conduzo de regresso a Zhuhai, graças à muito conveniente carta de condução reconhecida simultaneamente em Macau e na China Continental”.

      Como presidente da Associação de Designers de Macau, Chao tem como grande objectivo que os profissionais desta área ajudem a sedimentar a identidade do território e a idealizar uma visão para os caminhos a seguir no futuro. “Macau é demasiado pequeno”, diz, “para quem ambicione crescer e ter maiores oportunidades na vida”.

      “Macau é demasiado pequeno para quem ambicione crescer e ter maiores oportunidades na vida” – Chao Sio Leong

      Como lembra a sabedoria popular, com a crise nascem as oportunidades. A pandemia não impediu que todos estes empresários dessem importantes passos na sua vida profissional. Pelo contrário. Com visão e coragem, investiram no momento e no local certo para tornarem os seus sonhos realidade, quando tudo parecia desaconselhá-lo. Agora, é continuar a crescer e esperar até que a vida volte a dar cartas.