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      CRÍTICA

       

      Susana Moreira Marques

      Lenços Pretos, Chapéus de Palha e Brincos de Ouro

      Companhia das Letras

       

       

      Entre 1947 e 1949, a jornalista Maria Lamas percorreu Portugal em diversas jornadas e falou com as mulheres que encontrou pelo caminho. O resultado publicou-se em fascículos que deram forma a um livro que foi denúncia profunda do regime de Salazar (sem que o regime tenha dado por isso) e continua a ser marco de uma história comum, pouco falada e talvez não tão encerrada no passado como poderíamos acreditar. As Mulheres do Meu País é esse livro e Susana Moreira Marques percorreu-o, como Maria Lamas percorreu o país, na preparação de um documentário de Marta Pessoa para o qual escreveu vários textos, documentário entretanto filmado e estreado, Um Nome Para o Que Sou.

      Lenços Pretos, Chapéus de Palha e Brincos de Ouro inaugura a nova colecção de não-ficção literária da Companhia das Letras e compõe um objecto de leitura de difícil classificação. Não que seja relevante essa dificuldade (que em nada interfere no processo de leitura), mas será relevante assinalá-la no sentido em que a arrumação dos géneros editoriais e literários tende a forçar certas guias, tantas vezes uniformizando escritas que pediam outras liberdades e acabando por uniformizar o modo como chegamos aos livros. Neste caso, essa dificuldade de classificação é o reflexo da imensa liberdade de uma escrita que vai navegando entre o registo de viagem, a reflexão sobre a sociedade, a memória e a história, a preocupação de reportar o que se vê e uma partilha generosa sobre o que vai pensando quem escreve à medida que escreve. Esta partilha não é mero acesso a um pensamento e ao quadro emocional que o acompanha, sempre em mudança, é sobretudo acesso ao percurso, nada linear e tantas vezes desconfiando de si mesmo e das suas aparentes certezas, que esse pensamento vai traçando no papel.

      Há uma viagem, então, que são várias. Susana Moreira Marques vai registando passagens por lugares, visitas a casas particulares e espaços públicos, passeios pelos campos onde se reconhecem caminhos, penedos, árvores. A narradora procura nesses lugares os lugares por onde Maria Lamas passou, e procura também algumas das mulheres que a jornalista fotografou para esse livro do século passado. Quer saber se ainda vivem, como estão agora, até que ponto se reconhecem, a si e à sua vida, nas imagens antigas. A maioria já terá morrido, mas nem isso impede a viagem, nem o livro de Maria Lamas é apenas um registo do que já passou. A dada altura, diz a narradora: «Demoro algum tempo a dar-me conta de que o livro de Maria Lamas também é sobre mulheres que estão vivas e que não podiam já ter nascido no tempo em que ele foi escrito, mas depois é difícil não estar sempre a encontrar parecenças entre histórias de então e histórias demasiado recentes.» (pg.58) O reconhecimento do tanto que o país mudou depois do 25 de Abril não se antagoniza com a verificação do tanto que permaneceu igual. Essa permanência não passa pelas condições de vida, pelo acesso ao saneamento, à escolaridade e à saúde, pelos direitos ou pelos costumes. Aí, quase tudo mudou e o livro de Moreira Marques reconhece-o plenamente, e celebra-o de diversos modos, nomeadamente quando regista as perguntas que a sua filha, ainda pequena, faz perante as fotografias de mulheres descalças e com carregos à cabeça, crianças que trabalhavam em vez de estarem na escola ou a brincar, sinais gritantes de miséria que atravessam um país e que hoje, aos olhos de uma criança, são difíceis de compreender. O que não mudou estará mais nos gestos, nas esperas, nas palavras e no modo como se usam, coisas que convivem sem conflito aparente com a modernidade tecnológica, de costumes, de vestuário.

      Este livro é uma viagem, sim, mas não tem itinerário definido, nem sequer exige reconhecimento dos espaços visitados, que podem ser em tantos lugares diferentes. A viagem também é geográfica, mas o mapa que vai traçando é sobretudo mental, invoca aldeias e praias em diferentes tempos, convoca pessoas, mulheres, e chama-as pelos nomes, faz, desfaz e refaz os puzzles possíveis da nossa memória partilhada. Se há eixo que esta narrativa atravessa é o do tempo, muito mais que o do espaço. E ainda que fale de paisagens, a referência é sempre temporal: o modo como mudaram tanto desde que Maria Lamas escreveu o seu livro, o modo como continuam absolutamente iguais desde essa mesma altura. O tempo baralha-se e baralha-nos. É preciso não perder os fios condutores, porque as divisões cronológicas podem servir para arrumar momentos históricos, mas são de pouca utilidade para nos situarmos. Na narrativa, temos a filha pequena da narradora, mas temos também a sua avó, que podia pertencer ao livro de Maria Lamas, que pertence a este neste, sempre com propriedade plena: «O livro de Maria Lamas não terá chegado à minha avó. Os livros onde pessoas como a minha avó apareciam não chegavam às pessoas como a minha avó.» (pg.108)

      Há uma cadência nestas páginas que nos coloca muito perto, tão perto quanto possível, da voz narradora. Será estilo, mas é também um modo de estender os braços do texto e convocar quem o lê para uma proximidade que não é gratuita, que está inscrita no próprio texto como uma espécie de matriz, porque este não é só o relato de uma viagem, a releitura de um outro livro ou uma reflexão sobre o que mudou para as mulheres em Portugal ao longo das últimas décadas. Talvez seja sobretudo um belo ensaio sobre o tempo e o modo como nos situamos nele, querendo agarrar-nos a fronteiras muito bem arrumadas e descobrindo, a cada passo do caminho, que essas fronteiras talvez não existam. De certeza que não existem nos textos: «Viajo como quem lê, encontrando ligações entre lugares distantes ou personagens que não se conhecem, e que não existiriam de outro modo.» (pg.101)