Nunca me interessei por ler livros adequados para a minha idade. Durante a minha adolescência, se me afirmavam que um livro era adequado para a minha idade, perdia imediatamente o interesse. Passei a adolescência a sonhar com a idade adulta.
Os dezoito anos tornaram-se possíveis quando fiz treze. Só então consegui começar a imaginá-los. Antes disso, eram uma abstração como outras que não entendia, como outras coisas que imaginava que iriam acontecer no futuro, mas o futuro era vasto e tudo isso era demasiado distante. Com treze anos, escolhia as roupas que vestia, irritava-me quando me chamavam criança, e comecei a perceber que os dezoito seriam sinónimos de liberdade. Foi então que começou o tempo em que pensava: quando eu tiver dezoito anos, reticências. Se a minha mãe não me deixava fazer qualquer coisa, se não podia entrar num sítio onde entrava toda a gente, pensava: quando eu tiver dezoito anos. Sei agora que essa era uma resposta fácil para quase tudo o que, com treze, catorze, quinze anos, eram os meus pequenos problemas: o quarto desarrumado, um teste de matemática, a minha mãe a falar-me do quarto desarrumado ou de um teste de matemática.
Agora, tenho dificuldade em enumerar o que achava que iria fazer quando tivesse dezoito anos. Talvez acreditasse que iria fazer tudo. Acreditava que, quando tivesse dezoito anos, saberia encontrar solução para todos os problemas. Intimamente, acreditava que, quando tivesse dezoito anos, saberia como concretizar todos os sonhos. A partir dos treze anos, os aniversários sucediam-se lentamente em direcção a essa meta. Muitas vezes, parecia-me que o tempo era demasiado lento. Os anos, à força de serem vividos, demoravam muito tempo a passar. Quando tinha catorze anos, achava-me muito mais velho do que os rapazes de treze; quando tinha dezasseis, achava-me muito mais velho do que os rapazes de quinze e tratava por criança os treze, que ficavam zangados, que talvez pensassem: quando eu tiver dezoito anos, e rosnavam em silêncio.
Nunca tive grandes festas de aniversário. Quando fiz cinco anos, a minha mãe tratou de tudo, bolos, prendas, convites. As crianças que costumavam brincar comigo na minha rua apareceram todas em minha casa com roupas que não usavam quando jogávamos à bola. Essa foi a única festa de aniversário que tive até hoje. No dia em que acordei com dezoito anos, a manhã tinha a claridade suave que sempre têm os inícios de Setembro. Até ao fim da tarde, fiz qualquer coisa que já me esqueci. Nessa altura, chegou o meu primo. A minha mãe tinha feito um pão-de-ló. Eu e o meu primo sentámo-nos na sala, sem nada para dizer um ao outro, a comer pão-de-ló. Talvez tenha sido mesmo nesse dia que senti o peso de ter dezoito anos. Olhei para o tempo que tinha passado a pensar: quando eu tiver dezoito anos. Antes as pessoas perguntavam-me, como ecos umas das outras: o que é que queres ser quando fores grande? Eu já tinha dezoito anos, já era grande, e ainda não era o que queria ser. Não me sentia diferente da véspera. Já podia ler qualquer livro, aparentemente passaram a ser todos adequados para a minha idade e, no entanto, sentia-me igual à véspera, quando ainda não podia nem votar, nem tirar a carta de condução.
No dia em que fiz dezoito anos, percebi que ainda não era o que queria ser. É difícil enumerar o que eu queria ser, porque eu queria ser tudo. Foi preciso algum tempo para perceber que os sonhos que comecei a ter aos treze anos se iriam concretizar de maneiras ainda mais incríveis do que aquelas com que os tinha sonhado. Mesmo o amor, quando o encontrei, era maior do que aquele que imaginava, porque era real, era verdadeiro.
Foi preciso ainda muito para perceber que o tempo, antes e depois dos dezoito anos, é sempre feito de metas, fronteiras no futuro que avançam na nossa direcção. Hoje, continuo a imaginar sonhos, mas esperando ser surpreendido, desejando que se concretizem de maneiras ainda mais incríveis do que aquelas com que os sonho. E leio todos os livros que me apetece. Os mais adequados são os que tenho vontade de ler. Agora, sou um adolescente feliz.









