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      VÍRGULA

      José Luís Peixotos

      Casas cheias de viagem

      «Regressei das minhas viagens. Naveguei construindo a alegria.» Estas palavras estão gravadas numa viga de madeira, com o imenso Pacífico em fundo, na Isla Negra, Chile. Depois de esperarem pela sua vez numa pequena fila espontânea, os turistas posam para fotografias com esse cenário. Estão perante uma imperdível oportunidade de conteúdo para as redes sociais.  Numa só imagem: retrato + paisagem incrível + frase inspiradora.

      A viga de madeira com essa inscrição faz parte da segunda casa de Pablo Neruda. Por momentos, ao seguir o guia de divisão em divisão, pareceu-me provável que Neruda, ainda vivo, já imaginasse a sua casa assim: a ter de pagar-se bilhete para entrar, com loja de souvenirs à saída. Esta suposição surgiu ao aperceber-me que, em cada detalhe, a casa parece pensada como um museu. Por um lado, as colecções de tudo: garrafas, conchas, figuras de proa de barcos antigos. Por outro lado, a imponência do oceano a impor-se através de janelas gigantes, com os barcos e o mar a serem tema omnipresente, tanto na arquitectura como no imenso caleidoscópio de objectos. Uma cuidadosa curadoria, conciliadora de unidade e diversidade. 

      Nem todos os poetas vivem na pobreza. 

      Alguns dias antes, tinha visitado a casa de Pablo Neruda em Santiago do Chile, a primeira. Fica convenientemente localizada no início da encosta do Cerro de San Cristóbal. Foi construída para Matilde Urrutia que, na época, era o seu amor secreto. Como nas outras casas, também esta se encontra marcada por originais ideias arquitectónicas do poeta e por coleções de objectos inusitados que recolheu pelo mundo, cada objecto a condensar a sua própria história. Uma atenção ao macro e ao micro que, provavelmente, deve muito à experiência da poesia: a arquitectura do poema transposta para a arquitectura da casa, a cuidadosa escolha de cada objecto não tão diferente da cuidadosa escolha de cada palavra, colecções de verbos, substantivos, adjectivos. Dada a forte inclinação do terreno, as escadas são estruturantes na composição de La Chascona, nome que Neruda escolheu para essa casa. Em fila indiana, os turistas sobem e descem estreitas escadas em caracol.

      Também em La Sebastiana, a terceira casa de Neruda, as escadas são fundamentais. Numa carta que ficou conhecida e que aparece citada em todos os folhetos que são distribuídos na visita a essa casa, Pablo Neruda escreveu: «Sinto cansaço de Santiago. Quero encontrar em Valparaíso uma pequena casa para viver e escrever tranquilo. Tem de possuir algumas condições. Não pode ser nem demasiado alta, nem demasiado baixa. Deve ser solitária, mas não em excesso. Vizinhos, oxalá invisíveis. Não devem ser vistos ou ouvidos. Original, mas não incómoda. Ampla, mas forte. Nem muito grande, nem muito pequena. Longe de tudo, mas perto de transportes. Independente, mas próxima do comércio. Além disso, tem de ser muito barata.» O que impressiona não é o facto de um pedido tão exigente ter sido satisfeito, mas sim o facto de La Sebastiana o superar em todos os critérios exigidos, com a necessária subjectividade de todos estes critérios, inclusivamente o económico. Não é uma metáfora, afirmar que o quarto do poeta nesta casa fica no céu. Esse é o caso de toda a casa, desde a maioria das divisões, sobretudo desde o escritório, a vista sobre a cidade de Valparaíso é avassaladora.

      As casas do poeta parecem propor uma trilogia semelhante à que começou a publicar em 1935, constituída pelos volumes: Residência na Terra, Residência na Terra II e Terceira Residência. 

      Se Neruda não tivesse confessado que viveu, bastava visitar qualquer uma das suas três casas para se ficar com essa certeza. Para lá dos postos que ocupou como cônsul e embaixador, viajou abundantemente pelo mundo. O cuidado extremo que dedicou a estes espaços mostra que a casa é fundamental para a viagem, determina-a. Há o lugar de onde se parte e onde se chega. Esses dois pontos são fundamentais na definição do percurso. Da mesma maneira que levamos sempre connosco a casa que soubemos construir, o que somos, também acrescentamos sempre a essa construção perpétua o caminho, os lugares onde estivemos. Casa ou poema, Neruda sabia mais do que nós.