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      «A Ásia é o lugar do mundo para o qual quero mais voltar»

       

      Hélder Beja

      João Paulo Cuenca regressa aos livros com Qualquer Lugar Menos Agora, colecção de relatos de viagem onde cabem Macau, Hong Kong, Japão e muitos outros destinos de um continente que nunca se cansa de percorrer. «Acredito que me conheço melhor viajando», diz o escritor brasileiro.

      A Ásia e em particular o Japão são uma paixão do escritor brasileiro João Paulo Cuenca – e não é de agora. Em 2010 publicava O Último Final Feliz Para uma História de Amor É um Acidente, romance fruto de uma estadia em Tóquio. Agora, Qualquer Lugar Menos Agora (Record), com o subtítulo “crónicas de viagem para tempos de quarentena”, reúne textos escritos ao longo de década e meia em diversos continentes, e passa outra vez pelo Japão e ainda pelo Camboja, Vietname, Coreia do Sul, Hong Kong e Macau.

      «Desde criança, sou absolutamente fascinado com a cultura japonesa. Para mim, trata-se do signo último do estrangeiro insular, uma identificação que carrego como vocação metafísica. Escrever o O Último Final Feliz Para uma História de Amor É um Acidente, esse romance “japonês” fruto de uma temporada por lá, foi uma forma de dialogar com esse espaço», conta João Paulo Cuenca ao Parágrafo.

      «Acho que passei muito tempo viajando para Europa, indo nas mesmas cidades, revisitando os mesmos museus, e isso agora me parece um desperdício de tempo e recursos. Hoje não tenho dúvida de que a Ásia, em especial seu sudeste, é o lugar do mundo para o qual quero mais
voltar», prossegue o autor. «Ali há sempre algo de misterioso e inapreensível. Além de ser, ao lado da África, o lugar onde o mundo está se reinventando e para onde está crescendo. Ao mesmo tempo, considero o extremo-oriente uma região co-irmã do Brasil, um país que está no extremo-ocidente do
Planeta, tendo como sua capital simbólica o Rio de Janeiro, onde nasci. Paisagens como as da Tailândia guardam muitas semelhanças com o Brasil, em especial nosso norte e nordeste.»

       

                   O simulacro de Macau

      Viajante persistente e muitas vezes solitário, Cuenca é como que um cronista do absurdo da vida, capturando pequenos quadros, vinhetas de uma realidade que bastas vezes teima em superar a ficção. Na crónica sobre Macau há uma zaragata à porta de um bar, uma fuga de limusine e todos os ingredientes para um thriller potente. «Esse relato [de Macau] talvez seja o mais literal do livro: a briga na calçada, a fuga numa limusine, o desembarque ali pela Rua da Felicidade, tudo aconteceu como escrevi — e com o dia amanhecendo», esclarece o autor. No texto destaca-se a impressão de simulacro causada pelos casinos-réplica do território e pelas ruas alcatifadas de pedra portuguesa.              Cuenca explica: «Macau nos faz pensar o tempo todo sobre a própria natureza do que enxergamos como autêntico. Como pergunto na crónica: em quanto tempo o Venetian de Macau será visto como uma construção histórica, comparável com as igrejas coloniais portuguesas? Acredito que não tardará muito, o contemporâneo tende cada vez mais a confundir esse tipo de referência. O único lugar no mundo que me despertou igual reflexão (e espanto!) foi Washington, com seus monumentos do século XIX, erguidos por negros escravizados, emulando um milenar império romano. Boa parte dos turistas da capital americana deve encarar aquelas colunas neoclássicas da mesma forma que vê o Pantheon, em
 Roma.»

       

      Imagens viajantes

      Os relatos de Cuenca em Qualquer Lugar Menos Agora vêm por vezes acompanhados de fotografias – e estas não são as únicas imagens a formar parte da experiência do livro. Estão disponíveis online (https://vimeo.com/showcase/8599598) nove vídeo-trailers referentes a outros tantos destinos e Hong Kong é um deles. Cuenca diz acompanhar «com apreensão» o actual momento do território vizinho e lembra a sua visita à cidade, anos atrás. «Estive em Hong Kong numa época em que os movimentos de rua ainda tinham um ar de liberdade e esperança, lembro
de ir na ocupação do prédio do HSBC e passar horas conversando com manifestantes.»

       

      A viagem enquanto fuga

      Está tudo no título: Qualquer Lugar Menos Agora. Se toda a viagem é uma espécie de fuga, este livro tenta escapar-se ao momento que o mundo, e particularmente o Brasil, atravessa. As crónicas de Qualquer lugar menos agora são  uma «tentativa de racionalização» do constante impulso de viajar. «O conjunto delas traz os motores e as engrenagens desse movimento. Durante os 15 anos em que escrevi esses relatos de viagem estive às turras com o meu país e, em especial, com o Rio de Janeiro. As viagens eram também fruto de um desejo de fuga e desaparecimento», admite.

      Para este viandante,  «as viagens são sempre uma forma de investigação pessoal». «Acredito que me conheço melhor viajando. E entendo melhor de
 onde vim», diz Cuenca, que salva os seus relatos de um pecadilho tão recorrente noutros cronistas contemporâneos: o de debitar verdades absolutas e simplistas sobre lugares mutantes e complexos. Quando chega a uma nova cidade, Cuenca tenta «vê-la como uma criança que se vê diante de algo pela primeira vez, com estranheza». «Não buscando o que há de familiar, mas o que há de extraordinário. Ou, como diria [Georges]Perec, de “infraordinário”.»

      Com motivos de sobra para andar decepcionado com o seu país, o escritor encara este lugar, este agora,  com pragmatismo. «Minhas prioridades nesse país hoje são modestas: comer pelo menos duas vezes por dia, dormir pelo menos oito horas por dia e manter a sanidade mental. Em suma, sobreviver. Esses fascistas milicianos logo serão catapultados do poder e presos, e nós precisamos acima de tudo 
sobreviver a eles.»

       

      João Paulo Cuenca
      Qualquer Lugar Menos Agora
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