As imagens também se lêem. Para uma literacia mais completa do mundo à nossa volta e dos livros e publicações que foram ajudando a dar-lhe forma, seria melhor que nos agarrássemos a esta ideia e deixássemos cair o cliché da imagem valer mais do que mil palavras. Não é uma contenda. Os livros com imagens não são apenas junção do verbal e do visual. As duas categorias dialogam, umas vezes de modo mais directo, através da ilustração, outras de forma imbricada, imagem e texto convocando-se mutuamente, criando relações de dependência absoluta, uma dizendo o que o outro sugere, ou vice-versa. Banda desenhada, narrativas visuais de toda a espécie, sequências de imagens sem texto, tudo isso exige leitura. Do outro lado, o da criação, não há menos esforço por haver menos palavras, algo que já teríamos colectivamente assumido se não houvesse um mercado a insistir na ligação entre texto e complexidade e entre imagem e simplicidade, ou na ideia de que livros com imagens são para os mais novos, de preferência apenas para os que ainda não sabem ler. Percorrer a obra de António Jorge Gonçalves é uma boa forma de confirmar tudo isto, abandonando preconceitos verbais e encontrando múltiplos universos, camadas de significação a desafiarem-nos para o mundo, narrativas onde a imagem desconcerta ou ilumina possibilidades de relação com o que nos rodeia que ainda não havíamos vislumbrado. Depois de passar por Macau, onde participou no Festival Literário Rota das Letras (integrando o concerto Samba de Guerrilha, onde desenhou ao vivo, e mostrando o seu trabalho numa masterclass), António Jorge Gonçalves conversou com o Parágrafo sobre os seus livros, o desenho e o modo como este define a sua inscrição no mundo. E sobre uma carreira que leva trinta anos de publicação.
Nesta edição, o cinema toma conta de duas páginas. Entre um filme antigo (de Edward Ludwig) e outro acabado de estrear (de Wang Bing), abandonamos de vez a ideia de uma guerra entre palavras e imagens e rendemo-nos ao grande ecrã, sabendo que os livros nunca andam muito longe dessa tela mágica. Nas leituras do mês, viajamos pela China com o Conde de Arnoso e juntamo-nos à merecida homenagem a Henrique de Senna Fernandes no centésimo aniversário do seu nascimento.
Voltaremos no fim do ano, com mais livros e leituras, tentando não falhar balanços e previsões.Até lá.











